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Cais do Valongo: a vitrine da escravidão no Rio de Janeiro

Em 2011, foi redescoberto o Cais do Valongo durante escavações feitas para a reforma urbana da zona portuária do Rio de Janeiro. Soterrado há 168 anos, o local foi palco de um dos piores episódios da história da humanidade: a escravidão, da qual o Brasil fez parte por 300 anos.

"O Cais do Valongo é um lugar simbólico, porque ali está o passado da população afrodescendente do país", disse a arqueóloga Tânia Andrade Lima, em entrevista ao Diário do Rio.

O governo da cidade nunca fez questão de evidenciar o passado doentio do local, muito pelo contrário, até que fosse escavado havia apenas um totem informando que ali existira o Cais da Imperatriz, erguido pela corte portuguesa para o casamento de Teresa Cristina com Dom Pedro II.

Vitrine para brancos

(Fonte: Diário do Rio/Reprodução)(Fonte: Diário do Rio/Reprodução)

Por muitos anos, os escravos que desembarcavam no Brasil entravam pela Praia do Peixe (atual Praça XV), e eram negociados na Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março), bem no centro do Rio, à vista de todos.

Até que em 1779, o Marquês Lavradio, vice-rei do Brasil, estabeleceu uma nova legislação que movia o comércio negreiro do Rio para a região para o Cais do Valongo. Dessa forma, ele visava evitar que a elite tivesse contato com os problemas causados pelo tráfico, como doenças trazidas pelos negros e a decadência de vê-los nus, bem como preservar a imagem "europeia" da cidade perante os turistas.

Entretanto, o Valongo se tornou mais do que o local onde as pessoas iam para comprar escravos depois que a corte real chegou no país, era também onde os escravos passavam por uma longa recuperação da viagem nos navios abarrotados, antes de serem vendidos em "perfeito estado" como mão de obra.

(Fonte: Gestão Educacional/Reprodução)(Fonte: Gestão Educacional/Reprodução)

O local se tornou um complexo, que incluía o Cais de Desembarque: por onde os africanos chegavam; as Casas de Engorda: onde eram alimentados para engordarem e parecerem saudáveis para seus proprietários; os Armazéns de Venda: "vitrines" onde eram expostos para os senhorios; e também os Cemitérios dos Pretos Novos: valas sem marcação onde eram jogados aqueles que não sobreviviam ao translado marítimo massacrante.

Além disso, Valongo também era um espaço de quarentena para aprendizado da língua, de práticas do trabalho e aulas de processo de socialização para a "nova vida" que os negros teriam.

Local de desespero

(Fonte: Geledes/Reprodução)(Fonte: Geledes/Reprodução)

O cais viveu o seu auge de sucesso após 1808, quando o tráfico de africanos dobrou de 15 mil para 30 mil escravizados desembarcando no local. Entre 1811 e 1831, metade do Produto Interno Bruto (PIB) do país vinha do tráfico negreiro, que acumulou nesse período mais de 1 milhão de africanos dos 4 milhões que entraram no Brasil pelo ancoradouro até 1850. Essa economia movida a vender gente foi o que levou o país a ser o último local do ocidente a abolir a escravatura.

Naquela época, cada escravo tinha um preço. Um jovem, saudável e com alguma habilidade especial, como a carpintaria, poderia ser vendido pelo equivalente a R$ 215. No final do século XIX, quando o Brasil estava no ponto mais alto de compra e venda de escravos, a renda da tributação do mercado negreiro era altíssima, porém o Rio era um polo distribuidor muito forte.

(Fonte: Escola Educação/Reprodução)(Fonte: Escola Educação/Reprodução)

Vindos da Angola, África Oriental, Guiné e da África Ocidental, ainda que os navios aportassem aqui no Brasil nos entrepostos do Maranhão e da Bahia, a maioria tinha que passar pelo Cais do Valongo para que os traficantes pagassem seus impostos. Só então seus “produtos” saíam da capital direto para plantações ou outras regiões do país. 

E apesar dos esforços das autoridades em "blindar" a elite dos horrores que acontecia à luz do dia, a viajante inglesa Maria Graham escreveu em seu diário de viagem, entre 1821 e 1823: “Todo o tráfico de escravos surge com todos os seus horrores perante nossos olhos”.

Na História

(Fonte: Prefeitura do Rio/Reprodução)(Fonte: Prefeitura do Rio/Reprodução)

Foi só em 1831 que o Cais do Valongo foi fechado definitivamente, quando o Brasil cedeu à pressão da Inglaterra para a proibição do tráfico transatlântico. Ainda assim, os traficantes continuaram usando portos clandestinos para trazer sua "mercadoria" para o país.

Em 1911, após a própria corte portuguesa apagar o levante histórico que causou, o prefeito Pereira Passos aterrou de vez esse marco histórico da cidade com suas reformas urbanísticas que deram lugar à Praça do Comércio.

Em 2017, o Cais do Valongo recebeu o título de Patrimônio Mundial pela Unesco, considerado o maior sítio de memória da Diáspora Africana fora da África, além de refletir o papel da violência que o Brasil foi o último a abrir mão.

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