Escritor forjou documentos de Shakespeare e enganou Londres no século 18
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Escritor forjou documentos de Shakespeare e enganou Londres no século 18

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Um escritor habilidoso foi capaz de enganar muita gente em Londres afirmando que era detentor de documentos de Shakespeare quase dois séculos depois da morte do famoso poeta. Seu nome era William Henry Ireland, e suas proezas ficaram marcadas para sempre na história da cidade. 

Tudo começou quando Ireland resolveu agradar seu pai, Samuel, um devotado colecionador de antiguidades e curiosidades. Para isso, ele lhe entregou um pergaminho selado com cera. Samuel ficou impressionado com o que viu: uma ação hipotecária datada de 1610 assinada por Shakespeare. 

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História bem contada

Apenas algumas assinaturas de Shakespeare haviam sobrevivido àquela época (final do século 18). Ireland afirmou que encontrou o documento ao revirar um baú antigo pertencente a um ricaço da cidade, descrito apenas como “Senhor H”. O tal Senhor H teria preferido ficar no anonimato para evitar ser incomodado, além de não demonstrar interesse nos documentos, de acordo com o falsificador. 

Samuel, o pai, resolveu investigar se os documentos eram realmente verdadeiros e os levou para uma consulta no College of Heralds, uma organização especializada em brasões e  pesquisa genealógica, que determinou que sim, eles eram legítimos. Foi aí que a história começou a ficar ainda mais complicada.

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Produção sem limites

Ireland falsificou mais documentos para impressionar o pai, e em um momento bem oportuno: naquela época, o interesse por Shakespeare tinha atingido seu mais alto nível desde a morte do artista. Dessa forma, "apareceram" cartas de amor escritas para a futura esposa, Anna Hatherrewaye, contratos de atores assinados, recibos teatrais e até mesmo um autorretrato cartoonizado bizarro. 

Mas isso foi apenas a ponta do iceberg. Ireland “obteve” livros da biblioteca de Shakespeare  com anotações pessoais, um rascunho inicial da peça “Rei Lear” e o mais surpreendente de todos os itens: uma peça completamente inédita chamada de “Vortigern and Rowena”. 

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Euforia coletiva

O material era tão convincente que enganou até mesmo o dramaturgo irlandês Richard Brinsley Sheridan, que comprou os direitos de “Vortigern and Rowena”. Outro que se impressionou com a coleção foi James Boswell, biógrafo, lexicógrafo e fanático por Shakespeare, que chegou a beijar as páginas de documentos falsificados após analisá-las por horas. 

Mas algumas inconsistências e materiais de baixa qualidade começaram a levantar suspeitas. Em 1796, Edmond Malone, a maior autoridade sobre Shakespeare na época, publicou uma análise detalhada sobre os documentos, argumentando que tudo não passava de uma fraude grosseira e ousada. 

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A mentira chegou ao fim

Ainda assim, a opinião ficou dividida. O livro de Malone era longo e acadêmico, e nem todos tinham a paciência para avaliar seus argumentos. Entretanto, tudo chegou ao fim quando o próprio Ireland confessou no mesmo ano que sua coleção inteira de achados havia sido forjada. 

Após uma temporada na prisão, ele se mudou para a França, onde escreveu livros sobre a história e a cultura francesa. Ele também publicou sua própria edição de Vortigern em 1832. No fim, morreu na pobreza em 1835. Hoje, William é visto com mais simpatia: um filho que estava tentando se aproximar do pai, mas que acabou sendo responsável por uma das maiores falsificações já vistas. 

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