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Shindo Renmei: a organização que assassinava japoneses no Brasil

Em 18 de junho de 1908, o navio Kasato Maru aportou em São Paulo com 781 lavradores japoneses, dando início oficialmente a imigração japonesa no Brasil. Com o fim da ditadura militar feudal do período Edo, essas famílias pretendiam se estabelecer economicamente e fugir das agruras que o superpovoamento do país causava há 265 anos.

Além de terem que enfrentar as barreiras culturais, linguísticas, religiosas e climáticas, eles também foram vítimas da desconfiança e da política de "branqueamento" promovida pela República Velha. O repúdio dos brasileiros pelos japoneses aumentou quando os imigrantes decidiram se fechar em comunidades para evitar contato com esse mundo do qual não pertenciam e não eram aceitos.

Em meados de 1942, já havia 200 mil imigrantes japoneses no Brasil que, além de viverem em situação de trabalho análogas à escravidão, ficaram no fogo cruzado quando o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Japão e aliou-se aos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, tornando os imigrantes que pertenciam a países do Eixo (Japão, Itália e Alemanha) inimigos da pátria.

Os sete samurais

(Fonte: Coisas do Japão / Reprodução)(Fonte: Coisas do Japão / Reprodução)

Durante esse período, os imigrantes nipônicos foram perseguidos de todas as maneiras pela ditadura de Getúlio Vargas que visava ressaltar o nacionalismo brasileiro. Eles não podiam viajar, nem se reunir se não fosse por ordem do governo. Foram privados de acesso à informação, como jornais e transmissões de rádio, e até forçados a viverem em locais designados pelo Estado.

Foi diante desse cenário, com intuito de se organizarem e preservarem o yamatodamashii (espírito japonês), que várias organizações secretas japonesas surgiram pelo Brasil a fim de se ajudarem em meio ao sofrimento de opressão brasileiro que queria desestruturá-los.

No entanto, um incidente no município de Tupã, interior de São Paulo, despertou um espírito adverso na comunidade japonesa. Sete imigrantes perseguiram pela cidade um soldado brasileiro que teria limpado suas botas na bandeira do Japão. Armados com bastões e catanas, eles queriam vingança contra o homem. 

(Fonte: Nippo Brasil/Reprodução)(Fonte: Nippo Brasil/Reprodução)

Quando o encontraram no Tênis Clube da cidade, eles se depararam com policiais armados. Os nipônicos confessaram que precisavam assassinar o soldado, pois ele havia maculado a bandeira deles e, consecutivamente, sua honra. Ao serem colocados frente a frente, um dos japoneses não se conteve e agrediu o soldado, causando a prisão de todos.

Apesar do desfecho, o caso foi recebido com prestígio em meio a colônia japonesa e os homens ficaram conhecidos como "Os sete samurais". A partir disso, motivado por um sentimento de autopreservação, em agosto de 1942, na cidade de Marília, um ex-coronel do Exército Imperial Japonês chamado Junji Kikawa fundou a Shindo Renmei ("Liga do Caminho dos Súditos", em japonês), que visava unificar as colônias ao redor de um nacionalismo mais efervescente. 

A princípio, a organização só distribuía panfletos e cobrava dos imigrantes a memória, honra e importância do espírito japonês. Por conta desse movimento, a Assembleia Constituinte chegou a criar um projeto que proibisse a entrada de mais japoneses no país.

O nascimento da resistência

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Com a rendição do Japão em agosto de 1945, os imigrantes já não acreditavam mais nas informações passadas pela imprensa brasileira devido ao contexto de exaustiva repressão no qual eles viviam. A comunidade então se dividiu entre kachigumis: os vitoristas que acreditavam que a Segunda Guerra Mundial continuava ou que o Japão havia vencido; e os makegumis: derrotistas que acreditavam na rendição do Japão e nas informações transmitidas pela imprensa brasileira. Esses eram encarados como traidores que já tinham sido "ocidentalizados" pela cultura brasileira.

Foi então que a Shindo Renmei liberou o seu potencial assassino. Estabelecida em 65 municípios paulistas e com mais de 100 mil afiliados, praticamente metade de toda a colônia japonesa no Brasil, a organização gostava de acreditar que eram uma espécie de resistência que preservava a própria cultura e lutava para que ela não fosse manchada por influências de um país que sempre tentou matá-los desde a sua chegada.

Com o dinheiro que coletava de seus membros, a organização falsificava jornais e manifestos imperiais para provar que o Japão permanecia na guerra. Essas famosas fake news atingiam a parcela pobre da colônia (85% dela), visto que a mais rica e estabelecida no Brasil sabia o português e era mais informada, por isso não acreditava na organização.

Fanatismo declarado

Junji Kikawa. (Fonte: El blog Insostenible/Reprodução)Junji Kikawa. (Fonte: El blog Insostenible/Reprodução)

Portanto, grupos com membros fanáticos tidos como os “samurais” da Shindo Renmei começaram a caçar esses "derrotistas" e assassiná-los, pois eram considerados infiéis ao povo e ao imperador Hirohito. Em 7 de março de 1946, Ikuta Mizobe, diretor-gerente da Cooperativa Agrícola de Bastos, foi assassinado com um tiro nas costas dentro de sua casa, disparado por um dos homens da organização. O crime marcou o início da rede de atentados.

No bairro da Aclimação, em São Paulo, o ex-diplomata Shiguetsuna Furuya recebeu 17 tiros, efetuados por 5 japoneses da Shindo Renmei que estavam escondidos no quintal da casa do homem. No bairro do Jabaquara, zona sul da cidade, o empresário Chuzabura Nomura foi assassinado com um tiro no pescoço por 4 japoneses que invadiram a sua residência.

(Fonte: BBC/Reprodução)(Fonte: BBC/Reprodução)

Chamados de “corações sujos”, exatamente 23 japoneses "derrotistas" foram brutalmente assassinados por membros da Shindo Renmei, sendo que mais de 150 foram feridos e cerca de 30 mil foram presos.

Os horrores da Shindo Renmei serviu apenas para reforçar o preconceito dos brasileiros contra os japoneses, acreditando que todos eram nacionalistas extremos. Devido a isso, vários populares promoveram campanhas de ódio aos imigrantes e chegaram a espancá-los pelas ruas, fosse esse afiliado à organização ou não. Em 31 de julho de 1946, após a morte de um caminhoneiro brasileiro por um japonês, cidadãos foram às ruas do interior paulista para linchar os imigrantes.

Com a prisão dos líderes da organização, o ano seguinte foi marcado pelo desgaste e dissolução da Shindo Renmei, que se tornou um tópico banido da comunidade japonesa.

Em entrevista ao portal Nippo Brasil, o historiador Rogério Dezem afirmou que seria menos difícil de os japoneses aceitarem a derrota se o governo brasileiro não tivesse os privado de tudo, fazendo-os duvidarem até de si mesmos.

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