Dust Bowl: a tempestade interminável

Dust Bowl: a tempestade interminável

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As tempestades de areia são fenômenos meteorológicos muito comuns em regiões com alto índice de aridez e também nas semiáridas. Elas geralmente surgem a partir dos ventos muito fortes causados por tempestades comuns, puxando a poeira do chão e a lançando para o ar numa corrente de centrifugação contínua.

O fenômeno tende a terminar após alguns minutos, embora essa massa de poeira e detritos possa se manter no ar estagnado por vários dias e até meses. Até mesmo a mínima duração acaba dando margem para graves riscos, causando invisibilidade no espaço aéreo, problemas de saúde — especialmente asma —, e até pequenos prejuízos em plantações.

O Domingo Negro

(Fonte: Strange Sounds/Reprodução)

Mais ou menos até o final do século XIX, o sul dos Estados Unidos se resumia em quilômetros de planícies usadas como pastagens, uma vez que as temporadas de invernos severos, os verões extremamente quentes pontuados com a forte ventania, tornou o solo pouco favorável para os métodos de agricultura convencional. No entanto, os avanços no maquinário agrícola, principalmente movidos a gasolina, tornaram o nível de produção muito mais rápido em comparação ao tradicional, e também menos trabalhoso.

Por isso que, durante os anos de 1920, milhares de acres de terras foram transformados em campos para plantações de trigo de uma forma que desencadeou um novo tipo de indústria naquela região, que já havia tomado os seus primeiros passos no início de 1900. Depois da Guerra Civil, o governo pressionou ainda mais a mente de milhares de pessoas com os atos federais que ofereciam terras por um preço extremamente barateado, causando uma migração em massa para fazer plantio daquelas planícies e começar a usufruir da promessa de futuros lucros.

No entanto, em 1930, quando a Grande Depressão assolou os Estados Unidos, a indústria do trigo começou a ruir. Desesperados com a perca do dinheiro, os agricultores passaram a colher ainda mais do trigo, visando compensar a perda e indo contra a política do governo de reduzir a produção. Em adição a isso, durante anos, a falta de estudo apropriado da ecologia do solo, a lavoura extensa e profunda numa planície virgem, o uso de máquinas agressivas que tentaram de tudo para transformar a terra árida em algo cultivável, causou o deslocamento de gramíneas nativas que naturalmente retinham a umidade do solo, mesmo durante a seca e o vento, impedindo que este entrasse em colapso.

Quando a seca de 1930 os atingiu, com os campos nus, o solo extremamente seco e frágil virou poeira e os ventos implacáveis sopraram essa areia para o ar numa tempestade de proporções bíblicas, escurecendo os dias. Enquanto os norte-americanos acreditavam que esse fenômeno só duraria uma temporada, a cada ano que se passava, as tempestades se tornaram cada vez piores, mais espessas e violentas, corroendo e arrastando tudo o que havia pela frente, espalhando poeira para todo o país.

Só que em 1931, a chuva parou de cair e a seca permaneceu com as suas tempestades que não pararam por 10 anos seguidos. E em 15 de abril de 1934, depois do intitulado Domingo Negro, o primeiro pior dia dos anos que viriam, Edward Stanley, o editor da Associated Press, definiu o desastre que estava acontecendo como “Dust Bowl”.

10 anos de poeira

(Fonte: Britannica/Reprodução)

Em 10 anos, os termômetros chegaram a registrar 50º graus. Em julho de 1936, a onda intensa de calor que fulminou mais de 12 estados foi a mais mortal da história dos Estados Unidos, matando cerca de 1.693 pessoas. Enquanto outras 3.500 morreram afogadas na tentativa de se refrescar.

Até lá, o ar já acumulava mais de 48 tempestades de poeira entre os 12 estados do país. Pessoas desenvolveram doenças respiratórias fatais, apesar do uso de máscaras. Elas removiam com pás a areia das casas, penduravam lençóis molhados diante das portas e janelas com o intuito de filtrar o teor da poeira. Tossindo sangue com areia e detritos, a população começou a sofrer e morrer de uma nova espécie de epidemia que foi chamada de “pneumonia por poeira”. Estima-se que apenas em um ano 6.500 pessoas tenham morrido.

Ao longo disso, ecologicamente, as plantações encolheram e sumiram. Os animais de pastagem, principalmente o gado, ficaram cegos, se sufocaram com a areia fina e morreram aos montes. A economia local sucumbiu ainda mais, uma vez que as terras perderam o valor. Então, famintos, num dos êxodos mais diferentes e conhecidos de toda a história, por volta 3.5 milhões de norte-americanos ficaram desabrigados pela seca interminável e assassina, sendo forçados a viajarem através do país em busca de outras áreas de trabalho e moradia.

10 anos de poeira: a primeira gota

(Fonte: PBS/Reprodução)

Em 1937, depois de o especialista em agricultura Hugh Bennet convencer o governo a financiar um programa federal para ensinar o uso de novas técnicas que conservariam o solo e restaurariam a terra, a perda foi reduzida em 65%.

No outono de 1939, as primeiras gotas de chuva lavaram as pradarias estorricadas e estéreis que padeceram por 10 anos impenetráveis de poeira, pondo um ponto final no ciclo mortífero que foi o Dust Bowl. O desastre ambiental custou milhares de dólares para a economia dos Estados Unidos, além de seu impacto ecológico ter resultado na remoção de 75% do solo superficial das planícies afetadas que, somente após anos de atividades agrícolas apropriadas, tiveram os danos reduzidos.

Contudo, nem tudo está a salvo. Foi comprovado que o Dust Bowl pode acontecer mais uma vez se o agronegócio não parar de drenar as águas subterrâneas do aquífero de Ogallala, no Nebraska, oito vezes mais rápido do que a chuva. Na taxa atual de uso, as águas sumirão dentro de um século, sendo que algumas partes do Texas e de Pandhandle já estão secando, visto que os cientistas afirmam que levariam 6 mil anos para reabastecer o aquífero. Com a água acabando, o local pode explodir em areia novamente, só que dessa vez ainda pior e talvez de uma maneira irreversível, tanto para o homem quanto para a natureza.

E em paráfrase, como se prevesse o futuro de que muitas atitudes talvez não mudassem, o escritor Timothy Egan, em seu livro The Worst Hard Time, ressaltou: "De todos os países do mundo, nós, americanos, somos os maiores destruidores de terra de qualquer raça de pessoas bárbaras ou civilizadas. O que aconteceu foi o sintoma de nossa enorme e estupenda ignorância.".

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