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As faces de Bélmez: evidência espiritual ou esquema criminoso?

Localizada entre as montanhas da comunidade autônoma de Andaluzia, na província de Xaém (Espanha), Bélmez de la Moraleda sempre foi considerada uma cidade tranquila e praticamente bucólica. Entre as casas de paredes brancas e estradas de pedras, ela se enquadrava como sendo o típico local pitoresco onde nada de relevante acontecia. Porém, isso mudou no início da década de 1970.

No verão de 1971, em uma pequena aldeia em meio às montanhas de Bélmez, morava a família de agricultores Gómez Pereira. Era uma manhã comum de 23 de agosto daquele ano quando María Gómez Pereira estava preparando o almoço e avistou o que parecia ser um rosto humano estampado no chão de sua cozinha.

(Fonte: Andalucia Org/Reprodução)
(Fonte: Andalucia Org/Reprodução)

A princípio, a mulher ficou fascinada com a aparição, uma vez que há declarações de que ela mesma era considerada uma médium e tinha uma crença espiritual muito forte. No entanto, isso teria durado pouco, pois o rosto se transformara em uma carranca perturbadora. Para piorar, segundo relatos, a face teria começado a mudar de posição.

María até tentou limpar aquela mancha de seu chão com água e sabão, mas não adiantou. Seu marido, Juan Gómez Pereira, e o filho, Miguel Gómez Pereira, decidiram arrancar todas as tábuas do assoalho com uma picareta e cimentar o chão inteiro do cômodo para que aquilo parasse de aparecer. O rosto desapareceu, mas não por muito tempo.

A “casa dos rostos”

(Fonte: Pinterest/Reprodução)
(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Cerca de uma semana depois, vários “rostos” começaram a surgir pelo chão da casa, e o medo se transformou também em um transtorno. Não demorou para que a notícia se espalhasse pela cidade e logo todos estivessem chamando a casa da família de “a casa dos rostos”, a qual acabou sendo alvo de curiosos que iam até a fazenda espiar o fenômeno.

Juan Gómez estava pronto para começar a destruir o chão novamente quando o prefeito de Bélmez interveio e o proibiu de tomar qualquer atitude. Ele pediu a especialistas que cortassem uma parte do concreto para que fosse enviado a estudos e depois para ser exposto – o que atrairia a atenção do mundo para a pequena cidade.

(Fonte: Diario Sur/Reprodução)
(Fonte: Diario Sur/Reprodução)

A família relatou que outros rostos apareciam conforme eles destruíam o chão para consertá-lo. Alguns desbotaram até o final de dezembro daquele mesmo ano, mas outros permanecerem nítidos.

Para a surpresa de todos, o diagnóstico de um especialista para o pedaço de chão que continha o rosto foi inconclusivo.

Análise paranormal

(Fonte: ABC News/Reprodução)
(Fonte: ABC News/Reprodução)

Tentando descobrir o motivo de os rostos aparecerem, em abril de 1972, o professor Gérman De Argumosa viajou de Madrid até Bélmez para saber mais sobre o caso. Ele havia escavado documentos históricos os quais apontavam que um então governador de Granada, cidade da região de Andaluzia, havia assassinado 5 membros de uma família no século XVI. O local exato do crime ninguém sabia, mas muitos acreditavam que era nas redondezas da casa da família Gómez Pereira.

O professor também ergueu a hipótese de que os rostos apareciam porque a casa foi construída sobre um antigo cemitério, visto que ela era próxima de uma igreja. Quando o prefeito de Bélmez foi fazer estudos no solo, ele de fato encontrou alguns pedaços de ossadas que tinham em média 700 anos.

(Fonte: El Espanol/Reprodução)
(Fonte: El Espanol/Reprodução)

A pesquisa psíquica do professor De Argumosa se estendeu a várias gravações de Fenômeno da Voz Eletrônica (EVP), que conseguiu captar “uma mistura de inferno e bordel” vindo do plano astral da casa. Em 6 de junho de 1972, outro rosto apareceu no chão e mudou de expressão ligeiramente ao longo do dia. De tão impressionado, o professor pagou uma espécie de aluguel para a família a fim de poder ficar em um outro cômodo da casa e prosseguir com suas investigações sem ser interrompido.

Em meio a uma comoção da comunidade parapsicológica, que definia o caso como um “mistério”, muitos investigadores apontaram María como sendo o “pilar espiritual” e que tinha uma influência direta nas aparições. Isso porque elas pareciam reagir ao estado emocional da mulher, portanto arriscaram dizer que o fenômeno desapareceria quando ela morresse.

O ceticismo técnico

(Fonte: Pinterest/Reprodução)
(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Em setembro de 1990, o Instituto de Cerâmica e do Vidro (ICV) coletou amostras das faces recuperadas pelo Padre JM Pilón e as submeteu a testes granulométricos, mineralógicos e químicos. “O resultado, em resumo, foi de que não há nenhum vestígio de tinta em qualquer parte das amostras”, disse um dos especialistas.

Por outro lado, os céticos e críticos mais ferrenhos não acreditaram nisso, principalmente porque não foi revelado quais partes das faces foram analisadas. A edição de julho de 1933 do Journal of the Society for Psychical Research observou, por meio de um artigo de Luiz Ruiz-Noguez, a presença de três cátions usados como pigmentação na fabricação de tintas: zinco, chumbo e cromo. Isso levantou a suspeita de o uso de tinta na confecção dos rostos. Ruiz-Noguez também apontou que o chumbo pode causar colorações escuras difíceis de serem enxergadas.

(Fonte: Magonia/Reprodução)
(Fonte: Magonia/Reprodução)

O sociólogo Manuel Martín Serrano, da Universidade Complutense de Madrid, desenvolveu um estudo em seu livro por meio de entrevistas com habitantes da cidade para tentar provar que o fenômeno era uma fraude a fim de gerar ganho financeiro.

Em meados de 2014, o programa de TV de jornalismo investigativo chamado Cuarto Milenio desempenhou mais testes para tentar descobrir se o caso era de fato uma fraude. O gerente geral da Medco e doutor em Engenharia Química, José Javier Gracenea, e Luis Alamancos, criminalista forense presidente do Gabinete Pericial Inpeval e diretor do Instituto Espanhol de Criminalística Aplicada, extraíram amostras das faces com autorização de Juan Gómez Pereira.

(Fonte: Diario Sur/Reprodução)
(Fonte: Diario Sur/Reprodução)

A análise final concluiu que as imagens não foram feitas com tinta e, de acordo com o conhecimento científico e técnico empregado nos testes, não havia manipulação externa ou elementos externos nos rostos. Alamancos tentou reproduzir as imagens com uma ampla gama de métodos, porém falhou em todas.

Em 3 de fevereiro de 2004, aos 85 anos, María Gómez Pereira faleceu, e centenas de pessoas foram até a fazenda para prestar suas últimas homenagens. E, muito diferente do que alguns pesquisadores paranormais imaginavam, os rostos não pararam de surgir no chão da cozinha após a morte da mulher.

O debate ainda se mantém, apesar dos anos, e com a opinião pública dividida entre um esquema fraudulento criado para atrair turistas para a casa e evidências paranormais genuínas.

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