Último baile do Império: a desesperada festa da monarquia no Rio de Janeiro

27/05/2023 às 12:003 min de leitura

“O rei perde a coroa, mas não perde a majestade”, diz o provérbio popular que se aplica perfeitamente bem ao memorável 9 de novembro de 1899, quando aconteceu o último baile do Império no Brasil.

Naquela época, em meio a uma série de conspirações republicanas, com um D. Pedro II velho e doente, o Império estava por um fio. E, apesar de sua ruína iminente e sem alternativa, a realeza ainda resistia, inclusive, querendo provar ao país que estava forte.

Com isso, o Visconde de Ouro Preto – também conhecido como Afonso Vintém, então presidente do Conselho de Ministros –, sugeriu realizar um grande baile, o primeiro organizado nos 54 anos de reinado de Pedro II.

Assim aconteceu o Baile da Ilha Fiscal, o evento mais decadente e suntuoso da época do Império.

O maior evento do Rio de Janeiro

(Fonte: Harpya Leilões/Reprodução)(Fonte: Ribeiro, A./Biblioteca Nacional/Harpya Leilões/Reprodução)

O evento aconteceu em um sábado e teve como cenário o Palácio da Ilha Fiscal, recém-inaugurado e localizado na Baía da Guanabara. A princípio, os primeiros locais cogitados para sediar o evento foram o Palácio de Petrópolis e o Paço Imperial de São Cristóvão, mas ambos foram descartados por serem considerados suscetíveis a ataques.

A verba para a festança foi retirada do Ministério de Viação e Obras Públicas, criado como fundo de emergência para as vítimas da seca no Ceará, uma média de 10% de todo o orçamento governamental destinado à capital do Império por um ano inteiro.

Esse dinheiro recolhido pelo Visconde foi essencial para providenciar todo o luxo que o baile requeria, a começar pelos convites. Feitos em capa de cetim e com detalhes em ouro, estima-se que entre 2 a 5 mil deles foram emitidos para toda a nata da alta sociedade imperial, que incluía membros do governo, nobres da corte, e representantes das nações vizinhas.

Biblioteca do Senado(Fonte: Urias Antonio da Silveira/Biblioteca do Senado/Reprodução)

Até mesmo para os convidados, a festa se tratava de uma diplomacia e honra aos oficiais do navio de guerra chileno Almirante Cochrane, que estava no Brasil há duas semanas. Essa mentira foi disparada como desculpa oficial para um baile daquela magnitude.

Nunca houve uma festa tão grandiosa como aquela durante o reinado de D. Pedro II, portanto, o Rio de Janeiro veio a baixo com seu anúncio. Inclusive, esgotaram-se estoques de tecidos nas lojas de roupa sofisticadas, levando costureiras e alfaiates à exaustão para confeccionar os melhores trajes para a noite.

A loucura foi tamanha que agendamentos nos cabeleireiros foram marcados com semanas de antecedência, com mulheres que não tomaram banho e dormiram sentadas nos três dias que antecederam o baile para não estragarem o penteado.

Uma noite perfeita

(Fonte: Francisco Figueiredo/Museu Histórico Nacional/Reprodução)(Fonte: Francisco Figueiredo/Museu Histórico Nacional/Reprodução)

Na tão esperada noite de sábado, naquele 9 de novembro de 1889, milhares de pessoas desembarcaram na ilha para um mundo de luz que se tornou o Palácio da Ilha Fiscal, iluminado por milhares de velas, balões, e lanternas venezianas e chinesas. Tudo isso graças a um gerador instalado em um barracão ao lado do edifício e aos holofotes do couraçado Almirante Cochrane e de outros navios da Marinha ancorados por perto.

Estima-se que pelo menos 300 mil pessoas se espremeram no cais Pharoux, atual Praça XV, no centro do Rio, de onde saíam as barcas Ferry para a ilha. Tudo isso para assistir ao desfile de damas e cavalheiros vestidos nas roupas mais belas que a cidade já viu. Tudo parecia encantado.

Os convidados desfilavam em meio a 150 garçons, que carregavam os pratos preparados por 48 cozinheiros. A cargo da Confeitaria Paschoal, que servia a Família Rela há anos, foram entregues na ilha: 3 mil sopas de 22 qualidade, 50 peixes grandes, 800 latas de lagosta, 800 kg de camarão, 500 tigelas de ostras, 100 latas de salmão, 400 saladas diferentes, 800 latas de trufas, 1.500 costeletas de carneiro, 1.300 frangos, 250 galinhas, 500 perus, 64 faisões, 80 marrecos, 12 cabritos, 20 mil sanduíches diversos, 800 inhambus, 50 macucos e 12 cabritos.

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Tudo isso compunha apenas o prato principal. Para a sobremesa, foram reservados 14 mil sorvetes, 800 pratos de pastelaria, 600 gelatinas, 300 pudins e 400 doces de fios de ovos. Para beber, os convidados se refocilaram em mais de 10 mil litros de cerveja, 188 caixas de vinhos diversos, 80 caixas de champanhe, 10 caixas de vermute, 16 caixas de licores e conhaque.

O menu anunciou nada menos do que 11 pratos quentes, 15 pratos frios e 12 tipos de sobremesa. Todos atendiam o paladar francês, mesmo que com ingredientes tipicamente nacionais.

A festa terminou às 6h e, apesar de sua magnitude, foto nenhuma sobreviveu para ilustrar a história. Talvez porque toda a noite perfeita realmente parecia um sonho de que o Império prevaleceria, mas não foi o que aconteceu. Seis dias após o baile, em 15 de novembro de 1889, foi proclamada a República.

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