Gran Circus Norte-Americano: a maior catástrofe circense brasileira

Gran Circus Norte-Americano: a maior catástrofe circense brasileira

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Assim como vários modos de arte, nos séculos passados o circo representou não somente um ambiente de escapismo social como se tornou um elemento fundamental de entretenimento.

Em uma época na qual guerra e conflitos criaram tensão pelo mundo inteiro, a magia circense uniu famílias e levou o espírito sonhador às crianças, que voltavam para casa contagiadas por todo o espetáculo. Para a maioria dos jovens, porém, o circo era um ponto de encontro, assim como se tornariam as feiras estaduais em 1933 nos Estados Unidos.

Em meados do século XIX, a arte do circo europeu encontrou no Brasil uma segunda casa e também acabou se tornando uma aliada do panorama social. As companhias chegavam até as periferias carregando um sentimento de consciência mútua por meio das interpretações teatrais, atraindo um público variado para debaixo de sua lona e servindo como fonte de renda para aqueles que precisavam de trabalho temporário.

Em caráter artístico, o Brasil contribuiu para que o molde do palhaço europeu — conhecido por ser mímico e mudo — fosse alterado para um personagem muito falante, que usava a comédia sorrateira e os instrumentos musicais para fazer o show acontecer. Extremamente perseguidos na Europa, os ciganos se instalaram no Brasil por meio do circo e se apresentavam ao público com suas habilidades de ilusionismo e doma de animais.

Respeitável público

(Fonte: Jornal da Record/Reprodução)(Fonte: Jornal da Record/Reprodução)

O Gran Circus Norte-Americano pertencia ao gaúcho Danilo Stevanovich, nascido em Cacequi, no Rio Grande do Sul, e que integrava uma família de 7 irmãos que possuíam uma rede de circos. Em dezembro de 1961, Stevanovich levou o seu Gran Circus para a cidade do Rio de Janeiro sob o anúncio de que se tratava do maior e mais completo circo da América Latina — e de fato era. A comitiva empregava 60 artistas, contava com 20 empregados fixos e uma frota de 150 animais (que sempre foram o suprassumo dos espetáculos circenses no Brasil).

A atração se instalou na Praça dos Expedicionários, situada na Avenida Feliciano Sodré (centro de Niterói). Antes de começarem a desembarcar os equipamentos, a companhia realizou um grande desfile para apresentar os seus artistas e deixar o público com um gostinho da magia que testemunhariam em uma semana.

Para consolidar a magnitude do espetáculo, Stevanovich comprou uma lona de nylon verde envernizada — o ápice da modernidade naquele período — que pesava cerca de 6 toneladas. Além disso, para levantar o Gran Circus do chão e chegar até os 17 metros de altura, o dono contratou mais de 50 trabalhadores para colaborar na montagem. Adílson Marcelino Alves, mais conhecido pelo apelido de “Dequinha”, foi um deles. Com antecedentes criminais por furto e um histórico de doença mental, o homem apresentou problemas logo nos primeiros dias de trabalho. Ele teria se desentendido com outro funcionário após cometer vários erros em sua função e repetí-los, causando discussões e brigas. Com isso, acabou sendo demitido.

A "fábrica de shows" não parou até que tudo estivesse armado, com direito à iluminação de holofotes no que prometia ser o maior espetáculo que o Rio de Janeiro presenciaria. Ironicamente, foi.

O espetáculo mais triste da Terra

(Fonte: Acervo O Globo/Reprodução)(Fonte: Acervo O Globo/Reprodução)

Na noite do dia 15 de dezembro de 1961, o Gran Circus Norte-Americano estreou para uma legião de pessoas que esperavam nas filas desde a madrugada, tudo para garantir um lugar entre os 3 mil assentos que o circo comportava.

Tudo correu como o esperado, e a sessão foi um absoluto sucesso! O único problema foi a importunação causada por Dequinha, que, revoltado com a sua demissão, voltou ao local e provocou Maciel Felizardo, um dos armadores da companhia. Dequinha acusou-o de ser o responsável pela sua demissão, partindo para cima do homem. Felizardo acabou agredindo o ex-funcionário e colocou-o para fora do circo sem causar muito alarde.

Na tarde do dia 17 de dezembro de 1961, o Gran Circus estava com a sua capacidade máxima para a sessão matinê. Por volta das 15h45, Antonietta Stevanovich — a irmã de Danilo e também uma das melhores trapezistas — notou um rasgo luminescente vindo do mastro principal do circo enquanto se preparava para o seu salto triplo que encerrava o show. Por uma fração de segundos, ela achou que fosse um raio de sol, mas não demorou para perceber que era fogo.

A mulher gritou e a plateia rapidamente reagiu, assim como as chamas que se espalharam por toda a lona. Os 5 minutos iniciais foram os mais cruéis. Milhares de pessoas subindo ao mesmo tempo pelas arquibancadas fez a estrutura desmoronar fatalmente e causar várias vítimas. Sem saber para onde ir, o público rumou em massa para as entradas e com isso centenas de indivíduos foram pisoteados e mortos no local.

