As pessoas me julgam quando digo que não gosto de dormir, mas essa é a verdade. Tenho uma dificuldade gigantesca em pegar no sono e, sinceramente, interpreto dormir como perder tempo – nos finais de semana, por exemplo, que é quando não trabalho, dificilmente acordo depois das 7h e, se isso acontece, sinto que perdi o dia inteiro.

No meu caso, o motivo para gostar de acordar cedo está no fato de que sou mais produtiva pela manhã. Contudo, a questão de não gostar de dormir tem muito a ver com ansiedade e um pensamento sempre acelerado. O problema é que eu posso até não querer dormir, mas meu corpo tem deixado cada vez mais claro que ele quer, sim, uma boa noite de sono. Todo dia, portanto, eu me pergunto: por que a gente tem que dormir? Por que a gente tem que dormir tanto?

A verdade é que essa pergunta intriga até mesmo quem trabalha pesquisando o corpo humano, essa máquina fantástica com tantas facetas a serem desvendadas. A questão do sono, por exemplo, ganhou uma explicação recente, e obviamente eu tive que tentar entender um pouco sobre ela.

O sono vem e a memória fica

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Ao que tudo indica, dormir tem um papel fundamental para que o cérebro não fique sobrecarregado com as memórias novas que criamos a cada dia. Fechar as pestanas é como dar um belo banho em nosso órgão pensante, e pessoas como eu, que dormem pouco ou que têm um sono de má qualidade, precisam encontrar uma maneira de resolver esse problema – só o ato de pensar nisso já me tira o sono...

Quando ratos são privados de sono, eles acabam morrendo em um prazo de um mês. A mesma privação de sono em seres humanos é capaz de provocar alucinações e crises de epilepsia.

O fato é que dormir é importante por inúmeros motivos, tanto fisiológicos quanto mentais, e se você está estudando alguma coisa nova no momento, melhor ainda. Dormir bem nos ajuda a cimentar aquilo que aprendemos durante o dia, especialmente o que lemos pouco antes de pegar no sono – dica para quem está se preparando para o Enem e para o vestibular, hein!

Mas como?

Quem nunca?

Em termos de memória, funciona assim: memórias fresquinhas são carimbadas em nosso cérebro por meio do reforço das ligações entre nossas células cerebrais; por outro lado, ainda não entendemos ao certo como as memórias trabalham quando estamos dormindo – sabemos, no entanto, que durante o sono elas são mais bem consolidadas.

Enquanto dormimos, nossas conexões cerebrais ficam mais fracas, e é justamente essa uma das funções do sono: reajustar as frequências das atividades cerebrais de modo que tenhamos mais facilidade para armazenar novos aprendizados: “o sono é o preço que pagamos para aprender”, resumiu Giulio Tononi, da Universidade de Wisconsin-Madison.

Para fazer essa afirmação, Tononi e uma equipe de pesquisadores estudaram as sinapses cerebrais de alguns camundongos. A descoberta foi realmente significativa: durante o sono, havia uma redução de 18% das atividades cerebrais nos ratinhos.

E o quico?

Dormir é o segredo para aprender

Comprovar isso nos ajuda a entender por que é tão difícil conseguir se concentrar e aprender coisas novas depois de uma noite mal dormida – é tudo culpa do nosso cérebro, que passa a ter uma menor capacidade de codificar experiências novas. Ou seja: o ideal para aprender bem é dormir antes e depois de estudar um novo conteúdo – o que basicamente quer dizer que precisamos dormir bem todos os dias.

A questão de dormir bem faz muito sentido; afinal, se você fica oito horas na cama, mas acorda várias vezes durante a noite, significa que seu cérebro entra e sai da sintonia de ondas ideal para o descanso pleno – e voltar para esse estado de sono é algo que pode demorar algum tempo, por isso dormir mal é tão ruim quanto dormir pouco.

Essa nova descoberta, que comprova a redução do número de sinapses durante o sono, dá suporte à ideia de que dormir é um processo de limpeza cerebral e solidificação de memórias. Para você, isso pode parecer pouca coisa, mas a verdade é que os cientistas levaram quatro anos para analisar o trabalho de 7 mil sinapses cerebrais e conseguir chegar a essa conclusão.

Toda essa análise permitiu que os especialistas descobrissem que algumas sinapses estavam protegidas e não sofriam alterações durante o sono. Para Tononi, possivelmente essa é uma forma de o cérebro preservar as memórias mais importantes. O jeito, para quem é como eu, é apostar no chá de camomila, nas máscaras de olhos, na meditação e em exercícios de respiração que possam ajudar a relaxar com mais facilidade. Que esperneiem os insones, mas dormir é fundamental...

*Publicado em 21/07/2016