Por que a França virou alvo dos ataques terroristas que ocorrem na Europa?
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Por que a França virou alvo dos ataques terroristas que ocorrem na Europa?

Último Vídeo

Pela terceira vez no último ano e meio, o mundo inteiro se choca ao ouvir notícias de que a França foi alvo de terríveis ataques terroristas. Na primeira ocasião, ocorrida no dia 7 de janeiro de 2015, 12 pessoas morreram depois que extremistas ligados à organização terrorista Al-Qaeda invadiram o jornal satírico Charlie Hebdo, em Paris, e abriram fogo contra os funcionários da publicação.

A segunda ocasião concentrou uma série de ataques conduzidos por extremistas ligados ao Estado Islâmico, e aconteceram também em Paris na noite do dia 13 de novembro de 2015. Os atentados resultaram na morte de 137 pessoas (incluindo 7 terroristas), sendo que o maior número de vítimas, 89, foi registrado na sala de shows Bataclan, onde ocorria uma apresentação da banda Eagles of Death Metal.

Imagem registrada durante a série de ataques realizados em novembro do ano passado

A terceira ocasião, como você sabe, aconteceu ontem, quando um homem de origem franco-tunisiana dirigiu com um caminhão sobre uma multidão em Nice, no sul da França. As pessoas se encontravam reunidas para assistir à queima de fogos em comemoração ao Dia da Bastilha e, segundo as últimas atualizações, 84 perderam suas vidas.

Do total de vítimas confirmadas até agora, pelo menos 10 eram crianças — e, de momento, nenhuma organização terrorista assumiu a autoria do ataque. Entretanto, apesar de ainda não haverem informações concretas sobre o que motivou o ataque de ontem, existem fortes suspeitas de que o autor do massacre fosse um extremista islâmico.

Terrorismo na Europa

Na verdade, diversos países da Europa já foram palco de ataques associados a organizações terroristas ligadas ao extremismo religioso. Em 2004, por exemplo, 191 pessoas morreram em Madri em um atentado perpetrado por uma organização conectada à Al-Qaeda — grupo que também orquestrou o ataque ao metrô de Londres em 2005, que somou 56 vítimas.

Ataque  em Madri, na Espanha

Mais recentemente, a Bélgica (em maio de 2014 e março deste ano, com 39 vítimas no total) também foi atacada por terroristas islâmicos, mas, a França, sem dúvida, parece ter se tornado o epicentro dos atentados europeus — somando mais de 240 mortos só nos últimos quatro anos. E por que será que os extremistas (aparentemente) decidiram focar seu ódio contra os franceses?

Alvo: França

Muita gente está tentando entender a razão de a França ter se tornado alvo dos extremistas islâmicos — e a questão é bem complexa e cheia de reveses. Alguns especialistas apontam que o motivo está associado ao fato de o país ser um ícone da filosofia ocidental e ter como bandeiras a liberdade, o igualitarismo, a democracia e os valores sociais — princípios que os terroristas basicamente abominam e que eles acreditam estarem sendo impostos ao mundo islâmico.

Militares acionados após o ataque em Nice

Outro motivo se refere à questão de, nos últimos anos, o governo francês ter adotado várias medidas que não foram muito bem recebidas pelos jihadistas. Entre elas está a proibição — em 2010 — do uso de véus sobre o rosto ou indumentárias que cobrissem a totalidade do corpo em locais públicos na França, assim as ações militares no exterior, especialmente na Líbia e em Mali, onde as tropas francesas conduziram uma das maiores ofensivas contra o Estado Islâmico fora da Síria e do Iraque.

Com isso, em 2014, o Estado Islâmico divulgou uma mensagem na qual incentivava seus seguidores a matar cidadãos estadunidenses, australianos, canadenses, europeus ou qualquer descrente, inclusive de países que faziam parte da coalisão formada para combater o ISIS, e foi especialmente enfático ao ameaçar os “imundos” franceses.

Solidariedade depois do atentado à sede do Charlie Hebdo

No mesmo ano, o grupo também divulgou um vídeo em francês focado nos muçulmanos que falam esse idioma para incitá-los a conduzir ações terroristas — e eles, infelizmente, atenderam ao chamado. Aliás, a língua francesa, por sinal, foi apontada em um estudo conduzido por grupo de analistas da Brookings Institution, como um dos fatores que também relacionam a França aos ataques.

De acordo com esse levantamento, os países onde se fala — ou já se falou — o francês se tornaram os maiores focos de radicalização no mundo e, efetivamente, a maior concentração de extremistas na Europa se encontra na França e na Bélgica. Mas, para entender a razão de esses países europeus estarem produzindo tantos radicais islâmicos, é necessário olhar para o passado.

Laços com o Islã

No final do século 19, a França conquistou a Argélia e, com isso, acabou recebendo uma enorme quantidade de imigrantes muçulmanos desse país africano. Mais tarde, após a Primeira Guerra Mundial, a França ganhou controle da Síria e do Líbano — e muitos cidadãos franceses acabaram se estabelecendo por lá e também em territórios do norte da África.

Essa situação acabou abrindo as portas para que ocorresse uma forte migração de muçulmanos para a França e, depois da Segunda Guerra Mundial, muitos se mudaram para o país europeu. A grande maioria dos imigrantes assumiu trabalhos em fábricas francesas e se estabeleceram em áreas pobres das periferias de Paris e de outras cidades industriais.

Manifestações em protesto aos ataques terroristas

O problema é que, com o tempo, muitas dessas fábricas foram se fechando e, mesmo sem emprego, os imigrantes foram ficando. Os filhos e netos desses muçulmanos enfrentam grandes problemas econômicos e de exclusão social atualmente, e já se manifestaram (violentamente) em inúmeras ocasiões.

Para piorar as coisas, ao contrário de outras potências coloniais europeias, a França nunca cortou totalmente os laços com os países que ela ocupou ao longo de tantas guerras, e até hoje interfere militar e economicamente nesses países para defender seus interesses. Pois grupos como o Al-Qaeda e o ISIS tiram proveito do descontentamento dos descendentes dos imigrantes que vivem na Europa para plantar a semente do extremismo e fomentar o ódio.

Não que esses fatores todos justifiquem tanta violência e a morte de inocentes — dos dois lados! —, nem nos ajudem a entender ações que simplesmente não tem explicação, mas...

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