O assassinato de Julia Dennis Wallace foi um crime perfeito?

Nascido na cidade de Millom, noroeste da Inglaterra, em 29 de agosto de 1878, William Herbert Wallace se considerava um “homem de espírito livre”. Depois que largou a escola aos 14 anos para ajudar o pai em seu emprego em uma oficina de impressão de panfletos, começou a trabalhar como assistente de dentista enquanto fazia estágio com o dramaturgo Thomas H. Tenant, antes de largar tudo em 1902 e viajar para a Índia. Uma vez lá, ele assumiu um cargo de vendedor na filial da empresa Whiteway, Laidlaw and Co., porém um problema renal grave o trouxe de volta para a Inglaterra 5 anos depois.

Em 1910, William conheceu a deslumbrante Julia Dennis, que o cativou à primeira vista. Morando a duas ruas de distância de onde era a casa dele, Julia e ele começaram a passar grande parte do tempo juntos.

A mulher dos sonhos

(Fonte: Wine and Crime/Reprodução)
(Fonte: Wine and Crime/Reprodução)

Órfã de mãe, Julia Dennis teve uma vida misteriosa. Nascida em 28 de abril de 1861 em uma fazenda no condado de North Yorkshire, ela se tornou professora, mas foi a profissão de governanta que lhe deu um teto. À princípio, foi exatamente por isso que Julia decidiu cortar alguns anos de sua idade quando atingiu a casa dos 40 anos, pois emprego para mulher mais velha era algo difícil de ser encontrado naquela época. Contudo, por algum motivo a mulher levou essa farsa para dentro de sua vida pessoal e, consequentemente, para seu relacionamento com William Wallace.

Quatro anos foram suficientes para o casal mudar o estado civil para casados. Em sua certidão de casamento, Julia reafirmou ter apenas 37 anos, quando na verdade tinha 53 anos. Mas as mudanças não pararam por aí, ela também alterou a ocupação de seu pai para veterinário e adicionou uma origem francesa ao nome de sua mãe. O local de seu nascimento mudou de uma fazenda dilapidada nos confins de North Yorkshire para uma região de classe média no Condado de Sussex.

Ninguém da família de Julia compareceu ao casamento e, aparentemente, William se casou com uma mulher que só tinha de verdadeiro o próprio nome.

O recado anônimo

(Fonte: The Lineup/Reprodução)
(Fonte: The Lineup/Reprodução)

Em 1914, com a ajuda de seu pai, William assumiu o cargo de vendedor de seguros na instalação de Liverpool da empresa Prudential, e se mudou com Julia para uma casa geminada de três quartos em Wolverton Street, em um bairro suburbano chamado Anfield.

Os vizinhos de modo geral os consideravam um casal comum e muito feliz, que fazia caminhadas junto, escutava música, tocava e jantava fora. Mas nem todo mundo achava isso: a enfermeira Florence Wilson definiu a relação deles como “sem simpatia e confiança”. Ela descreveu Julia como “uma mulher estranha e suja”, enquanto William parecia ter “sofrido uma grande decepção na vida”.

Muito embora não fosse um bom jogador, William fundou o Clube de Xadrez Central no Cottle City Cafe, que ele frequentava duas vezes por semana. Em 19 de janeiro de 1931, às 19h20, quando a garçonete Gladys Harley atendeu a uma ligação de um homem que queria falar com William Wallace, ela passou o telefone para Samuel Beattie, capitão do clube de xadrez, que avisou que ele não estava e pediu para que o homem retornasse depois.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)
(Fonte: Pinterest/Reprodução)

O homem misterioso disse que não poderia, mas pediu que Beattie anotasse que seu nome era R.M. Qualtrough, residente de Menlove Gardens East, número 25, e que queria tratar com William de uma aquisição de apólice de seguro, e pediu que William estivesse em sua casa às 19h30 do dia seguinte, desligando em seguida.

Às 19h50, William chegou ao café e foi informado do recado. Ele não conhecia nenhum Qualtrough, e o endereço fornecido não parecia correto, já que havia uma Menlove Gardens North, West e South, menos East, ainda mais de número 25. Imaginando que fosse um erro de Beattie, ele decidiu que iria.

O que aconteceu com Julia

(Fonte: Boredom Therapy/Reprodução)
(Fonte: Boredom Therapy/Reprodução)

Em 20 de janeiro, ele deixou Julia em casa e avisou que iria ao encontro de Qualtrough. Andou por 45 minutos à procura do endereço e da casa do homem, chegou a perguntar para um jornaleiro e um policial, mas nenhum deles soube informar. Então William decidiu voltar para casa.

