Canneto di Caronia: a cidade que pegava fogo sozinha

Era meados de dezembro de 2003 em Canneto di Caronia, uma cidadela italiana localizada no norte da Sicília, na província de Messina, quando os incêndios começaram. 

A primeira casa foi a de Antonino Pezzino, um vendedor de seguros de 43 anos, que jantava no momento em que a caixa de fusíveis se incendiou e as chamas começaram a pegar as cortinas que estavam próximas.

Pezzino simplesmente apagou o fogo e tirou foto da parede fuliginosa e escurecida pelo fogo. Dias depois, foi a vez do ventilador da cozinha e a televisão, que simplesmente pegaram fogo de repente. Logo, não chegou a passar 1 semana e a mobília de Pezzino foi consumida pelas chamas. Intrigado, o homem resolveu instalar uma nova fiação elétrica, imaginando que esse pudesse ser o motivo, porém os incêndios continuaram. Ele chegou a cortar a energia de sua casa por dias, mas não adiantou.

Estranha combustão

(Fonte: Revista UFO/Reprodução)
(Fonte: Revista UFO/Reprodução)

Por outro lado, Pezzino percebeu que não estava sozinho naquela situação, pois seus vizinhos também estavam sendo afetados pelo mesmo problema. Locais públicos e casas entravam em chamas sem motivo aparente e, devido ao apelo dos habitantes, o prefeito Pedro Spinnato foi convocado para tentar solucionar o problema.

Spinnato contratou dois eletricistas para testar o sistema elétrico da cidade, mas eles não conseguiram encontrar a origem das chamas. Sendo assim, o prefeito decidiu cortar a energia da usina central para que pudessem tentar identificar como o fogo estava surgindo. Por incrível que pareça, as chamas continuaram, com tomadas derretendo, móveis queimando e construções inteiras ardendo em brasa.

(Fonte: IBTimes UK/Reprodução)
(Fonte: IBTimes UK/Reprodução)

Incrédulo, o prefeito convocou especialistas da ENEL (a principal empresa de energia italiana), entrou em contato com o governo estadual e a Proteção Civil. “Eu precisava de todas as instituições porque estávamos diante de um caso anormal”, revelou Spinnato.

Sobre Canneto di Caronia se formou uma bolha de fumaça escura, e o sons da natureza, inclusive do mar, foram substituídos pelo ruído persistente das sirenes dos carros de bombeiros, pois há 3 meses a cidade não parava de arder em chamas. Em março de 2004, as autoridades italianas já contabilizavam 92 focos de incêndios.

As ruas da cidade foram tomadas pelos moradores desabrigados e temerosos de acordarem em chamas. O resto de mobílias e pertences pessoais também se acumularam pelas calçadas, disputando espaço com os bombeiros exaustos que se espalhavam por bancos, esteiras e colchonetes. Canneto di Caronia viveu um cenário apocalíptico às margens do mar Tirreno.

Ameaça maligna

(Fonte: Paranorms/Reprodução)
(Fonte: Paranorms/Reprodução)

Não demorou muito para que o incidente ganhasse um aspecto religioso. O padre católico da igreja local afirmou que tudo aquilo se tratava de uma obra demoníaca, que o mal estava envolvendo a cidade para tentar destruir a todos. Uma turba de fiéis comprou a afirmação do padre, o que só serviu para intensificar a histeria de todos.

Para piorar, o padre Gabriele Amorth, um famoso exorcista, declarou que os cidadãos precisavam de uma intervenção religiosa rapidamente, pois o fogo significava a entrada do demônio por meio de qualquer tipo de magia, provocada por algum habitante. Essa alegação ofendeu o padre de Canneto: “Os habitantes são pessoas trabalhadoras que lutam todos os dias para trazer o pão a suas casas, não o satanismo”. Contudo, isso foi o suficiente para que a imprensa pudesse rotular o caso com alguma coisa.

(Fonte: Vietnam Daily/Reprodução)
(Fonte: Vietnam Daily/Reprodução)

Diante dessas circunstâncias, o prefeito decidiu realocar os habitantes para o Za Maria, o único hotel da cidade, localizado nos arredores de Canneto. Com as notícias dos estranhos acontecimentos ganhando os jornais, o psicólogo e escritor Massimo Polidoro, do Comitê para Investigação de Reivindicações de Pseudociências (CICAP), chegou na cidade para entrevistar os habitantes pela revista The Skeptical Enquirer. O homem foi atraído pelo tom sobrenatural do caso, muito embora fosse um cético em sua essência.

