Se você acompanha as matérias aqui do Mega Curioso, é possível que você tenha notado que os redatores da nossa equipe muitas vezes escrevem mais sobre determinados assuntos do que outros. Isso acontece por conta da nossa afinidade com alguns temas; no meu caso, seriam tópicos relacionados com História, religião e exploração espacial, por exemplo.

Além desses, eu também já escrevi diversas matérias associadas à questão do Espaço-Tempo, e o motivo disso não é que eu entenda muito sobre o assunto não! Na verdade, a minha afinidade está ligada ao fato de que, desde que eu me lembro por gente, me recordo de ver o meu pai com livros sobre o Universo, buracos negros e brancos, teorias da física quântica etc. nas mãos.

Olha o Eduardo (esse é o nome do meu pai!) matutando sobre alguma teoria!

Pois, em uma de nossas conversas, meu pai me disse que o Tempo não existe, e a explicação que ele deu foi muito interessante — então pensei que seria legal dividir uma das muitas teorias dele com você!

Tic, tac, tic, tac...

Como você sabe, o tempo juntamente com o espaço, com o movimento absoluto, a matéria e a gravidade — entre outros — ainda constituem um profundo mistério para a Ciência. Todos nós estamos constantemente interagindo e sendo influenciados por eles e, no fundo, somos consequência de sua evolução. No entanto, apesar de termos consciência subjetiva de sua existência, não conseguimos objetivar a sua natureza.

O Espaço e, especialmente, o Tempo têm sido objetos de estudo de cientistas e filósofos desde a mais remota antiguidade. Ao longo da História, nós aprendemos a medi-lo com cada vez mais precisão, desde os ciclos diurnos e noturnos, dos relógios de Sol, de areia, os mecânicos e, agora, até os atômicos, que possuem uma exatidão incrível. Entretanto, continuamos sem saber a sua origem e a sua essência.

Para Isaac Newton, o Tempo era algo dado, imutável, intangível e eterno, sempre fluindo no mesmo ritmo, do passado para o futuro. Já Einstein elaborou o conceito de tempo elástico, fundindo-o com o espaço em seu conceito de Espaço-Tempo, no qual ambos são apresentados interligados como uma só entidade. E é a partir daqui que o meu pai explora a questão.

Situação hipotética

Imagine a seguinte situação: o seu vizinho Pedro padece de uma doença incurável e terminal. Ele mora sozinho e não sabe que será submetido a uma experiência, cujos detalhes sua família já está cuidando. Sua filha, como é habitual, vai visitá-lo um dia e dá a ele os remédios de seu tratamento. No entanto, em vez dos medicamentos de costume, a moça dá a Pedro potentes sedativos.

Assim que ele cai no sono, os técnicos da clínica criogênica chegam, levam Pedro e instalam seu corpo adequadamente no sistema de congelamento. O planejado é que ele permaneça nesse estado até que a Ciência tenha condições de solucionar o seu problema de saúde. Mas existe um detalhe importante: a família de Pedro providenciou para que a sua casa, assim como todos os seus pertences, fiquem exatamente no mesmo estado em que foram deixados.

Para evitar qualquer deterioração — tanto dos produtos orgânicos como dos inorgânicos —, a casa é completamente isolada em uma redoma, em um vácuo perfeito, e é mantida a baixas temperaturas e totalmente protegida do exterior, da incidência de luz ou de qualquer radiação. Enfim, são tomados todos os cuidados para que nada se degrade. E, depois de 300 anos, antes de acordar, Pedro é reanimado, levado até a sua casa e colocado no sofá.

Hein?!

Quando Pedro acorda, ele encontra tudo no mesmo lugar, exatamente como ele se lembrava, e ao perceber que a filha não está mais lá, simplesmente pensa que ela deve ter ido embora depois de ele adormecer. Nesse momento, um sujeito esquisitão, meio cabeçudo e com uns olhões enormes, entra na casa, e Pedro leva o maior susto!

