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Assalto ao Banco Central: o crime que parou o Brasil

Em meados de maio de 2005, em conversa com Antônio Jussivan dos Santos, o "Alemão", Deusimar Neves Queiroz, conhecido como "Gordinho", um ex-vigilante de empresas de segurança –, deu a ideia de que eles poderiam roubar o Banco Central, localizado na cidade do Ceará, em Fortaleza. 

"Alemão" ficou incrédulo com a ideia, pois o banco é considerado uma fortaleza impenetrável e altamente vigiada. No entanto, ele havia acabado de voltar à sua terra natal depois de ter fracassado na tentativa de roubo à Confederal Vigilância e Transporte de Valores, em Brasília. Seu intuito, naquele momento, era roubar uma transportadora de dinheiro, pois era uma jogada segura.

Contudo, a conversa com "Gordinho" acabou mudando os seus planos. O comparsa revelou que o caixa-forte do Banco Central só possuía notas velhas e não rastreáveis que iriam para a trituração ou voltariam aos bancos – ou seja, eram perfeitas para serem roubadas. Edilson dos Santos Vieira (o "Dez", vigilante do banco e amigo de "Gordinho") revelou que ele acessava o interior do cofre para ajudar a carregar os malotes de dinheiro, embora só funcionários graduados da instituição pudessem fazer isso. O banco começou a proceder assim porque achava mais fácil e rápido o processo.

Por ter tantas informações privilegiadas, "Dez" rapidamente foi incluído no plano que se desenrolava. Depois de repassar a "Gordinho" todas as brechas no sistema de segurança, incluindo que as câmeras só filmavam em tempo real e apenas pontos cegos, ele chegou à conclusão de que a melhor maneira de chegarem até o cofre era através de um túnel.

A casa verde

(Fonte: G1 Globo/Reprodução)(Fonte: G1 Globo/Reprodução)

Depois que "Dez" tirou fotos do cofre e reuniu todas as informações possíveis, "Alemão" convocou seus companheiros de crime que eram especializados em assaltos complexos, incluindo os "escavadores", que tinham experiência em cavar túneis, sendo que a maioria deles esteve envolvido na fuga do Complexo Carandiru em 1996 e 2001.

Para que tudo desse certo, foram 30 envolvidos diretamente no plano, sem contar com centenas de associados. O estelionatário Jorge Luiz da Silva, o "Mineiro", foi o responsável por alugar a casa 1071 na Rua 25 de Março, no centro de Fortaleza, a um quarteirão do Banco Central, e transformá-la em uma empresa de fachada que vendia grama sintética.

Enquanto isso, os demais criminosos abriram no chão de um dos cômodos da casa um buraco de 75 centímetros de diâmetro e 4 metros de profundidade que atravessava a Avenida Dom Manuel, uma das mais movimentadas da cidade, em uma estrutura revestida com vigas de madeira, com 900 escoras de argamassa e tubos de cimento, e forrada com lona e plástico para evitar erosões e desabamentos. Considerada um projeto absurdo de engenharia, a obra possuía energia elétrica ao longo de seus 80 metros de extensão, ventilação e sistema de ar condicionado.

(Fonte: Estadão/Reprodução)(Fonte: Estadão/Reprodução)

A casa era uma movimentação sem fim, porém, como "Mineiro" já havia convencido a vizinhança de suas "boas intenções" com sua lábia, ninguém imaginava que os carros que entravam e saíam estavam carregados de terra.

Seguindo um mapa detalhado, o projeto alcançou a laje de concreto de 1,1 metros de espessura onde ficava o caixa-forte do Banco Central em 4 de agosto de 2005.

Toneladas de dinheiro

(Fonte: Diário do Nordeste/Reprodução)(Fonte: Diário do Nordeste/Reprodução)

O túnel levou menos de 3 meses para ficar pronto, em uma jornada de trabalho braçal de 7 horas diárias de segunda a sexta-feira. Para furar a laje especial do caixa-forte, os assaltantes usaram uma serra elétrica portátil com disco diamantado, que era auxiliada por uma furadeira elétrica que foi importada de Israel por possuir dentes de diamantes, visto que os equipamentos comuns no Brasil não conseguiriam perfurar o concreto especial do cofre.

