Batizada: saiba o que pode conter em uma porção de cocaína
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Batizada: saiba o que pode conter em uma porção de cocaína

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É uma triste notícia, porém, cada vez mais, a indústria do tráfico fatura milhões com o comércio dos mais variados tipos de drogas. Com isso, mais estilos de processamentos foram se desenvolvendo ao longo das décadas. Afinal, a necessidade leva à criatividade, mesmo que seja para algo ruim, que vicia e mata milhões de pessoas — seja pelo efeito devastador na saúde ou pela consequência do crime organizado ligado ao tráfico.

E, nesses processos de refino, o da cocaína é um que ganhou a adição de mais e mais substâncias tóxicas a fim de aumentar o seu efeito, reduzindo a própria quantidade dela e, com isso, aumentando o lucro dos traficantes e cartéis.

Dessa forma, além do efeito já maléfico da própria cocaína, o usuário pode levar ao nariz toda uma gama de substâncias extremamente assustadoras. Pó cheirado, dinheiro queimado e saúde (ou toda a vida) destruída.

Além da farinha

Fonte da imagem: Shutterstock

A maioria das pessoas sabe que a cocaína é diluída durante o processamento com filtros, como açúcares e creatina, e que essas diluições são mascaradas com compostos que imitam as propriedades estimulantes e anestésicas locais da droga. No entanto, pouca gente sabe que o que é adicionado no narcótico vai muito além.

Os adulterantes mais comuns são os anestésicos (e estimulantes) como lidocaína e procaína, além de cafeína. Mas isso é só para começar. A droga também é misturada com metilanfetamina, metilfenidato, efedrina, manitol, inositol, bicarbonato de sódio, sacarina, farinha de arroz branco (para dar aquele volume) e maltodextrina. Mas esses talvez sejam os menos prejudiciais.

Levamisol

Fonte da imagem: Shutterstock

De acordo com uma entrevista que Kim Gosmer, um químico especializado no estudo de narcóticos (da Seção de Toxicologia e Análise de Drogas do Departamento de Medicina Forense da Universidade Aarhus, Dinamarca), deu ao site VICE, o levamisol é um dos mais preocupantes. Este é um medicamento anti-helmíntico usado para matar vermes parasitas.

Segundo Gosmer, a substância já foi utilizada tanto em humanos quanto em animais, mas foi proibida depois de estudos revelarem que ela causa agranulocitose. Esta doença derruba a produção de células brancas, deixando o corpo muito suscetível a infecções com a imunidade baixíssima, algo similar ao que acontece com doentes de HIV.

Hoje, o levamisol só é utilizado para tratar a infestação parasitária de gado e, infelizmente, como um adulterador popular da cocaína em doses cada vez maiores.

Talvez você esteja se perguntando: mas por que um medicamento vermífugo é adicionado na cocaína? De acordo com o químico, esse composto antiparasita contém um metabólito chamado aminorex, que tem propriedades estimulantes similares aos da anfetamina. Além disso, ele pode causar outro efeito aos usuários.

“Outra possibilidade pode ser porque o levamisol aumenta a quantidade de dopamina liberada, elevando assim os níveis de glutamato no cérebro. Como a cocaína proporciona o efeito eufórico, bloqueando a proteína que transporta a dopamina – o que aumenta a quantidade disponível de dopamina para interagir com os receptores do cérebro –, o levamisol pode aumentar o efeito da cocaína por meio da liberação de mais dopamina”, explica Gosmer.

Fonte da imagem: Reprodução/Skin Sight

Vale destacar que a agranulocitose causada pelo levamisol também leva á uma necrose da pele associada à sua toxicidade e varia de vasculite leucocitoclástica a vasculopatia oclusiva. Vários casos têm sido relatados desde 2006. A doença cutânea acomete principalmente o nariz e as orelhas dos usuários (foto acima), mas pode afetar todo o corpo. 

Benzocaína

Além das substâncias citadas acima, a benzocaína, que é um anestésico local, também faz parte daquelas que são adicionadas à cocaína. Essa, talvez, seja a que esteja em maior quantidade. Um usuário pode pensar que é viciado em cocaína, mas, na verdade, ele pode ser mesmo viciado em benzocaína.

A substância pode causar reações alérgicas graves, tais como dificuldade em respirar e inchaço da boca e da língua. Segundo Dr. Les King, especialista da Unidade de Inteligência de Drogas no Reino Unido, o papel da benzocaína como agente de refino principal para a cocaína é um desenvolvimento relativamente novo.

Grande laboratório encontrado pela polícia na Colômbia Fonte da imagem: Reprodução/BBC News

De acordo com as informações de King, em entrevista ao Men’s Health UK, adicionando benzocaína, é possível reduzir o nível de cocaína necessário para dar aos usuários a sensação de que eles realmente inalaram a droga, uma vez que a benzo pode causar a mesma sensação de entorpecimento.

E benzocaína não é o único "extra" encontrado na droga. "Cerca de 50% da cocaína agora contém um pesticida chamado tetramisol. Não há nenhuma razão óbvia por qual ele é adicionado, mas é certamente muito perigoso. Assim como não há nenhuma razão aparente para o diltiazem, uma droga anti-hipertensiva, estar na cocaína também, mas é encontrado em análises. Depois, temos a fenacetina, um analgésico (como a aspirina ou paracetamol) que é proibido há 20 anos, pois pode causar danos nos rins”, afirmou King.

E você acha que acabou por aí? Pois saiba que, desde depois da colheita das folhas de coca, os agentes para refino e adulteração já marcam presença.

Cadeia de produção

De acordo com o relato de Kim Gosger, a produção começa no chamado nível um, o mais básico, com o produtor responsável pela extração inicial das folhas de coca. Este indivíduo geralmente usa mistura de gasolina e cimento para fazer a pasta de cocaína crua.

“A pasta é mais fácil de transportar do que grandes quantidades de folha, mas tem uma validade curta, então, o fazendeiro vende a pasta para um coletor, indo para o chamado ‘nível dois’ da produção. Esse cara pode ser um traficante atacadista que opera por conta própria ou um coletor empregado por um laboratório da floresta (nível três)”, afirma Gosger.

Fonte da imagem: Shutterstock

Segundo o químico, a pasta de cocaína é então purificada nos dois níveis citados, visando melhorar a estabilidade. O método mais comum para isso é a oxidação das impurezas da pasta com permanganato de potássio, um oxidante muito forte de cor roxa, que é muito usado também para tratar algumas infecções de pele, como as feridas de sarampo e catapora.

Para tentar impedir esse processo, o Drug Enforcement Administration começou a Operação Roxa em 2000, com o propósito de monitorar a distribuição da substância e, com isso, cessar a produção de cocaína. O esquema até funcionou, mas o mercado de narcóticos provavelmente arranjou um substituto para o permanganato, pois a produção continua. De qualquer forma, o uso do permanganato é feito nos níveis um e dois, mas ainda temos o terceiro.

No nível três, o ácido clorídrico é adicionado à base da cocaína para converter a mistura ao sal correspondente, que então é precipitado como cocaína cristalina.

Depois disso, vem o nível quatro, que é dominado pelos exportadores e importadores da droga, que fazem o seu refino de acordo com os compostos citados acima. Para ter uma ideia, a pureza média da cocaína na Inglaterra não é maior do que 20 ou 30%. Os outros 80 ou 70% ficam por conta dos agentes adulterantes. 

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