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Overtoun bridge: a ponte que faz os cachorros se jogarem

No mundo animal, o suicídio de uma espécie é visto como um comportamento altruísta na maioria dos casos, principalmente se for em defesa de um grupo ou quando o animal fica doente. Insetos e parasitas tendem a se suicidar em algumas situações, como os pulgões que se explodem para proteger os demais pulgões do ataque de joaninhas.

Em 1845, o Illustrated London News noticiou que um cão de Newfoundland teria-se lançado na água esforçando-se para afundar depois de agir por dias de maneira depressiva. Todas as vezes que ele foi resgatado, ele tentava se suicidar, até que finalmente conseguiu. Existem relatos de animais de estimação enlutados que tiveram o mesmo tipo de comportamento após a morte de seu dono, ou animais monogâmicos que se recusaram a se alimentar após o falecimento de seu parceiro.

A “desgraça anual”

(Fonte: BBC/Reprodução)
(Fonte: BBC/Reprodução)

Alguns estudos definiram que esse tipo de comportamento não é considerado suicídio, uma vez que atingir a morte não era necessariamente o propósito ou objetivo do comportamento. Há anos a Itália pesquisa a possibilidade de cães cometerem suicídio. Foi por meio de artigos e notícias que pesquisadores perceberam que o país vivia uma “desgraça anual”, com muitos animais cometendo suicidando por ficarem deprimidos após serem largados em casa durante as férias.

Só em 2007, foram documentados mais de 9 mil suicídios caninos, o que gerou uma indignação pública, fazendo com que o número diminuísse para 7 mil óbitos só 3 anos depois. Em 2010, essa preocupação se tornou mais forte quando 2 cães temporariamente abandonados em Roma e em Bolzano, extremo norte do país, atiraram-se das varandas de apartamentos, por ficarem tão perturbados e deprimidos por estarem sozinhos.

(Fonte: Pete the Vet/Reprodução)
(Fonte: Pete the Vet/Reprodução)

Quando indagada sobre a possibilidade de uma depressão canina, a diretora-executiva do American College of Veterinary Behaviorists, Bonnie Beaver, disse que os veterinários não sabem exatamente se os cães sofrem de depressão da mesma forma que os humanos. 

“É difícil porque não podemos perguntar a eles o que sentem, mas na prática clínica existem algumas situações em que essa é a única explicação”, esclareceu ela. No entanto, Beaver reforçou que é raro os animais de estimação, especialmente os cães, sofrerem de depressão a longo prazo.

Quando o assunto é suicídio canino, os veterinários enxergam a ideia de um cachorro deprimido se lançando para a morte como algo difícil de aceitar, ainda que seja possível. Isso porque o instinto de sobrevivência acionado em uma situação de perigo deve ser mais forte do que esse “estado de espírito”, uma vez que a depressão não é processada na mente animal como é na de humanos.

Então, o que acontece com a ponte de Overtoun, o lugar onde os cachorros simplesmente pulam para a morte?

Não se aproxime

(Fonte: Atlas Obscura/Reprodução)
(Fonte: Atlas Obscura/Reprodução)

Construída em 1895 pelo arquiteto paisagista H. E. Milner, a Overtoun bridge está localizada na estrada perto de Overtoun House, em West Dunbartonshire, na Escócia. Desde 1950, os tabloides escoceses registraram que cerca de 600 cachorros pularam do parapeito da ponte sem propósito aparente, a maioria durante caminhadas com seus donos. Por outro lado, o The New York Times levantou uma pesquisa de que só em 2005 por volta de 300 animais teriam tentado suicídio, sendo que 50 deles encontraram o destino final nas rochas a 15 metros abaixo.

“Eu tive certeza de que ela estava morta”, disse Lottie Mackinnon, ao The Independent, sobre a sua border collie, Bonnie, ter pulado da ponte. “Alguma coisa aconteceu com Bonnie assim que nos aproximamos da ponte. A princípio, ela paralisou, mas depois foi ‘possuída’ por uma energia estranha que a fez correr e pular do parapeito”, revelou Mackinnon. “É um milagre que Bonnie está viva”, ela afirmou.

