Diversas partes da anatomia humana ainda são um mistério para a ciência. São estruturas que ainda não entendemos o motivo de existirem no corpo humano. Além delas, há também órgãos e formações vestigiais, que se acredita estarem em processo de desaparecimento, como o apêndice, o cóccix e os dentes do siso.

Uma parte do corpo que diferencia os seres humanos de outros indivíduos do gênero Homo é o queixo. Isso mesmo, essa estrutura aparentemente sem função, que serve no máximo para exibir uma charmosa covinha ou modelos estilosos de barba nos homens, é muito mais proeminente na gente, o Homo sapiens, do que nos nossos primos mais próximos e mais antigos, como o homem de Neanderthal, o Homo florensis e o Homo heidelbergensis.

À esquerda, crânio de Homo sapiens, com a saliência do queixo. À direita, crânio de Homo neanderthalensis, que não apresenta queixo.

Até hoje, acreditava-se que o queixo teria se desenvolvido como um meio de contrabalancear as forças exercidas pela mandíbula na mastigação. Outra hipótese muito considerada era que o desenvolvimento da fala teria alterado nossas mandíbulas e criado essa curiosa protuberância. Porém, estudos recentes conduzidos pelo antropólogo Nathan Holton, da Universidade de Iowa, nos EUA, mostraram que esse aumento do queixo, na verdade, não influencia no estresse sofrido pela mandíbula e, portanto, teria algum outro motivo.

Nem para mastigar, nem para falar

Aparentemente, “queixudos” famosos, como o cineasta Quentin Tarantino e o apresentador americano Jay Leno, podem apontar a diminuição natural do rosto do Homo sapiens como a culpada por seus belos queixos. Depois de analisar centenas de imagens de raio X, acompanhando o desenvolvimento do crânio de crianças até a idade adulta, os pesquisadores chegaram à conclusão de que o queixo não tem nenhuma função fisiológica, como ajudar na mastigação, e seria apenas uma alteração residual causada pelas mudanças nas características faciais do ser humano durante os anos de evolução.

O apresentador Jay Leno e o cineasta Quentin Tarantino.

Um dos pontos mais interessantes que foi notado é que o queixo se desenvolve conforme a pessoa vai ficando mais velha. Porém, apesar disso, o maxilar de uma criança de três anos e portanto com um queixo ainda pouco desenvolvido, resiste melhor a certas forças exercidas do que pessoas adultas, já com essa estrutura mais proeminente.

Rosto menor, queixo maior

Apesar do mistério – e dos antropólogos poderem apenas especular quanto a isso –, nosso queixo seria resultado do encurtamento facial do Homo sapiens em relação a seus antepassados e outras ramificações evolutivas. Conforme o homem foi aprendendo a se relacionar cooperativamente com outros indivíduos da mesma espécie, seu corpo sofreu mudanças hormonais que alteraram sua fisiologia. A diminuição do uso da violência, um processo que podemos considerar sendo “civilizatório”, também cooperou com essas evoluções.

O ator Ron Perlman, com um queixo desse tamanho, nunca deveria ter sido escolhido para o papel de um homem de Neandertal em "Guerra do Fogo".

Além disso, o desenvolvimento cerebral também fez com que o órgão ocupasse uma área maior na caixa craniana, o que deixava menos espaço para o desenvolvimento do rosto. Outra coisa que também ajudou nesse encurtamento da face do Homo sapiens foi a diminuição das cavidades nasais, por causa da menor demanda de oxigênio de um corpo que também teve seu tamanho reduzido evolutivamente.

Toda essa “deformação”, ou melhor, reformulação do rosto humano gerou nosso belo queixo, que hoje em dia contribui bastante na constituição da beleza facial. Curiosamente, apenas o elefante possui uma estrutura muito similar ao nosso queixo, apesar de haver discordâncias quanto ao uso do termo em relação aos nossos amigos paquidermes.

Crânio de elefante mostrando uma grande protuberância como o nosso queixo.

O que o queixo diz sobre a gente?

Crenças, superstições e pesquisas científicas duvidosas atribuem uma porção de características de acordo com o tamanho do queixo de uma pessoa. Quando é grande, indicaria que a pessoa é boa “de cama”. Porém, queixo proeminente em uma mulher significaria níveis mais altos de testosterona e, portanto, uma vida sexual mais ativa e maior propensão à traição. Um estudo holandês mostrou que o ser humano tem tendência a considerar pessoas de queixo pequeno inseguras e tímidas.

Grandes ou pequenos, simples ou com covinha e independentemente de sua função, não dá para negar que o queixo se tornou uma parte muito importante no desenho facial dos seres humanos, principalmente em um mundo onde aparência conta, e muito!

*Publicado em 30/04/2015