Conheça a história do esqueleto de elefante enterrado no Vaticano
462
Compartilhamentos

Conheça a história do esqueleto de elefante enterrado no Vaticano

Último Vídeo

Certa vez, no Vaticano, um grupo de trabalhadores encontrou ossos misteriosos enterrados em um dos jardins do lar da Igreja Católica. Eles estavam preparando o solo para uma modernização do sistema de climatização local, quando se depararam com um osso maxilar gigante dividido em quatro partes e mais um dente, que chegaram a acreditar que era de um dinossauro.

O ano era 1962 e, como os ossos não estavam fossilizados, uma investigação realizada por um representante da biblioteca do Vaticano averiguou que na realidade a ossada era de um elefante. O mistério da carcaça do grande mamífero levou quase quatro décadas para ser esclarecido.

Em 1997, o historiador emérito da Smithsonian, Silvio Bedini, publicou os resultados de seus estudos no livro “The Pope’s Elephant” (O Elefante do Papa) e desvendou a história dos ossos achados pelos trabalhadores. A obra é o estudo mais completo sobre o animal que viveu no pátio Belvedere do Vaticano.

O que Bedini descobriu

Mais do que um simples animal de estimação, o elefante teve um papel na expansão política de Portugal. O nome do grande mamífero era Hanno e ele pertenceu ao Papa Leão X, no início do século 16.

Imagem do papa Leão X

Além disso, Hanno se tornou uma celebridade na Itália. Ele foi o primeiro elefante a entrar no país em séculos, desde a derrocada do império romano, então toda a população desejava estar perto e observar o animal quando havia a possibilidade. Por onde passava, o mamífero atraía a atenção de curiosos e causava confusões, pois as pessoas faziam loucuras para vê-lo: se pisoteavam, caíam de telhados e até derrubavam paredes.

E assim foi durante todo o seu caminho até Roma. O “elefante celebridade” veio da Índia, passando por Portugal, e chegou ao país da bota no inverno de 1514.  Como todo animal da espécie, Hanno era lento, mas não tão grande quanto os demais. Seus ombros alcançavam 1,2 metro, e a locomoção pelas estradas esburacadas era ainda mais devagar, pois suas patas ficavam machucadas.

O papel de Hanno na expansão política de Portugal foi justamente o que culminou na sua ida para a Itália. O momento do país era de consolidação no mercado de especiarias, e a monarquia portuguesa estava se espalhando pelo mundo, negociando com as Índias Orientais e a Índia. Foi nesse momento importante do comércio português que Giovanni di Lorenzo de’Medici se tornou o Papa Leão X.

Como o país do Rei Manuel I passou a ameaçar o monopólio que os comerciantes mantinham por terra, e do qual o Egito tirava enorme proveito, o conflito político estava se instaurando. Os governantes egípcios começaram a pressionar o Papa a frear a expansão de Portugal, avisando que estavam no controle de Jerusalém e poderiam destruir templos cristãos sagrados, caso o Papa se posicionasse contra eles.

Uma xilogravura de Hanno de 1514

O rei português então observou uma excelente oportunidade política. Era tradicional da parte de líderes cristãos presentear o novo Papa eleito. Seu objetivo era angariar dinheiro para navios e artilharia e obter a benção do Pontífice para o expansionismo de seu país. Para tanto, Manuel I planejou e caprichou no presente que enviaria ao Papa. Além de tecidos, joias e diversos artefatos em ouro, o líder português enviou animais: um guepardo, leopardos, papagaios, cães diferentes, um cavalo persa e um elefante. O elefante era Hanno.

A chegada de Hanno a Roma aconteceu um pouco antes da programação em que o animal apareceria para o Papa e, no primeiro momento, não causou boa impressão. Com vestimentas incrementadas e uma torre presa às suas costas, o elefante se abaixou dobrando os joelhos e colocando a cabeça para baixo e, assim, atingiu o Pontífice. O animal também jogou a tromba para cima três vezes antes de sugar água e espirrar sobre todos os presentes na aparição oficial, incluindo o Santo Padre. Entretanto, o Papa adorou a apresentação de Hanno.

A vida e a morte em Roma

Apenas 3 anos depois de chegar à capital italiana, o elefante acabou falecendo. De qualquer forma, mesmo com relativamente pouca convivência, ele se tornou o preferido de Leão X. Em carta ao Rei Manuel I, o Sumo Pontífice reconheceu o sucesso que o animal fez entre os habitantes de Roma e ressaltou a ligação que tinha com ele. Hanno, inclusive, foi colocado em uma construção especial no pátio Belvedere onde, todos os finais de semana, recebia visitantes que chegavam apenas para contemplá-lo.

No geral, a visitação ocorria de maneira tranquila, porém em um desfile pela cidade, para o qual o Papa decidiu enviar Hanno, o barulho dos trompetes e tambores incomodou o animal, de maneira que ele se assustou e acabou arremessando o seu guia. Em outra ocasião, um canhão foi o responsável por agitar o elefante, que atingiu e machucou alguns fãs. Já o caso mais grave aconteceu em uma visitação, na qual as pessoas estavam muito apertadas, e alguns membros da nobreza que estavam a cavalo acabaram passando por cima de outros presentes, causando inclusive algumas mortes.

O fim de Hanno foi um pouco trágico, já que ele acabou sendo induzido ao óbito por um tratamento, comum à época, com supositórios contendo altas doses de ouro. O objetivo era tentar recuperar o elefante de uma possível constipação que lhe causava dificuldade para respirar e dores, mas infelizmente a receita deu errado, e ele não resistiu.

Hanno na ilustração encomendada pelo Papa Leão X ao artista Raphael

Para homenagear Hanno, o Papa escreveu um hino dedicado ao animal. Além disso, decidiu encomendar um mural em memória do elefante e garantiu que fosse desenhado pelo pintor Raphael.

*Publicado em 28/10/2015

***

Você sabia que o Mega Curioso também está no Instagram? Clique aqui para nos seguir e ficar por dentro de curiosidades exclusivas!

Você sabia que o Megacurioso está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.