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Gbadolite: a "Versailles africana" que virou cidade fantasma

Há algumas semanas, o MegaCurioso publicou um post sobre cidades-fantasma que haviam sido abandonadas sem muito motivo. Ao longo da pesquisa, esse redator que vos fala se deparou com a história descrita aqui — que, pensamos, merecia uma matéria apenas sobre ela, porque é bizarra. 

Hoje, Gbadolite é tomada por ruínas. Mas entre os anos 1970 e 1990, a cidade era um oásis de luxo e modernidade no meio da selva do Congo: chegou a ser conhecida como a “Versailles da Selva”, em referência à corte do rei francês Luís XIV. Tudo por conta da vontade — e poder — de um ditador, Mobutu Sese Seko. Para entender como isso tudo aconteceu, continue a leitura. 

O Galo que Canta Vitória

Mobutu Sese Seko era formado em jornalismo na Bélgica e fazia parte do serviço militar do Congo Belga — ainda colônia do país europeu —, mas não era figura de destaque na política do país. Ele ascendeu ao poder após uma crise interna entre o presidente e o primeiro-ministro — ordenando a execução deste segundo, em 1961, e dando um golpe de estado no primeiro, em 1965. 

O ditador do Congo — quer dizer, Zaire — Mobutu Sese Seko
O ditador do Congo — quer dizer, Zaire — Mobutu Sese Seko (Fonte: Wikimedia Commons)

A partir disso, Mobutu se tornou um dos maiores exemplos daqueles ditadores africanos que ficam por décadas no poder, perseguindo qualquer oposição e usando a riqueza do país para enriquecer sua família. Além disso, ele mudou o nome do país para Zaire, com a desculpa de apagar o passado colonial europeu. 

Na mesma época, ele mudou também o seu próprio nome: de Joseph-Désiré Mobutu para Mobutu Sese Seko Kuku Ngbendu Wa Za Banga. A frase, na língua local, significa “O Galo que Canta Vitória, o Guerreiro que Conquista Sem Nunca Ser Detido”. Um nome bastante modesto, não?

De volta para minha terra

Falar sobre o narcisismo de Mobutu Sese Seko é essencial para entender o que ocorreu em Gbadolite. Isso porque o ditador do Congo investiu uma quantia astronômica de dinheiro (só em um palácio foram 400 milhões de dólares) para fazer da aldeia onde nasceu a cidade mais moderna do país. Ressaltar sua própria história é algo que combina com qualquer ditador narcisista…

Até a década de 70, o local tinha pouco mais de 1500 habitantes. Mas, pelas mãos de Mobutu, a cidade recebeu diversas escolas e hospitais entre os mais modernos de todo o continente, prédios públicos para os ministérios e um grande hotel cinco estrelas, que hospedava príncipes europeus. 

Hoje, restam apenas as ruínas do grande palácio de Mobutu Sese Seko
Hoje, restam apenas as ruínas do grande palácio de Mobutu Sese Seko (Fonte: The Guardian/Reprodução)

A pequena vila ganhou até um aeroporto internacional, com uma pista de 3.200 metros para permitir o pouso de um avião supersônico Concorde. Durante os anos de ouro de Mobutu, voos eram fretados para o aeroporto para trazer políticos e personalidades do mundo todo para aproveitar o luxo de Gbadolite — especialmente de seus palácios.

Sim, palácios no plural, pois eram três. Um era mais próximo da cidade, para funções públicas, outro ficava nos arredores de Gbadolite e tinha sua arquitetura inspirada nas pagodas chinesas

O principal, onde o ditador morava, também ficava mais distante do centro e era o mais luxuoso de todos: todo revestido em mármore de Carrara, um dos mais caros do mundo, tinha duas piscinas com grandes estátuas de leões de bronze, era repleto de obras de arte, incluindo Picassos, e todo mobiliado com itens franceses. Para manter tudo isso, mais de 700 empregados trabalhavam no palácio. Um luxo sem igual, em um país onde a maioria da população passava fome. 

Um amontoado de ruínas, no meio da Selva

Outro detalhe interessante sobre essa história é que Gbadolite fica no meio da selva, a milhares de quilômetros da capital do país, Kinshasa — esta, uma das maiores cidades da África e de todo o mundo, com mais de 14 milhões de habitantes. 

Gbadolite fica no extremo norte do Congo, a milhares de km de Kinshasa
Gbadolite fica no extremo norte do Congo, a milhares de km de Kinshasa (Fonte: Google Maps)

Sendo assim, é compreensível que a cidade tenha caído em decadência, junto com Mobutu Sese Seko. Ao longo dos anos 90, as riquezas naturais passaram a render menos dinheiro e a corrupção começou a cobrar seu preço. O país começou a ficar ainda mais pobre do que já era, levando o regime ditatorial ao colapso. Em 1997, após 32 anos no poder, Mobutu morreu no exílio. 

O luxuoso palácio foi saqueado e, hoje, restam apenas suas ruínas. O aeroporto feito para receber Concordes conta apenas com voos regionais e aviões de ajuda da ONU. Os modernos prédios ministeriais se tornaram escolas improvisadas. O grande hotel cinco estrelas está às moscas, sem os hóspedes de outros tempos. Sem manutenção, a natureza da selva africana tomou conta do que ainda resta das construções. 

Entre 100 e 200 mil pessoas ainda vivem em Gbadolite, que é capital da província de Nord-Ubangi. Pouco para uma cidade com tantas construções e menos ainda para um país com mais de 84 milhões de habitantes, como o Congo. Veja mais fotos das ruínas de Gbadolite:

O saguão do grande aeroporto internacional — que hoje só recebe voos de pequeno porte
O saguão do grande aeroporto internacional — que hoje só recebe voos de pequeno porte (Fonte: The Guardian/Reprodução)
O saguão do aeroporto que já recebeu aviões supersônicos e celebridades internacionais (Fonte: The Guardian/Reprodução)
O saguão do aeroporto que já recebeu aviões supersônicos e celebridades internacionais (Fonte: The Guardian/Reprodução)
O Motel Nzekele já foi um luxuoso resort cinco estrelas (Fonte: The Guardian/Reprodução)
O Motel Nzekele já foi um luxuoso resort cinco estrelas (Fonte: The Guardian/Reprodução)
Sem manutenção, sobra pouco da
Sem manutenção, sobra pouco da “era de ouro” do hotel (Fonte: The Guardian/Reprodução)
Nem as cadeiras do cinema do Hotel sobreviveram à ação do tempo (Fonte: The Guardian/Reprodução)
Nem as cadeiras do cinema do Hotel sobreviveram à ação do tempo (Fonte: The Guardian/Reprodução)
Do luxuoso palácio onde Mobutu Sese Seko morava sobrou menos ainda
Do luxuoso palácio onde Mobutu Sese Seko morava sobrou menos ainda
A construção foi completamente saqueada quando Mobutu foi deposto, após 32 anos no poder (Fonte: The Guardian/Reprodução)
A construção foi completamente saqueada quando Mobutu foi deposto, após 32 anos no poder (Fonte: The Guardian/Reprodução)
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