Como o Mustang conquistou a América
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Como o Mustang conquistou a América

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(Relaxnews) – Nos EUA, 1964 será sempre lembrado como o ano em que duas epidemias culturais varreram o país – a Beatlemania e a Mustang Fever (febre do Mustang). Os Beatles desembarcaram em Nova York em fevereiro e o Mustang fez sua estreia dois meses depois na Feira Mundial na mesma cidade, em 17 de abril. Ambos tiveram um sucesso imediato e duradouro.

Além de chegarem com poucas semanas de diferença um do outro, ambos seguiram o mesmo caminho. Bem como os Fab Four, o Mustang não surgiu do nada e torceu para dar certo: um burburinho considerável e bem orquestrado vinha sendo construído havia meses. Na verdade, toda a ação de marketing da Ford tinha sido tão bem desenhada quando o carro que estava sendo promovido.

Reprodução/FacebookAntes de se chamar Mustang, o carro se chamava Cougar 1962 - Fonte: Reprodução/Facebook

Por exemplo, no dia em que o Mustang fez sua primeira aparição em público, anúncios e editoriais sobre o carro apareceram em 2.600 publicações, e, na noite anterior, a empresa tinha reservado um espaço no horário nobre das três maiores redes de TV para anunciar a chegada do veículo. Ele também apareceu nas capas das revistas Newsweek eTime. Uma nova geração de marketing para uma nova geração de carros direcionada a uma nova geração de motoristas.

Reprodução/FacebookPropaganda do Ford Mustang em 1967 – Fonte: Reprodução/Facebook

Brad Bowling escreveu 10 livros sobre a história do Mustang, e, quando questionado sobre o porquê do enorme impacto imediato do carro, ele acha que era o carro certo para a hora certa. A Ford não só acertou em tudo como não arriscou em nada – a quem o carro era direcionado, como seria seu apelo visual e quanto custaria.

Um carro desenhado e direcionado a uma nova geração

“A geração Baby Boom estava entrando nos primeiros anos em que tinha um salário diferenciado. Eles nutriam um gosto muito diferente da geração de seus pais – roupas, penteados, móveis e música estavam sendo influenciados pela estética europeia”, explica Bowling sobre o principal público-alvo do carro. “Além do mais, a demanda para um carro esportivo, leve e com quatro lugares já era forte na América, e não havia nada que realmente atendesse a essa necessidade até o surgimento do Mustang”.

Fonte: Reprodução/FacebookFord Mustang Conversível 1971 e motor 351-c – Fonte: Reprodução/Facebook

A Chevrolet tinha tentado e falhado com o Corvair, mas crucialmente, na contra-mão dessa necessidade por velocidade, a Ford se certificou de não estar criando algo exageradamente masculino, nem exageradamente feminino. Como o desenhista principal do carro, Joe Oros, disse uma vez: “Pediram que desenhássemos um carro que as mulheres amassem, pelo fato de que os homens o amavam tanto quanto elas, e foi exatamente o que fizemos”.

Isso significou se livrar das caudas de peixe e da inspiração de foguetes que eram sinônimos dos carros americanos nos anos 1950, e que estavam começando a parecer datados para uma geração mais nova que crescia sob novas influências culturais. “O corpo do Mustang aproveitou o minimalismo italiano numa época em que os carros em formato de banheira e com muitos metros de cromo pareciam algo da idade das trevas para consumidores que estavam prestes a conhecer os Beatles”, continua Bowling.

A mudança estética também foi vantajosa para a Ford, pois o design minimalista e de proporções relativamente pequenas do Mustang era muito mais barato para produção em massa. O fato de ter sido baseado no Ford Falcon em vez de ser uma criação completamente nova também ajudou a manter os custos baixos. E essas economias foram repassadas aos consumidores.

Reprodução/FacebookFonte: Reprodução/Facebook

Modelo padrão, seis cilindros, três velocidades custava 2.368 dólares, em uma época em que o salário médio nos EUA era 4.476,32, tornando o carro tão atraente no preço quanto no design. E esse desejo foi além dos baby boomers.