(Fonte: Dog Time/Reprodução)
(Fonte: Dog Time/Reprodução)

Em 2011, David e Louise McPhail estavam passeando na ponte com a labradora Sophie quando ela simplesmente correu, pulou do parapeito e mergulhou antes que qualquer um dos dois pudessem reagir. “Comecei a gritar para David: ‘Sophie pulou da ponte! Ela pulou da ponte!’ Aconteceu muito rápido, em segundos”, revelou a mulher.

Em entrevista ao jornal Vice UK, uma moradora de Glasgow chamada Jenna, de 20 anos, relatou: “Eu lembro que estava andando pela ponte e cheguei a um ponto que foi como se o ar ficasse mais rarefeito e meu estômago saltasse, como quando você erra um degrau ao descer um lance de escada. Eu simplesmente não conseguia parar de sentir que algo de ruim estava para acontecer. Havia uma mulher com um cachorro na ponte, ele se recusava a dar mais um passo. Naquela mesma semana, um casal de cachorros havia pulado do mesmo ponto e morrido na queda”.

Natural ou sobrenatural?

(Fonte: The New York Times/Reprodução)
(Fonte: The New York Times/Reprodução)

O estranho fenômeno causou um pânico entre os habitantes de Dunbartonshire, que tentavam evitar passar pelo caminho com seus animais de estimação ou até mesmo ir sozinhos devido às superstições que cresceram envolvendo o local. A Sociedade Escocesa para a Prevenção da Crueldade contra Animais enviou representantes para investigar a ponte Overtoun, porém nenhum deles conseguiu solucionar o mistério.

Os moradores locais atribuem explicações puramente paranormais, ainda mais por serem muito supersticiosos no geral. Aqueles que recorrem às fontes de lendas enraizadas no folclore da cultura escocesa dizem que a ponte fica em um ponto chamado de “lugar estreito”, que segundo os celtas pagãos seria onde o Céu e a Terra se sobrepõem.

Por outro lado, outros apontam um viés mais espiritual devido ao histórico de Overtoun. Em 1994, um homem de 32 anos jogou seu filho da ponte alegando que ele teria nascido possuído por uma entidade demoníaca. O homem tentou se matar 2 vezes, primeiro pulando da ponte e depois cortando os pulsos com uma faca. A criança morreu no dia seguinte no hospital, e o homem foi declarado inocente por motivo de insanidade e internado no Hospital Psiquiátrico Carstairs, em South Lanarkshire.

Contudo, para David Sexton, uma autoridade em animais selvagens na Escócia, o motivo dos pulos talvez seja devido ao cheiro emanado pelos ratos, esquilos e visons da área.

(Fonte: My Animals/Reprodução)
(Fonte: My Animals/Reprodução)

Em 2010, o psicólogo comportamental animal David Sands, de Lancashire, na Inglaterra, apontou que 7 a cada 10 cães ficavam muito agitados com o cheiro de um vison por causa de seu odor almiscarado. E, apesar dos visons não serem nativos da Grã-Bretanha nem terem predadores naturais, eles têm-se reproduzido em grandes números desde meados de 1950 — que foi quando os pulos dos cães começaram.

(Fonte: The Sun/Reprodução)
(Fonte: The Sun/Reprodução)

Os estudos e experimentos que Sands fez na ponte Overtoun indicaram que os cães — principalmente as raças de nariz comprido — eram atraídos pelo cheiro desses mamíferos. Ele também explicou que a capacidade de perspectiva limitada dos cães, a falta de compreensão de que o caminho muda do nível do solo para uma ponte que atravessa um desfiladeiro, contribuiu para que os cães pulassem deliberadamente, sendo guiados apenas pelo cheiro pairando no ar.

Depois que o estudo foi publicado na maioria dos jornais e das revistas de Dunbartonshire, muitos residentes consideraram a explicação plausível, mas outros se recusam a acreditar. Eles alegam que o fenômeno não ocorre na mesma proporção em outras pontes onde os visons moram embaixo e também não conseguem desprezar a sensação estranha de que há algo de errado pairando sobre as pedras da ponte e silvando na garganta de arbustos abaixo dela.

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