O talento e a irreverência de Dener

O talento e a irreverência de Dener

Equipe MegaCurioso
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O estilo polêmico de Dener. Fonte: Reprodução

Alguns o classificam como narcisista e esnobe. Outros falam que ele era cínico e divertido. Independente do adjetivo, Dener Pamplona de Abreu ainda é lembrado como o precursor da alta-costura brasileira, mesmo depois de 33 anos de sua morte, completados em novembro.

Considerado o criador da moda brasileira, ele mesmo admitia isso sem demonstrar qualquer constrangimento. E até hoje não houve ninguém que discordasse desse fato. Dener foi o primeiro a fazer com que a elite do país deixasse os estilistas estrangeiros consagrados de lado para aparecer em grandes eventos vestindo peças nacionais.

Seu diferencial estava em ter estilo próprio, construído com base nos elegantes modelos franceses e no clima tropical, que rendiam coleções feitas com tecidos mais leves e estamparias vivas, sempre com sofisticação.

O estilista se esforçava para criar a moda nacional em um contexto em que o chique era copiar as roupas europeias, mesmo que a realidade do país fosse diferente. Para tanto, Dener utilizou uma de suas características mais fortes, a autopromoção, para valorizar sua marca e se tornar a principal referência da alta-costura no Brasil.

A trajetória do mito

Dener começou sua carreira aos 13 anos, na Casa Canadá. Aos 20, graças ao seu talento e originalidade, abriu seu próprio ateliê na Praça da República, que em pouco tempo se tornou um dos locais mais sofisticados de São Paulo.

Na década de 1960, em seu ateliê. Fonte: Reprodução

Em apenas dois anos, o estilista construiu sua reputação. Ele conquistou o status de celebridade e participava dos principais desfiles nacionais e eventos internacionais.

Dener era admirador do estilo da Balenciaga, o que justifica sua preferência por materiais e modelos sofisticados e elegantes. Suas criações eram ricas em detalhes e o estilista era minucioso em seus desenhos: levava em consideração o físico da cliente, a idade e as preferências.

O clima tropical e o acabamento requintado das grifes francesas ajudavam a inspirar os modelos. E não era só a qualidade das peças que dava visibilidade ao designer. Com sua personalidade forte, ele criou, inclusive, um vocabulário especial para se expressar. Não é à toa que o bordão “Um luxo”, saiu de seu ateliê, assim como “Divino, maravilhoso”, que rendeu uma música de Caetano Veloso.

Dener e Maria Teresa, em 1963. Fonte: ReproduçãoDener sabia que o sucesso viria somente com a divulgação do seu talento. Assim, foi o primeiro a usar a força da mídia para promover suas coleções. Sua vida de glamour e afetação, aliada ao seu talento de padrão internacional, fez com que as mulheres da elite brasileira passassem a procurar por seu ateliê sempre que precisassem de peças novas.

Entre elas, estavam as então primeiras-damas Sara Kubitscheck e Maria Tereza Goulart. A esposa de Jango, inclusive, aceitou a consultoria do profissional em outras áreas, incluindo na forma de se vestir do presidente.

Dener causava tumulto por onde passava e costumava ser o centro das atenções em qualquer evento. Ele vestia as socialites para as festas e acompanhava de perto o sucesso de seus modelos. A casa do designer era frequentada por celebridades como Elis Regina e, desapegado ao dinheiro, ele costumava promover grandes comemorações em sua residência.

A vida pessoal do estilista também não passava despercebida. Em 1965, ele se casou com uma de suas modelos, a jovem Maria Stella Splendore (com apenas 16 anos na época). Em seguida, vieram seus dois filhos, mas isso não fez com que o casamento durasse muito. Quatro anos depois, o casal optou pelo divórcio, mantendo apenas relações de amizade.

O estilista e a família. Fonte: Reprodução

Dener era considerado atencioso e carinhoso pela família. Anos depois, ele ainda se casou com uma de suas clientes, Vera Helena Pires de Oliveira Carvalho.

Dener no programa Flávio Cavalcanti.
Fonte: ReproduçãoNa vida profissional, seu sucesso era incessante. Depois de ter seu programa de televisão censurado pela ditadura, ele foi convidado para ser jurado do Programa Flávio Cavalcanti, uma das maiores audiências da TV Tupi. Lá, ele consagrou o bordão “Um luxo!” e ganhou ainda mais visibilidade.

Outra de suas conquistas foi o primeiro lugar de um concurso em Las Vegas, em que um dos concorrentes era Christian Dior, que já possuía uma grife consagrada. Quando o estilista francês faleceu, a vitória anterior rendeu ao brasileiro um convite para dirigir a maison. Porém, por razões incertas, ele recusou a oportunidade.

Na verdade, no fim da década de 1960, o designer criou sua própria marca, considerada a primeira do ramo no Brasil. A Dener Difusão Industrial de Moda seguia os conceitos de seu proprietário, que ensinava suas clientes que o importante não é apenas o que se veste, mas como veste e por que veste. Para ele, a mulher elegante escolhe o visual para agradar a si mesma, e não aos outros.

O temperamento forte do estilista o encorajava a criar movimentos que uniam outros profissionais de moda brasileiros a evitar a invasão de marcas estrangeiras no país. Porém, sua relação com a concorrência nem sempre era amigável.

As brigas constantes entre Dener e o estilista Clodovil Hernandes inspiraram o roteiro da primeira versão da novela Ti-Ti-Ti, que estreou depois da sua morte, em 1985. Na trama, os dois protagonistas, que eram estilistas, declaravam guerra entre os ateliês.

O fim de uma história de talento

A edição da biografia de Dener editada pela Cosac Naify. Fonte: Divulgação

A década de 1970 não seguiu o mesmo rumo de sucesso na vida de Dener. Com a mudança do cenário da moda, ele deixou de ter a mesma importância no mercado brasileiro.

Em 1972, já em declínio, ele lançou sua autobiografia “Dener – O Luxo”, relançada em edição especial pela Cosac Naify em 2007. Nela, é possível sentir a afetação do estilista, que mistura ficção e realidade para contar sua história.

Esse foi um dos últimos atos de autopromoção do designer. No fim da década, em 1978, Dener optou pelo exílio. Com pouco dinheiro e desgostoso com os rumos da moda no país, ele acabou se rendendo ao vício em álcool e, em 09 de novembro, faleceu em decorrência de cirrose hepática.

Desde então, sua trajetória nunca foi esquecida e inspira exposições, livros e estudos. Conhecer o trabalho de Dener tornou-se obrigatório para os apaixonados por moda e, ao longo dos anos, surgem novas biografias que influenciam os futuros designers a seguir os conceitos deixados por ele.

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