Ao chegar, ele se deparou com a porta de casa trancada, e não teve resposta de Julia quando chamou por seu nome. William encontrou seus vizinhos, os Johnston, que o aconselharam a tentar mais uma vez a porta dos fundos e, com a ajuda do casal, ele conseguiu abrir a porta. Os três seguiram pela corredor até a sala de estar e encontraram uma cena horrível: Julia jazia tombada no carpete da sala em uma poça do próprio sangue, seu rosto estava desfigurado.

Foi o Sr. Johnston quem chamou a polícia. A autópsia acusou que Julia havia recebido 11 golpes na cabeça com um objeto contundente forte o suficiente para esmagar seu crânio. Ela não havia hematomas de defesa e nem de luta.

A caça

(Fonte: Casebook Forums/Reprodução)
(Fonte: Casebook Forums/Reprodução)

Em menos de duas semanas, a polícia abriu um inquérito e montou um caso para tentar desvendar quem matou Julia Dennis Wallace. O primeiro suspeito, como é de se esperar na fase inicial de uma investigação de assassinato, foi William Wallace.

Descobriram que o telefonema para o Cottle City Cafe foi feito de uma cabine telefônica a 400 metros do local, às 19h20 do dia 19 de janeiro, e foi transferida pela operadora Louisa Alfreds. Os investigadores concluíram que William teria enviado a mensagem a si mesmo como uma forma de álibi para o crime. Então ele teria golpeado Julia até à morte e saído para a casa de um Qualtrough inexistente. Uma perícia realizada na casa do casal apontou que apenas a quantia de R$ 1.843 reais em libras britânicas foi roubada, apesar de haver muitos objetos de valor ao alcance; também não foram encontrados sinais de arrombamento.

(Fonte: Liverpool Echo/Reprodução)
(Fonte: Liverpool Echo/Reprodução)

Alan Close, um entregador de leite de 16 anos, foi testemunha ocular para embasar as acusações. Ele entregou leite para Julia às 18h45, o que determinou que William teve 20 minutos para matá-la, tomar banho, fingir um roubo e ir pegar o bonde das 19h06. No entanto, a polícia só não conseguia encontrar uma última resposta: qual foi o motivo?

William Wallace foi colocado à júri popular e se declarou inocente, mas não acreditaram nele. Após 1 hora de deliberação, ele foi considerado culpado e condenado à morte pelo assassinato de sua esposa.

Derrubando um caso

(Fonte: Boredom Therapy/Reprodução)
(Fonte: Boredom Therapy/Reprodução)

Rapidamente, os advogados de William recorreram do veredito e conseguiram desmontar o caso da promotoria no Tribunal de Apelação Criminal, em Londres. Primeiramente, eles alegaram que Gladys Harley e Samuel Beattie tinham certeza de que a voz não era do homem. Também foi apontado que o réu ficaria cheio de sangue após o crime, e que o cálculo da polícia não dava tempo suficiente para que ele tomasse banho, trocasse de roupas e se desfizesse das sujas. Além disso, justificaram que o oficial usado para reconstruir a jornada do réu era mais jovem e em forma do que ele, que tinha 53 anos e era doente.

Diante desses argumentos, o juiz chegou à conclusão de que não havia provas suficientes contra William Wallace, revogando sua condenação. Essa foi a primeira vez na história britânica que um veredito pelo crime de assassinato foi anulado em um tribunal.

(Fonte: Alchetron/Reprodução)
(Fonte: Alchetron/Reprodução)

William Wallace voltou ao emprego normalmente, porém sua saúde deteriorou-se, e ele teve que abandonar o cargo e se mudar para a cidade de Wirell. Em 26 de fevereiro de 1933, o homem morreu de uremia e pielonefrite no Hospital Clatterbridge.

Em 1969, o autor Jonathan Goodman escreveu em seu livro The Killing of Julia Wallace, que Richard Gordon Parry poderia ter sido o assassino de Julia. Ele era um colega de trabalho de Wallace que chegou a ser interrogado, mas foi liberado por ter sua noiva, Lily Loyd, como álibi. Anos mais tarde, já separados, a mulher confessou que havia mentido. Poderia a declaração dela estar carregada de pura vingança?

Ciúme, roubo, traição ou desentendimento? Há 90 anos, ninguém soube responder essa pergunta, muito menos a crucial: quem matou Julia Dennis Wallace?

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