O casamento é a solução para a pobreza?

18/03/2024 às 20:003 min de leituraAtualizado em 21/03/2024 às 10:52

A Girls Not Brides é uma organização governamental internacional sem fins lucrativos cuja missão é acabar com o casamento infantil em todo o mundo. Em um relatório publicado em março de 2023, ela apontou que cerca de 23% das meninas na Tailândia se casam antes dos 18 anos e 4% antes de completar 15 anos. No caso dos meninos, 10% se casam antes dos 18 anos. Atualmente, o país possui a 11ª maior taxa de casamentos infantis entre meninos em todo o mundo.

Entre 2015 e 2016, a UNICEF divulgou suas "Pesquisas por agrupamento de indicadores múltiplos" (estudos domiciliares que fornecem dados estatísticos rigorosos sobre crianças e mulheres), que mostraram que 30% das mulheres nas famílias mais pobres da Tailândia se casaram antes dos 18 anos, em comparação com 10% das famílias mais ricas. Nessa mesma época, a organização humanitária Plan International estimou que cerca de 800 milhões de mulheres no mundo poderiam enfrentar as repercussões dos casamentos infantis até 2020.

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Cerca de 800 milhões de mulheres no mundo poderiam enfrentar as repercussões dos casamentos infantis até 2020. (Fonte: GettyImages/Reprodução)

Os números evidenciam apenas um problema milenar da estrutura da sociedade: muitas meninas são empurradas para casamentos para que suas famílias possam cobrar seu preço, conhecido como "dote da noiva", e aliviar a percepção de um fardo financeiro. Muitos pais acabam pressionando seus filhos para se casarem cedo para protegê-los de um futuro miserável.

Com as eleições presidenciais norte-americanas se aproximando, alguns jornais lembraram que em 2014 os republicanos alimentaram a ideia que o casamento é a solução para a pobreza.

Dinheiro: a base de um esquema

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Famílias cobram o "dote da noiva". (Fonte:GettyImages/Reprodução)

Em janeiro de 2014, o senador republicano estadunidense Marco Rubio repercutiu no mundo todo ao dizer que, quando a Guerra à Pobreza começou, em 1964, 93% das crianças nascidas nos EUA eram de pais casados, chamando o casamento de “a maior ferramenta para tirar crianças e famílias da pobreza".

Essa fala aconteceu bem no aniversário de 50 anos da campanha lançada pelo presidente americano Lyndon B. Johson, na década de 1960, cujo intuito era combater a pobreza e a falta de oportunidades no país por meio da criação de uma sociedade mais justa e equitativa, fornecendo assistência econômica aos estadunidenses em situação de vulnerabilidade.

Só que, ao contrário do que Rubio disse, o casamento não resolve a pobreza e, no caso dos conservadores de direita do Congresso americano, não passa de uma ferramenta para manutenção de uma estrutura/cultura que naturalmente enfrenta seu declínio, além de gerar gastos absurdos em algo que nada deveria ser do assunto político. 

(Fonte:GettyImages/Reprodução)
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A Era Bush também foi conhecida por aplicar milhões de dólares em uma iniciativa federal para promover o casamento como cura para a pobreza por meio de programas que, como descreveu uma pesquisa do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), "não tiveram impacto ou efeito negativo nos relacionamentos dos casais que participaram".

Em meados de 2006, a mando de ativistas evangélicos, legisladores republicanos famosos lançaram a "Iniciativa Federal de Casamento Saudável", elaborada para ajudar casais de baixa renda a "colocar os ovos para cozer" e pais solteiros pobres a não gerarem filhos, na esperança que o casamento melhorasse suas finanças e os tirasse do Banco Federal.

O dinheiro foi para empresas como a Laugh Your Way to America, um programa dirigido por um ministro de Wisconsin que não falava espanhol, mas dava seminários a latinos, desviado do programa de assistência social para ser injetado em grupos religiosos que foram trabalhar tentando combater a taxa de divórcio em suas comunidades. Eles patrocinaram as denominadas "noites de namoro" e "oficinas de romance" para tentar formar casais. Alguns até pagaram atletas profissionais famosos para encabeçar anúncios de serviço público divulgando os benefícios do casamento.

Por isso faz sentido que os políticos tenham se empenhado tanto em canalizar dinheiro para programas fracassados de promoção do casamento, chegando até a incentivar os políticos a restringirem os direitos reprodutivos para forçar as pessoas a se casarem.

A questão do matrimônio moderno

(Fonte:GettyImages/Reprodução)
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E não se engane: 40 anos depois da Era Bush, os EUA ainda mantêm estas iniciativas por meio de programas como "Casamento Saudável e Paternidade Responsável", subsidiados pelo governo federal, apesar de professores de direito especializados em família e pobreza terem comprovado que não há provas de que esses programas federais tenham feito a diferença no incentivo às famílias com dois pais.

Em um artigo de 2008 para o Journal of Policy Analysis and Management, os autores Deborah Roempke Graefe e Daniel T. Lichter salientaram: "É improvável que as políticas que promovam o casamento forneçam uma solução política de longo prazo para a pobreza e a dependência do bem-estar”.

(Fonte:GettyImages/Reprodução)
(Fonte:GettyImages/Reprodução)

Eles ainda reforçaram que diante de uma economia que oferece pouca promessa para quem está na base, o casamento se tornou cada vez menos um caminho para a mobilidade financeira ascendente. 

Ou seja, fazer um planejamento familiar em nome disso simplesmente não faz sentido. Do ponto de vista macroeconômico, para que o casamento fosse salvo, seria necessário acabar com a pobreza. Os jovens casais podem ser incentivados a se casarem diante da criação de bons empregos com salários crescentes na base da escala de renda, ainda que seja uma tarefa praticamente ilusória.

“A menos que melhoremos a sorte dos trabalhadores pobres, não veremos o casamento voltar”, disse W. Bradford Wilcox, diretor do National Marriage Project, ao The New York Times.

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