Como entendemos que nós somos nós mesmos?

Como entendemos que nós somos nós mesmos?

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Tem coisas tão simples em nossa vida que nós raramente pensamos sobre elas. Respirar e piscar, por exemplo, ou entender que a gente é a gente mesmo. 

Afinal, existe algo no seu cérebro que sabe separar a sua mente das de outras pessoas. Por mais que a gente nem pense nisso, já que é algo tão natural, essa não é uma capacidade que nasce com a gente. Nosso cérebro aprende a ter autoconsciência

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Quem afirma isso é o especialista em psiquiatria Sam Ereira, da University College London, que publicou um estudo sobre isso na revista Nature Communications

Tudo se copia

Isso começa com a nossa habilidade de "copiar" os pensamentos dos outros. No fim das contas, é dessa maneira que nós aprendemos a andar, falar e a viver em sociedade, não é mesmo? Estudos anteriores já mostraram que, quando vemos uma pessoa ganhando um prêmio, nossa atividade cerebral é muito parecida com a da pessoa premiada. 

Isso indica que, quando "nos colocamos no lugar" de alguém, nosso cérebro realmente imita os padrões do cérebro dessa pessoa. 

Por outro lado, a simples capacidade de entender que o seu cérebro e o da outra pessoa são "entidades" separadas — mesmo que com atividade semelhante — é um dos mecanismos mais sofisticados da mente humana e essencial para que essa habilidade de "copiar" seja algo saudável (e não um problema). A questão é: como sabemos que ela ocorre? E de que forma testá-la?

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A falsa crença... 

O estudo realizado por Ereira sobre a autoconsciência é bem simples, porém é melhor explicar por partes para não ficar confuso. 

Ele é inspirado no método da "falsa crença", muito utilizado no campo da psicologia experimental: duas pessoas estão em uma sala e sabem que um prêmio está em uma caixa. Uma das pessoas sai da sala, e o pesquisador muda o prêmio de lugar. Apenas a pessoa que ficou ali tem ciência disso e de que o outro indivíduo não sabe que o prêmio mudou de lugar. Logo, a pessoa que se manteve no local sabe que o pensamento dela é diferente do da outra e sua consciência consegue separar as duas coisas. Deu para entender, né?

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Porém, quando aquela que saiu descobre que o prêmio não está mais no lugar imaginado ou recebe o prêmio inesperadamente, o cérebro da primeira pessoa imita a atividade cerebral, como já foi explicado. A pesquisa de Ereira queria se aprofundar justamente nesse ponto: se a atividade cerebral é a mesma, como nossa mente distingue o que é nosso daquilo que é imitação da mente do outro?

... e a falsa crença de Schrödinger

O pesquisador, então, criou um método que ele mesmo batizou como "falsa crença de Schrödinger". Isso porque, na experiência de Ereira, nenhum dos dois participantes sabe onde o prêmio realmente está. Ele sempre pode estar ou não na caixa. Pois é...

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O que o pesquisador pretendia, dessa maneira, era desafiar os participantes a pensar onde o prêmio estava enquanto eles tentavam adivinhar o que seus colegas também estavam pensando. Dessa maneira, quando ele descobrisse que o objeto não estava no lugar onde pensava, ficaria surpreso e teria um determinado padrão de atividade cerebral. 

Além disso, quando ele soubesse que seu colega teve outra surpresa, sua mente imitaria esse padrão de atividade cerebral do outro. É um pouco confuso, mas a ideia é simples: o pesquisador queria descobrir se a atividade cerebral da nossa surpresa é igual ou diferente da de outra pessoa, que aconteceu pela imitação. 

Qual a conclusão disso tudo? Bom, Ereira descobriu que a atividade cerebral nas duas situações é diferente. Portanto, nossa mente não apenas armazena pensamentos sobre o mundo, mas também entende o que outras pessoas estão pensando dele. 

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Segundo o pesquisador, é essa combinação que forma nossa autoconsciência — capacidade de entender que a nossa mente e a dos outros são algo separado. 

Por outro lado, a experiência também demonstrou que essa "separação" não é fixa: as pessoas podem pensar de forma mais parecida (ou diferente) conforme recebem informações iguais com maior (ou menor) frequência. Isso explicaria porque duas pessoas que convivem demais começam a pensar da mesma forma e até completar as frases uma da outra. 

Além disso, sabendo que essa "separação" é maleável, os cientistas podem aprender como manipulá-la para fazer com que as pessoas tenham mais empatia ou sejam menos preconceituosa. A descoberta também pode ser útil para o tratamento de diversos transtornos psiquiátricos.

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