O sujeito, coitado, também se assusta e foge correndo. E quando Pedro vai até a porta atrás do estranho, ele se depara com uma cidade futurística, cheia de pessoas parecidas com o indivíduo esquisitão, com arranha-céus gigantescos e muitas outras estruturas que ele nunca havia visto. E Pedro pensa que está delirando...

Tempo x evolução

Analisando a situação com cuidado, temos que, até Pedro ir à porta de casa, ele se encontra em seu presente. Por outro lado, para o intruso, tanto a casa como Pedro estão no passado. E, ademais, quando Pedro abre a porta e se depara com a cidade, ele está no futuro. Assim, nesse momento, embora pareça impensável, temos o passado, o presente e o futuro coexistindo em um mesmo ponto no espaço, simultaneamente!

Se prestarmos atenção, vemos que, artificialmente, a evolução de Pedro e de sua casa foi freada por meio das tecnologias adequadas durante 300 anos. No entanto, a evolução no exterior seguiu seu ritmo normal — o que significa que Pedro e a casa não evoluíram, e que o tempo parou para ambos.

Sendo assim, fica mais fácil entender que o que percebemos subjetivamente por Tempo é simplesmente o fluir da evolução, e o que chamamos de Tempo é simplesmente uma construção artificial que o nosso cérebro criou para medir essa evolução. Portanto, o tempo é a medida da evolução, assim como o termômetro indica a medida da temperatura.

Entretanto, embora esse instrumento mental seja muito prático, ele também é fictício. Na verdade, nós nos apoiamos no movimento da Terra ou dos astros, assim como na evolução regular e previamente padronizada dos mecanismos dos relógios, para criar as nossas associações com o tempo.

Construção mental

Mas o problema não termina por aqui. Se o Tempo não existe e é apenas a medida da evolução, então por que é que a evolução existe e sempre progride no sentido Passado-Presente-Futuro?

Para que a evolução exista, é necessário que ocorra um intercâmbio de energia entre diferentes entes do Universo. E, para isso, é preciso que haja um gradiente de energia fluindo do maior nível para o menor sempre. Isso só é possível se houver expansão e, por sorte, no nosso Universo conhecido, essa condição se cumpre segundo a Teoria do Big Bang.

Como de momento a expansão permanece ativa e parece que continuará dessa forma e aumentando em velocidade para sempre, podemos afirmar que a “setinha” do Tempo vai continuar apontando na direção “Passado-Presente–Futuro” — pelo menos no Universo conhecido.

Sempre em frente

A maioria das formulações das leis físicas e matemáticas tratam o Tempo como reversível, coisa que no Universo não ocorre. Afinal, ninguém jamais viu um papel se recompor na folha original depois de ser queimado — por mais belas que sejam as equações químicas que tentemos aplicar para conseguir tal proeza. E tem mais: além da necessária expansão, ela deve se processar em diferentes velocidades em pontos distintos do Universo para ser notada.

Além disso, também é preciso que exista algum tipo de ente, seja ele biológico ou cibernético, que registre e guarde essas diferentes velocidades de evolução. Em outras palavras, necessitamos de uma memória capaz de reativar nossas lembranças, analisá-las e compará-las com o momento atual e, felizmente, a nossa evolução particular nos dotou com essas características.

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Portanto, o Tempo objetivo não existe, e o que entendemos por Tempo é a medida da evolução que, para a nossa alegria, existe graças à expansão do Universo. Pelo que sabemos até agora, ela continuará, o que significa que a flecha do Tempo vai continuar no sentido “Passado-Presente–Futuro”.

Contudo, isso também significa que, fatalmente, estamos condenados a seguir sempre nessa direção — e que o nosso sonho de viajar ao passado jamais será permitido. Bem, é nisso que o meu pai acredita, e eu espero que você tenha gostado da explicação dele! Aliás, diga aí nos comentários o que você pensa sobre tudo isso.