Leonarda Cianciulli: a fabricante de sabão de Correggio

Leonarda Cianciulli: a fabricante de sabão de Correggio

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Por estudo, no ambiente familiar, a conduta dos pais é de extrema importância para a construção da psicologia e autoestima infantil. Até mais ou menos os três anos de idade, a criança possui uma “mente absorvente”, que armazena absolutamente tudo o que o pai e a mãe falam para ela, carregando esses pequenos registros ao longo de sua vida. São poucas as pessoas que compreendem que precisam passar por um longo processo de ressignificação de suas más experiências infantis para serem capazes de atravessar problemas de autoestima, depressão e outros aspectos oriundos de um lar quebrado.

As mentes não tratadas podem percorrer caminhos obscuros e às vezes sem volta. E foi isso o que aconteceu com Leonarda Cianciulli.

Amaldiçoada

(Fonte: The Famous People/Reprodução)

Nascida no dia 18 de abril de 1895, em Montella, na Província de Avellino, na Itália, Leonarda Cianciulli acumulou apenas infortúnios e sofreu com abusos, abandono e problemas psicológicos. Ela cresceu ouvindo de sua mãe que ela havia sido amaldiçoada com má sorte quando ainda estava em seu útero por uma mulher que se dizia bruxa.

Em uma sociedade e cultura em que superstições eram levadas como algo muito sério, Leonarda nunca teve nenhuma assistência de sua mãe mentalmente instável, que a diminuía e a espancava sempre que tinha oportunidade, ainda deixando claro que ela teria uma vida maldita, repleta de infelicidade, morte e desgraça, pois esse era o seu destino para sempre.

Ainda muito jovem, ela tentou se suicidar duas vezes, devido ao nível de depressão em que se encontrava, mas fracassou em ambas as vezes. Foi logo depois disso, em 1917, que Leonarda conheceu e se casou com Raffaele Pansardi, um funcionário do cartório local, indo contra os planos de seus pais de um casamento arranjado que traria dinheiro e status para a família. Mas a mulher não voltou atrás em sua escolha e, em 1921, antes de se mudar com o marido para a cidade de Lauria, a mãe os amaldiçoou.

Sombras do futuro

(Fonte: Podtail/Reprodução)

Leonarda Cianciulli passou a acreditar cada vez mais nas palavras da mãe quando não conseguia engravidar. Nas cinco primeiras tentativas, ela teve abortos espontâneos. Em Lauria, eles sofreram com desemprego, passaram fome, tiveram a casa invadida e a mulher chegou a ser presa por fraude. Em 1927, o casal decidiu se mudar para Lacedonia e tiveram a casa destruída pelo Terremoto Ipirina, em 1930, forçando-os a se mudar definitivamente para Correggio, onde ela abriu uma pequena loja e passou a cozinhar para a vizinhança, conquistando respeito e autoridade.

Supersticiosa ao extremo, Leonarda procurou por uma cartomante cigana que informou que ela teria filhos eventualmente, mas que quase todos morreriam ainda jovens. Ao longo dos anos, para o desespero e loucura da mulher, a predição se mostrou correta. Dos 17 filhos que Leonarda Cianciulli teve, 13 deles ela perdeu para abortos, acidentes, doenças incuráveis e outras fatalidades que só serviram para apertar mais um nó terrível na psicologia destruída dela.

No entanto, a mulher nunca permitiu que essas catástrofes pessoais e sua falta de equilíbrio transparecessem. Ela continuava a ser conhecida como uma mãe amável, uma ótima vizinha e cozinheira. Todos gostavam de Leonarda, menos a sua própria vida. E então, em sua última tentativa de vislumbrar alguma melhora, ela recorreu a uma mulher que praticava a quiromancia, conhecida como a arte de ler mãos.

E para a sua frustração, a vidente viu que o futuro de Leonarda e de seus filhos seria sombrio. Que em sua mão esquerda ela enxergava a prisão e na outra um hospital psiquiátrico.

Isso foi o suficiente para quebrá-la de vez.

Tempos obscuros

(Fonte: Grim Magazine/Reprodução)

Tendo ouvido isso da vidente, Leonarda Cianciulli passou a se tornar uma mãe superprotetora e a monitorar e controlar a vida de seus filhos, temendo que algum dano recaísse sobre eles. No entanto, em 1939, as coisas saíram de seu controle quando o mais velho dos quatro, Giuseppe Cianciulli, foi embora para lutar no exército italiano durante a Segunda Guerra Mundial.