Eles levaram 2 horas para conseguir alcançar o interior do caixa-forte, por volta das 21h da sexta-feira de 5 de agosto de 2005. "Alemão" e mais três ladrões entraram e procuraram pelas cédulas não seriadas e apenas no valor de R$ 50. Com o auxílio de roldanas, ganchos e tambores, eles retiraram cerca de 3,5 toneladas de dinheiro, chegando a derramar muitas notas ao longo do túnel devido à quantidade que era transportada. Eles só pararam após 8 horas de trabalho intenso, às 6h do dia seguinte.

(Fonte: G1 Globo/Reprodução)(Fonte: G1 Globo/Reprodução)

A quadrilha alojou cerca de 100 sacas de trigo recheadas de dinheiro em vários furgões que alugaram para fugirem. A casa de fachada foi trancada e o dinheiro seguiu para três destinos diferentes, sendo que um deles ficava no bairro Mondubim, na periferia de Fortaleza, onde foi enterrado cerca de R$ 56 milhões para que fossem distribuídos aos criminosos. Mais tarde, quando a Polícia Federal encontrou a quantia, restavam apenas R$ 12,5 milhões da quantia.

Os funcionários do Banco Central chegaram ao cofre apenas às 9h de 8 de agosto, em plena segunda-feira, quando os criminosos já haviam fugido há muito tempo. Lá, eles estimam que aproximadamente R$ 164 milhões foram roubados, constituindo o maior roubo a banco da História do Brasil.

A força-tarefa

Antônio Celso. (Fonte: Diário do Nordeste/Reprodução)Antônio Celso. (Fonte: Diário do Nordeste/Reprodução)

No momento em que a Polícia Federal foi acionada e a "Operação Toupeira" ganhou os jornais de todo o país, o delegado federal Antônio Celso alegou que muitos policiais civis e militares do Ceará e de São Paulo começaram a caçar os criminosos por conta própria com o único intuito de fazer extorsões – sendo que muitas delas deram certo.

Cerca de dois meses após o crime, Fernando Pereira, um dos líderes da quadrilha, foi sequestrado em São Paulo e morto em Camanducaia, Minas Gerais, após a família pagar R$ 2 milhões em resgate. O crime foi cometido por policiais civis. Várias situações como essa aconteceram, inclusive com o irmão de "Alemão", que só foi devolvido após os policiais corruptos receberem uma alta quantia.

O O "Alemão", que comandou a quadrilha. (Fonte: O Tempo/Reprodução)

A investigação da Polícia Federal teve mais sucesso a partir do momento em que identificaram e prenderam José Marleudo através de impressões digitais deixadas na casa de fachada. Além disso, os criminosos também começaram a cometer falhas. José Charles Morais, irmão de Marcos Rogério Machado de Morais, apontado como o engenheiro do túnel, comprou 10 carros de uma só vez e foi preso em Minas Gerais com R$ 6 milhões escondidos em um dos carros que ele transportava em um caminhão cegonha.

Ele foi o responsável por fornecer o paradeiro e o nome dos envolvidos, inclusive o número de celular que correspondia ao que os investigadores encontraram em um cartão caído no túnel.

Com o tempo, os agentes federais foram prendendo os criminosos um a um, até que chegaram a indiciar 134 pessoas envolvidas, das quais mais de 90 foram condenadas na 11º Vara de Justiça Federal de Fortaleza. 

Contudo, a Polícia Federal só foi capaz de resgatar R$ 60 milhões do patrimônio roubado, que se perdeu entre o tráfico, a milícia e a corrupção, em um dos episódios mais emblemáticos do Brasil. 

A história foi retratada em 2011 pelo diretor Marcos Paulo, na adaptação cinematográfica intitulada Assalto ao Banco Central.

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