Os filmes mentiram: injetar medicamentos no coração não salva ninguém!
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Os filmes mentiram: injetar medicamentos no coração não salva ninguém!

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Você deve se lembrar de ter visto em algum filme ou seriado aquela cena na qual um personagem destemido heroicamente crava uma injeção diretamente no coração de alguém que está morrendo e, miraculosamente, salva sua vida. Pois se alguma vez você se encontrar em uma situação parecida, saiba que reproduzir essa artimanha na vida real é uma péssima ideia. Aliás, segundo Scott do site Today I Found Out, isso pode ser extremamente perigoso!

Segundo Scott, cravar uma agulhona no coração de alguém pode fazer com que essa pessoa sangre até morrer através do furo que você acabou de fazer — tipo o que aconteceria se você fizesse um furo em um balão cheio de ar. Além disso, outro problema com essa técnica cinematográfica é que você pode acertar um dos pulmões por acidente e, o “paciente” não só morreria de hemorragia, como teria uma baita falta de ar até finalmente bater as botas.

Mito

Na verdade, atualmente não existe nenhum procedimento no qual um médico precisaria enfiar uma agulha no coração de alguém. O tratamento mais próximo disso seria uma pericardiocentese, que é um processo que envolve a introdução de uma agulha no pericárdio — uma espécie de saco que envolve o coração — para eliminar o excesso de fluídos que possam estar pressionando o órgão.

Entretanto, existem maneiras mais eficientes de fazer com que os medicamentos cheguem até o coração — em vez de fazer um furo nele. Caso você seja fã de injeções, uma opção seria criar um acesso venoso por meio de uma agulha ou cateter e administrar os remédios. Considerando que na maioria das pessoas o sangue geralmente leva cerca de um minuto para circular pelo corpo, os medicamentos chegariam rapidinho ao coração.

Outra opção seria aplicar os remédios através de uma injeção intramuscular, e aguardar cerca de cinco minutos até que as substâncias atinjam o coração. E já que estamos no assunto de esclarecer esse mito criado pelo cinema, que tal analisar com mais detalhe duas ocasiões famosas nas quais essa técnica foi empregada?

Pulp Fiction

Quem não se recorda da icônica cena na qual Vincent Vega (interpretado por John Travolta) enterra uma injeção de adrenalina no peito de Mia Wallace (vivida por Uma Thurman) para reverter os efeitos de uma overdose de heroína — que ela cheirou pensando que era cocaína?

Também conhecida como epinefrina, essa substância é um hormônio e neurotransmissor liberado pelas glândulas suprarrenais em momentos de estresse. Ela também pode ser produzida sinteticamente,  e tem várias aplicações além de ser usada em paradas cardíacas. Além disso, a adrenalina ainda pode ser empregada em ataques de asma e reações alérgicas, por exemplo.

Essa substância age em diversos tipos de células nervosas, e seu principal efeito é o de estimular a resposta de “fuga ou luta”. No entanto, a adrenalina não é tipicamente administrada em casos de overdose por heroína.

Quando uma pessoa sofre overdose de heroína, normalmente a morte ocorre porque essa droga provoca a parada respiratória. Eventualmente o coração também para de bater, portanto, aplicar uma injeção de adrenalina nesses casos não ajudaria muito. Por outro lado, segundo Scott, existe um medicamento capaz de causar uma reação parecida às do filme Pulp Fiction.

Chamada Naloxona, essa substância funciona como uma antagonista de opioides — classe de drogas à qual a heroína pertence —, e geralmente é o medicamento escolhido pelos médicos para tratar as overdoses. A Naloxona funciona bloqueando a ação da heroína, e seu efeito é bastante rápido, podendo fazer com que a pessoa que recebeu o medicamento passe de inconsciente a completamente desperta e alerta em cerca de um minuto.

Contudo, vale lembrar que o efeito da heroína é mais duradouro do que o da Naloxona, então, a pessoa sendo tratada por overdose ainda corre o risco de sofrer parada respiratória. Veredito da cena? Se Mia tivesse recebido uma dose de adrenalina diretamente no coração como vimos no filme, não seria só o nariz dela que sangraria — e ela estaria mortinha em pouco tempo.

A Rocha

Outro filme que usa o mesmo artifício é “A Rocha”, de 1996. Você deve se lembrar da cena na qual o Dr. Stanley Goodspeed — vivido por Nicolas Cage — crava uma injeção de atropina no próprio peito para reverter os efeitos do gás tóxico VX, não é mesmo? Pois, segundo Scott, neste caso, os produtores não cometeram muitas gafes, já que a atropina realmente pode ser utilizada para tratar pessoas que foram expostas ao agente venenoso.

De acordo com Scott, o gás VX é um agente asfixiante letal, e ele age inibindo a uma enzima chamada colinesterase. Com isso, ocorre um acúmulo da acetilcolina — um neurotransmissor que atua no sistema nervoso central — no organismo, resultando na estimulação excessiva de músculos e glândulas. Esse processo, por sua vez, provoca a diminuição do ritmo cardíaco, a constrição dos bronquíolos dos pulmões e a dilatação dos vasos sanguíneos.

Ao mesmo tempo, as pessoas expostas ao gás também começam a apresentar sintomas como a salivação excessiva e a irritação gástrica, além de começar a urinar, defecar e vomitar sem controle. Basicamente, a azarado que sofre intoxicação pelo gás morre de falta de ar causada pela hiperestimulação do diafragma e outros músculos do corpo, enquanto vaza por todos os orifícios — sim, se trata de uma morte lenta e incrivelmente dolorosa.

Além da atropina, outro medicamento usado em casos de envenenamento por VX é a Pralidoxima. Ela ajuda a reverter os efeitos da inibição da colinesterase e, portanto, reduz o acúmulo da acetilcolina no organismo, e quase sempre é usada em conjunto com a atropina.

Veredito da cena? Apesar de o Dr. Stanley Goodspeed ter acertado na escolha do medicamento, ele morreria de qualquer jeito por causa do furo no coração. Entretanto, considerando as opções, seria bem menos doloroso do não conseguir respirar enquanto se vaza por todos os orifícios do corpo, você não acha?

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