Seguindo o ditado popular “situações extremas exigem medidas extremas”, Leonarda começou, primeiro, exercendo o seu papel de uma simples mãe e passou a orar pelo bem-estar e proteção de Giuseppe. Depois, a realizar sacrifícios humanos, pois, por algum motivo desconhecido, ela acreditava que só assim o deus no qual tinha fé iria protegê-lo.

A mulher usou dos atributos de ser muito querida e conhecida para atrair pessoas – em especial mulheres — para o seu novo negócio amador: leitura de mãos. É claro que Leonarda em nada sabia a respeito do assunto, mas ela precisava de um pretexto para conseguir entrar na mente dos outros. O plano era sempre conhecer os interesses de suas vítimas e então manipular ao seu favor o suposto futuro que lia nas mãos delas.

A primeira delas foi Faustina Setti, uma solteirona que queria de todas as formas encontrar um marido, uma presa perfeita para a falsa vidente. Leonarda deu a notícia de que o amor da vida de Faustina morava na cidade ao lado, em Pola, e que a única maneira de encontrá-lo era se mudando. No entanto, não podia contar a novidade a ninguém. Ao invés disso, deveria escrever cartas que seriam enviadas aos seus amigos e familiares para tranquilizá-los quando ela já estivesse longe.

No dia da partida de Faustina e também do pagamento dos serviços, Leonarda ofereceu a mulher uma taça de vinho com droga e matou-a a machadadas assim que ela apagou. Depois desmembrou o cadáver em nove partes, coletou o sangue numa vasilha e o guardou num armário. Leonarda dissolveu os restos de Faustina com soda cáustica e os descartou numa fossa perto de casa. Esperou o sangue coagular, depois o secou no forno, moeu e misturou com a massa dos doces que vendeu para os seus clientes e que também ofereceu para a própria família.

A fabricante de sabão

(Fonte: Cultura Colectiva/Reprodução)

A professora desempregada, Francesca Clementina Soavi, ouviu de Leonarda que um emprego a esperava na cidade vizinha, em Piacenza. O plano decorreu igual com Faustina. Depois dos cartões enviados e no dia do pagamento que antecedia a sua partida, Francesca morreu pelo mesmo machado no dia 5 de setembro de 1940. O cadáver recebeu um destino parecido com o primeiro, só que dessa vez os seus restos mortais viraram guisado e o sangue foi diluído em vinho.

A terceira e última vítima foi Virginia Cacioppo, submetida ao mesmo modus operandi assassino da vidente. No dia 30 de setembro de 1940, Virginia foi mutilada e parte de seu corpo foi derretido para fazer sabão em pedra. Segundo Leonarda, a carne gorda e branca depois de dissolvida e misturada com uma garrafa de colônia, se transformou num sabão cremoso. Ela distribuiu para os vizinhos e manteve também para uso pessoal. O resto do cadáver foi utilizado na mistura de bolos e doces que foram comercializados para a vizinhança.

No entanto, o fim de Virginia não passou despercebido, como aconteceu com as outras duas mulheres. A cunhada de Virginia suspeitou que algo havia acontecido depois de ter visto a nora entrar na casa de Leonarda e desaparecer. Ela entrou em contato com a polícia e assassina foi presa.

(Fonte: History Daily/Reprodução)

A princípio, Leonarda Cianciulli negou que teria matado alguém. Porém, quando Giuseppe foi acusado de envolvimento na morte de Virginia Cacioppo, a mãe acabou confessando todos os seus crimes. A frieza e indiferença da mulher era tamanha, que ela ainda teve a ousadia de corrigir os detalhes quando algum promotor ou investigador errava. Em 1946, a mulher foi condenada a 30 anos de prisão e mais 3 anos num hospital psiquiátrico penitenciário, exatamente como a vidente havia previsto.

Nomeada como “a fabricante de sabão de Correggio”, no dia 15 de outubro de 1970, Leonarda Cianciulli morreu de apoplexia cerebral aos 76 anos, após deixar documentado em sua autobiografia os vestígios de uma mente apoiada num Complexo de Deus, que acreditava que poderia controlar a vida dos outros enquanto esses comiam as provas e esfregavam de suas roupas os esforços que ela teve para reverter a própria maldição.

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