Um pioneiro na personalização da carroceria de opcionais

O preço inicial baixo significava que era possível para mais famílias passarem a possuir dois carros, com a incrível gama de opcionais extras disponíveis, desde motor V8 e ar-condicionado a freios a disco, bancos de couro e som embutido. E significava que cada consumidor podia personalizar seu Mustang exatamente conforme suas necessidades. A revista Car Life escreveu na época: “É um carro esportivo, é um carro de viagem, é um carro econômico, um carro pessoal, um carro de rali, um carro de velocidade, um carro de corrida, um carro suburbano e até um carro de luxo”.

Reprodução/FacebookCorrida NHRA 1970 - Fonte: Reprodução/Facebook

A Ford reinventou o pacote de opcionais, e a lista gigante de produtos que ajudava a manter o preço do modelo básico baixo é agora a prática padrão de todas as montadoras – apenas 10% dos Mustangs vendidos em 1964 custaram 2.368 dólares, todo o resto foi encomendado com adição de opcionais, que variavam entre 400 e 1.000 dólares. Um grande negócio, considerando que a Ford recebeu 22.000 encomendas no dia do lançamento e estabeleceu o recorde mundial de primeiro ano de vendas – 418.000 – que nunca foi superado. Em 18 meses, já tinha construído seu milionésimo Mustang.

Outra estratégia genial foi o uso de mulheres nas propagandas como meio de tornar o Mustang atraente para consumidoras femininas em vez de homens conservadores. O resultado foi que aproximadamente 50% dos compradores de Mustang eram mulheres, e no primeiro ano, a maioria dos compradores de ambos os sexos tinha 34 anos ou menos – bem como a base de fãs dos Beatles.

Estrela nas telonas

O ano de 1964 também viu seus dois fenômenos culturais estrearem nos cinemas. A Hard Day’s Night (Os Reis do Ié-Ié-Ié) chegou aos cinemas no meio daquele ano, e o Mustang correu ao lado do Aston Martin DB5 de James Bond em dezembro, no maior filme da temporada, 007 Contra Goldfinger – a primeira das mais de 500 aparições no cinema que o Mustang faria. Mas o melhor ainda estava por vir. Ainda faltavam quatro anos para Steve McQueen se sentar ao volante do modelo Highland Green V8 Mustang GT 390 Fastback de 1968 e dirigi-lo por São Francisco no filme Bullitt. No entanto, 1968 seria um marco ainda maior para o Mustang.

Reprodução/FacebookShelby GT500 KR Sportroof 1968 - Fonte: Reprodução/Facebook

“Bem como qualquer forma de arte comercial, da música popular às franquias de filmes, há uma constante necessidade de melhorar um produto por meio da evolução. Poucas empresas podem congelar seus produtos no tempo – a Harley-Davidson vem à mente, mas é uma rara exceção – e ainda permanecer em atividade”, diz Bowling.

Como o desfecho dos Beatles, o Mustang teve de começar a evoluir para continuar relevante, seguir a moda e enfrentar a concorrência – em 1970 todas as marcas de carro dos EUA tinham sua própria versão do Mustang. No entanto, embora os Beatles continuassem a conquistar novos territórios até 1970, quando se separaram. O Mustang continuou na luta, ficando maior, mais pesado e mais lento e tímido na performance – graças às regras mais rígidas quanto a segurança e poluição e ao impacto da crise do petróleo que assolou o mundo na metade dos anos 70.

Ainda assim, em vez de morrer, o carro e o mito em torno dele permanecem vivos há 50 anos. Um feito notável, e que ninguém, nem o maior fã do carro, poderia ter previsto.

Divulgação/FordMustang 50th Edition 2015 – Fonte: Divulgação/Ford

“Ninguém na Ford jamais imaginaria que o Mustang ainda estaria em produção meio século depois de seu nascimento. Os compradores americanos tradicionalmente se cansam de carros da moda em dez anos no máximo. Olhe o que aconteceu com o Thunderbird de 1955-57 – o mercado fez dele um pesado item de luxo pessoal de quatro portas em apenas 10 anos. Mais ou menos da mesma forma como os Beatles pensavam que sua música seria esquecida um ano após sua primeira turnê americana, o certo seria apostar que o Mustang pararia no seu modelo II de 1974-78”, diz Bowling.

Ainda assim, os níveis de empolgação em torno do início oficial da produção do Ford Mustang 2015, previsto para 17 de abril, não são vistos desde quando o Mustang original foi exibido pela primeira vez exatamente 50 anos atrás, na mesma cidade.

Via EmResumo

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