De cima a baixo tomado por labaredas, o Gran Circus era um inferno de onde ninguém conseguia escapar. Com o passar dos minutos, as pessoas eram incendiadas vivas, atropeladas pelos animais ou soterradas. A lona comprada por Stevanovich era na verdade feita de algodão e revestida com parafina, dois componentes altamente inflamáveis. Ao se acumular, esse besunte de parafina formou uma abóbada de fogo em todo o teto da tenda, assim 372 pessoas arderam em chamas quando isso despencou. As atingidas tinham pedaços de plástico ardentes colados em sua pele ou ficaram grudadas no chão do espaço.

Em puro desespero, uma elefante chamada Sema conseguiu escapar da jaula. Com a sua força, ela arrebentou parte da lona em seu caminho para se livrar da morte iminente e acabou salvando a maioria das pessoas, que conseguiu escapar pela enorme fenda na tenda deixada pelo animal.

Em 10 minutos, o tempo que durou o incêndio, o circo se extinguiu. Nele, 500 pessoas morreram, sendo 70% crianças.

Um alerta geral

(Fonte: Ah Duvido/Reprodução)(Fonte: Ah Duvido/Reprodução)

Assim que a estrutura do circo derreteu, o estado do Rio de Janeiro entrou em calamidade. Ironicamente, os médicos estavam em greve naquele dia e foi necessário que fossem convocados pelo rádio para se dirigirem aos hospitais. Salas de cinema, teatros, bares, praias e outros locais públicos foram inspecionados pela polícia à procura desses profissionais. Hospitais particulares e até clínicas foram mobilizados para atender os feridos.

Os mortos apareciam aos montes, e se tornou impossível para as agências funerárias fornecerem caixões o suficiente. Assim, o Estádio Caio Martins se tornou uma oficina temporária para a confecção de novos caixões. O cemitério de Niterói esgotou os seu espaço, então um terreno em São Gonçalo foi usado para enterrar os corpos restantes.

Ivo Pitanguy, o mais notório cirurgião plástico do Brasil e do mundo, que chefiou a equipe de cirurgiões do episódio, foi o responsável por dar a importância ao procedimento estético no tratamento das vítimas pelo incêndio. Ele teve o suporte da comunidade, que chegava com caminhões de folhas de bananeira, as quais foram fundamentais nos tratamentos. 

Além disso, remédios, leitos e outras provisões foram encomendadas por pessoas solidárias. Quando milhares de voluntários se enfileiraram para doar sangue, o mundo se comoveu ainda mais, e o Brasil recebeu doações de sangue dos Estados Unidos e até do Vaticano.

Tudo é cinzas e tempo

(Fonte: A Tribuna RJ/Reprodução)(Fonte: A Tribuna RJ/Reprodução)

Horas antes de a trapezista Stevanovich notar o início de uma tragédia, Dequinha chamou os seus comparsas José dos Santos, apelidado de “Pardal”, e Walter Rosa dos Santos, conhecido na região como “Bigode”, para que participassem de sua sede de vingança. Segundo o criminoso, Danilo devia algo para ele e precisava pagar de alguma forma, nem que fosse com a vida das 3 mil pessoas reunidas dentro da tenda do Gran Circus.

Dequinha tinha o plano claro de atear fogo no circo. Ele se encontrou com os seus cúmplices em um local denominado Ponto de Cem Réis, situado na divisa do bairro Fonseca com o centro de Niterói. Dequinha comprou a gasolina e com a ajuda de Pardal a despejou ao longo da lona e ao redor de todo o circo enquanto Bigode vigiava.

Após colher os depoimentos de funcionários e artistas que sobreviveram, a polícia chegou até os 3 homens no dia 22 de dezembro de 1961. Dequinha confessou a autoria do crime e foi condenado a 16 anos de prisão, sendo 6 anos em manicômio judiciário, como medida de segurança. Sete anos depois, ele fugiu e foi encontrado morto com 13 tiros. Bigode recebeu 16 anos de encarceramento e mais 1 ano em colônia agrícola. Pardal, por sua vez, foi sentenciado a 14 anos de prisão e mais 2 anos em colônia agrícola.

Segundo os registros, 503 pessoas morreram naquele dia, e 800 ficaram gravemente feridas. O circo apresentou vários problemas elétricos, não dispunha de extintores de incêndio nem saídas de emergências. No entanto, o Corpo de Bombeiros enfatizou as boas condições de funcionamento da atração e permitiu ao circo que fosse aberto.

Com todos os olhares voltados para o crime, Stevanovich sequer foi autuado por usar de produtos perigosos, e o Brasil se omitiu em vez de tomar alguma atitude em relação à negligência das medidas de segurança. 

O espetáculo mais triste da Terra, como Mauro Ventura intitulou o seu livro-documentário, só marcou a memória de quem viveu naquele momento. Porém, não existe um memorial endereçado às vítimas, apenas uma fria lacuna no local onde pessoas perderam entes queridos e não tiveram nem como os enterrar.

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