Se você gostou de nossa publicação sobre parasitas zumbis, provavelmente vai adorar conhecer o animal “peculiar” que apresentaremos aqui, mas se você é do tipo que não tem nervos de aço e se sente enjoado só de pensar em coisas do gênero, talvez seja melhor ler algo mais leve. Se prepare, pois a nojeira do dia é relacionada a um tipo de verme bem especial.

Mais conhecidos como “cabelo” ou “vermes-crina-de-cavalo”, os nematomorphos são parasitas que invadem o corpo de insetos. Após se desenvolverem por vários meses, esses bichos controlam mentalmente seus hospedeiros através de uma viagem suicida rumo à água, escapando em seguida por meio de buracos que eles mesmos furaram em seu exoesqueleto. O inseto é deixado para trás — muitas vezes, ainda vivo.

Esses animais podem ser encontrados em piscinas, riachos, poças e cisternas e seu nome comum é atribuído ao fato de que antigamente as pessoas realmente pensavam que eles fossem pelos dos equinos que saíam do estado inanimado ao entrar em contato com a água.

Uma nova moradia

Falando mais precisamente sobre a espécie Paragordius varius, esses bichos são encontrados em vários córregos e rios espalhados pelo continente americano. Eles saem de seus ovos em forma de larva e ficam aguardando no fundo. Incapazes de nadarem até a superfície, a minúscula larva simplesmente espera ser engolida pelas larvas de outros insetos, como mosquitos e mariposas.

Quando ocorre a metamorfoses dos insetos, eles saem da água para viver suas vidas aéreas com a larva a reboque, até serem comidos por grilos. Uma vez que a larva do verme está dentro do inseto, ela irá penetrar através do intestino do grilo e entrar na cavidade do corpo, onde cresce de uma larva praticamente invisível aos olhos até um verme de 30 centímetros de comprimento — não é o caso do Paragordius varius, mas há espécies que chegam até 1 metro de comprimento.

Wired

Na verdade, esses nematomorphos não são nada mais do que gônadas gigantes envoltas em uma fina cobertura de músculos. Curiosamente, eles nem sequer têm uma boca para comer ou fazer seu buraco no interior do grilo. Cientistas como Ben Hanelt, especialista em parasitologia da Universidade do México, dizem não saber ao certo como esses parasitas perfuram seu caminho para fora do inseto, a fim de escapar.

Eles também não têm sistema digestivo, pelo menos não do tipo que estamos acostumados a ver. “A forma que esses carinhas adquirem seus nutrientes, na verdade, é diretamente pela cutícula”, diz Hanelt. “Através da pele desse verme é que a gordura e o açúcar são absorvidos, diretamente dos fluidos corporais do hospedeiro.” Suculento, não?

Zumbis grilados

É quase impossível identificar um grilo infectado, por isso não estamos falando do estereótipo desajeitado de zumbi que conhecemos. Ao ser observado de fora, o grilo se comporta de forma bem normal, exceto pelo brilhante truquezinho usado pelo verme: ele manipula seu hospedeiro e o faz calar a boca.

Chilrear — nome dado ao ato de fazer “cri-cri” — é algo que consome muita energia, sem mencionar que é um jeito de se fazer notável e aumentar o risco de ser devorado por predadores. E um parasita que é esperto o bastante para controlar o cérebro de outro ser vivo, não quer ser devorado por bobeira.

Porém, é fácil de descobrir quando o verme deixa um desses insetos. Tipicamente, grilos ficam bem distantes da água corrente, hidratando-se e pegando sua comida apenas no orvalho. De acordo com Hanelt, jogar um grilo não infectado na correnteza certamente fará com que ele fuja pra longe, mas, um grilo infectado é um excelente nadador.

Ordenado pelo verme, ele busca grandes quantidades de água com suas antenas, que captam até a menor mudança de umidade. “Um grilo que tem um verme dentro dele”, afirma Hanelt, “e que se encontra próximo à água, vai sempre, pular imediatamente nela”.

Após admirar o mergulho no melhor estilo “bola-de-canhão”, o verme, que monitora o ambiente externo através do buraco perfurado no grilo, tem seu grande momento: ele se contorce e larga seu hospedeiro assim que ambos estão na água.

Liberdade, enfim

Geralmente, tem-se um único parasita por inseto, embora, de vez em quando, dois ou três possam sair. Hanelt diz, entretanto, que em seu laboratório o recorde foi de 32 vermes emergindo de um pobre hospedeiro. No vídeo abaixo, deve haver quase uma dúzia cavando seu caminho para o mundo aberto.

O parasita, agora livre, vai nadar até encontrar um parceiro. O macho morre após fecundar a fêmea. Essa, por sua vez, bota a inacreditável quantia de 15 milhões de ovos, que são colados em uma pedra ou graveto submersos. Após realizar seu papel, ela também morre. Duas semanas depois, seus ovos chocam e as larvas permanecem no fundo do rio, iniciando o processo mais uma vez.

Mas qual é o segredo do controle mental?

É incrível pensar sobre um organismo que se adaptou através do tempo para manipular outro e usá-lo como sua escolta pessoal, mas como pode um verme “hackear” o cérebro de um grilo? Halnet explica que o parasita parece produzir uma grande quantidade de neurotransmissores, substâncias químicas que transmitem sinais entre os neurônios.

“Esses neurotransmissores produzidos que estão fazendo o grilo agir de forma que um grilo geralmente não agiria. Mas exatamente quais neurotransmissores são esses e como eles afetam os grilos é algo que nós ainda não sabemos”, explica o cientista.

“Eu sempre ilustro aos estudantes que é como se eu mandasse você ir até o seu carro e remover metade de seu peso, mas ainda mantê-lo funcionando para levar você até o aeroporto. Esses vermes descobriram como fazer algo parecido com seus hospedeiros. Eles tiram metade de tudo que está no interior do grilo, mas ainda o mantém funcional. É uma coisa incrível.”

Digamos que “incrível” não exatamente a palavra que a maioria das pessoas usaria por aí. E você, quantos dias ficará sem comer macarrão ou broto de feijão após ficar sabendo de tudo isso?