Naquela altura, químicos, engenheiros, físicos e geomagnetistas do governo já estavam com seus equipamentos em cada local da cidade, trabalhando 24 horas por dia para tentar desvendar o motivo dos incêndios. Eles interceptaram e estudaram as ferrovias, estruturas elétricas, emissão de gases vulcânicos e atividade sísmica, porém não conseguiram encontrar nenhuma pista. Até explosões de ondas magnéticas foram consideradas por um grupo de estudiosos do governo italiano, mas a pesquisa não chegou à conclusão alguma.

Encontrando explicação

(Fonte: Alchetron/Reprodução)
(Fonte: Alchetron/Reprodução)

Em abril, o grupo de pesquisa interdisciplinar da Proteção Civil da Sicília, coordenado por Francesco Venerando Mantegna, relatou uma “atividade eletromagnética anômala”, com luzes inexplicáveis e danos insólitos a um helicóptero. Os investigadores notaram também que as trancas dos carros estavam com defeito, os celulares funcionavam sem sinal de satélite e as bússolas ficavam confusas.

O engenheiro Francesco Valenti submeteu um estudo intitulado Eventos Eletromagnéticos Imprevisíveis, que seriam causados por cargas em movimento, como um raio sem uma tempestade. Ele sugeriu que as linhas férreas fossem removidas e os sistemas elétricos consertados acima e abaixo do solo. O governo, porém, não adotou seus métodos. Sem evidências científicas suficientes, as pessoas recorreram ao sobrenatural para obter respostas.

(Fonte: The Times/Reprodução)
(Fonte: The Times/Reprodução)

Em junho de 2004, os moradores de Canneto di Caronia voltaram para suas casas depois que os incêndios simplesmente pararam. Mas as pessoas já temiam o que poderia acontecer, visto que aquela região da Sicília era muito apegada às superstições. De demônios a extraterrestres, a cidade não teve mais descanso. Todos tentavam esclarecer a dúvida: o que causou os incêndios?

Nigel Watson, autor do livro The Haynes UFO Investigations Manual, afirmou que a combustão de aparelhos eletrônicos e a interferência deles estavam associadas aos avistamentos de OVNIs. Surgiu, inclusive, uma teoria de que haveria uma base subaquática a 100 km da costa da Sicília, onde o governo estudava uma nave espacial, cujo campo magnético poderia estar causando os incêndios.

A conspiração de Caronia

(Fonte: Secolo d'Italia/Reprodução)
(Fonte: Secolo d’Italia/Reprodução)

Em julho de 2014, os incêndios voltaram com força total, sendo contabilizados 50 focos em um período de 18 horas. A família de Pezzino, a mais velha da cidade e que sempre esteve à frente dos noticiários, dando entrevistas ao longo dos 10 anos, foi novamente evacuada com os demais habitantes.

A Proteção Civil montou um novo grupo para estudar os incêndios, junto dos Ministérios da Defesa, Saúde e Meio Ambiente, e instalou câmeras de monitoramento secretas em pontos estratégicos da cidade. Mais uma vez, Canneto di Caronia dominou os jornais. “Demorou 10 anos, mas eu sabia que os incêndios não tinham partido para sempre”, declarou Antonio Pezzino.

Em 30 de setembro, o sistema de segurança oculto gravou Giuseppe Pezzino, o filho de 25 anos de Antonio Pezzino, ateando fogo no carro de seu tio e do seu primo durante a madrugada. Em uma outra gravação, o próprio Antonio foi visto atrás de um galpão instantes antes de o local pegar fogo.

Giuseppe Pezzino. (Fonte: Stretto Web/Reprodução)
Giuseppe Pezzino. (Fonte: Stretto Web/Reprodução)

Através das filmagens, a polícia conseguiu identificar 40 incêndios provocados pela família Pezzino. Grampeando o telefone deles, as autoridades também gravaram conversas nas quais Antonio falava sobre aumentar os incêndios para atrair mais fama para a cidade e arrecadar mais dinheiro para seus bolsos com as entrevistas e as aparições na televisão.

Na manhã de 5 de março de 2015, Giuseppe Pezzino foi preso por incêndio criminoso e formação de quadrilha para cometer fraude. Giuseppe alegou que de fato os incêndios eram genuínos quando começaram em 2003, e que agora a família só queria desfrutar de novo de todo aquele sucesso e dinheiro fácil.

Muitos concordaram que era impossível que a família tivesse feito tudo aquilo por tanto tempo sem ser pega naquela época. No entanto, o tom sobrenatural do caso adquiriu o mesmo caráter das histórias de Scooby-Doo e foi contaminado pelo enredo clichê de ambição familiar de uma cidade pequena, como na versão fictícia da cidade de Pagford descrita por J.K Rowling em seu livro Morte Súbita.

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