Cova 312: a história enterrada de um segredo da Ditadura Militar

Cova 312: a história enterrada de um segredo da Ditadura Militar

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Na sepultura 312, quadra L, do Cemitério Municipal Nossa Senhora Aparecida, na cidade mineira de Juiz de Fora, está sepultado um dos maiores segredos da Ditadura Militar brasileira.

Lá, entre túmulos e as tradicionais jaqueiras em flor, uma cruz sem nome passaria despercebida, não fosse a tenacidade de uma repórter do jornal local, a Tribuna de Minas. Foi nesse periódico, no ano 2000, que a jornalista e escritora Daniela Arbex iniciou uma reportagem investigativa sobre a morte do guerrilheiro gaúcho Milton Soares de Castro, o suposto ocupante daquele jazigo.

A guerrilha

A primeira guerrilha armada do Brasil pós-1964 ocorreu três anos após a eclosão do regime militar, na serra do Caparaó, divisa entre os estados de Minas Gerais e Espírito Santo, onde o Movimento Nacional Revolucionário arregimentou um grupo de militares cassados do Exército brasileiro.

Entre os antigos soldados e oficiais, apenas um civil se destacava: o operário metalúrgico Milton Soares de Castro, da cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul, que decidiu acompanhar um grupo de estrategistas até a serra, onde executariam o mapeamento do local para futuras operações. 

A expedição foi surpreendida pela Polícia do Exército que, em 1° de abril de 1967, invadiu o acampamento e ordenou a prisão de todos, levando-os para a Penitenciária Estadual de Linhares, em Juiz de Fora.

                                           Fonte: UOL/Reprodução

A morte

A chegada à penitenciária foi tensa. Depoimentos obtidos com outros presos relatam uma discussão violenta entre Milton e o então major Ralph Grunewald Filho, chefe do IPM (Inquérito Policial Militar) da guerrilha do Caparaó. 

Foi esse militar que iniciou o depoimento do guerrilheiro gaúcho, na noite do dia 27 de abril, na 4ª Divisão de Infantaria. Em seu livro, Daniela Arbex relata que o major iniciou o interrogatório num tom ríspido. O depoente, após assinar um documento de duas páginas, foi encaminhado à solitária num cubículo onde, na manhã seguinte, foi encontrado morto. 

Milton estava com o lençol de sua cama enrolado em volta do pescoço. O laudo registrou como causa mortis enforcamento devido a tentativa de suicídio. Segundo os legistas, foram observados alguns hematomas no corpo, principalmente na região dos joelhos.

As dúvidas

A notícia da morte causou impacto e revolta entre os presos. A cela foi lacrada e os companheiros de Milton começaram a contestar a tese de suicídio. Um deles, Gregório Mendonça afirmou que havia visto o corpo do colega envolto num lençol quando foi posto na  cela. 

As principais dúvidas que surgiram foram: como teria sido possível que um homem com mais de 1,80 m se enforcasse numa torneira de menos de 1,20 m de altura? O lençol, de pouco mais de 40 cm, seria suficiente para ser improvisado como forca?

Mesmo após a conclusão da repórter, de que o corpo de Milton estaria naquela obscura sepultura, os parentes dele jamais aprovaram um pedido de exumação dos restos mortais.

A Comissão Nacional da Verdade ainda considera o preso como desaparecido político até os dias de hoje.

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