Como os carros contribuíram para o fim da segregação racial nos EUA?

Em 1º de dezembro de 1955, após Rosa Parks, uma mulher negra norte-americana, ser presa por ter-se recusado a ceder o seu lugar, em um ônibus, a um homem branco, os afro-americanos do estado do Alabama decidiram dizer chega a segregação nos meios de transporte do sul dos Estados Unidos.

Quatro dias depois do episódio com Parks, teve início o boicote aos ônibus de Montgomery, que tinha o objetivo de desafiar as estruturas desiguais que endossavam a supremacia branca. Para que a manifestação desse certo, os negros usaram uma arma improvável, mas extremamente útil ao seu favor: os carros.

Conforme o livro Driving While Black, da escritora Gretchen Sorin, estima-se que cerca de 475 mil famílias afro-americanas tinham pelo menos 1 carro na década de 1950 — visto que muitos investiam em automóveis porque eram impedidos de comprar casas devido ao redlining e outras políticas discriminatórias do país.

Unidos por uma causa

(Fonte: Raphael Nery/Reprodução)(Fonte: Raphael Nery/Reprodução)

Para que o protesto contra os ônibus desse certo, os organizadores da Montgomery Improvement Association sabiam que precisavam garantir uma maneira de os manifestantes boicotarem sem perderem seus meios de subsistência.

Portanto, eles estabeleceram uma rede de serviço de táxi particular na cidade, uma espécie de Uber do século XX. Para suprir a demanda dos 17 mil passageiros de ônibus que eram negros e pegavam o transporte 2 vezes ao dia, eles receberam doações de uma frota de 15 peruas Kombi da Volkswagen doadas por igrejas negras e apoiadores do Norte — porque eram mais difíceis de serem apreendidas do que os carros de propriedade privada.

(Fonte: Socialist Alternative/Reprodução)(Fonte: Socialist Alternative/Reprodução)

Uma associação de agricultores negros alugou um estacionamento seguro para a frota por um preço barato, e um agente de seguros afro-americano financiou o seguro dos carros quando as seguradoras brancas se recusaram a participar do boicote.

Para custear o combustível e a manutenção dos veículos, as mulheres negras que trabalhavam como domésticas na casa de brancos viraram noites e fins de semana cozinhando para venderem bolos e alimentos para erguer o dinheiro dos gastos. Elas vendiam para os brancos, principalmente, que não faziam ideia de que a compra ajudaria a financiar o boicote que eles se opunham.

Desafiando o sistema

(Fonte: Flickriver/Reprodução)(Fonte: Flickriver/Reprodução)

Como medida para frear o boicote, o prefeito branco de Montgomery, W.A Gayle, fez acordos para que as pessoas brancas ficassem mais vigilantes em relação aos carros dos negros que davam caronas, instituindo políticas mais duras para qualquer infração de trânsito, real ou imaginária.

“É porque cada família estava desafiando a supremacia branca. Estava desafiando o status quo, a segregação. Embora fosse perigoso, também era corajoso”, ressaltou Sorin.

(Fonte: Flickr/Reprodução)(Fonte: Flickr/Reprodução)

Após 11 meses de boicote, o prefeito impôs uma liminar alegando que a empresa de caronas era privada e operava sem autorização legal. Contudo, já era tarde demais para os segregacionistas, pois, no mesmo dia, a Suprema Corte dos EUA declarou a segregação de ônibus inconstitucional.

Um ano depois que Rosa Parks se recusou a ceder ao sistema, o boicote terminava em triunfo total, apenas porque os negros se uniram por uma causa maior, sabendo que as rodas daqueles ônibus passavam diariamente por cima deles quando pagavam a passagem para se sentar nos fundos.

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