Seja o primeiro a compartilhar

Texarkana: a cidade que temia o anoitecer

Durante o verão de 1946, sair nas ruas de Texarkana, uma cidadezinha entre os estados do Texas e o Arkansas nos Estados Unidos, transformou-se em risco de morte. Não havia um vírus mortal que era contraído pelo ar ou o perigo de ser bombardeado por algum avião, mas sim existia o risco de "tropeçar na sombra" de um assassino em série que era temido até mesmo pela polícia.

Era sexta-feira, 22 de fevereiro de 1946, aproximadamente 23h45, quando Jimmy Hollis (25 anos) e sua namorada, Mary Jeanne Larey (19 anos), estacionaram em uma estrada isolada próximo da Robison Road que era conhecida por ser o ponto de encontro de casais. Poucos minutos depois, eles foram surpreendidos por um homem usando um capuz de pano branco, que parecia uma fronha, com buracos apenas para os olhos.

(Fonte: Texas Monthly/Reprodução)(Fonte: Texas Monthly/Reprodução)

Ele jogou a luz da lanterna no rosto deles, e Hollis disse ao encapuzado que ele"estava mexendo com a pessoa errada", então o homem respondeu: “não quero te matar, então desça do carro”. Os jovens obedeceram, e o criminoso ordenou que Hollis tirasse as calças. Assim que ele terminou, recebeu uma coronhada na cabeça. Larey disse que o barulho do crânio fraturando foi tão alto que ela pensou que o homem havia disparado o revólver. Ela chegou a oferecer a própria carteira, imaginando que fosse um assalto, mas apenas foi agredida. O desconhecido então ordenou que ela fugisse, só para que a perseguisse em seguida, se jogasse sobre ela e a estuprasse com o cano do revólver.

Larey conseguiu fugir e encontrar uma residência, onde telefonou para a polícia, enquanto Hollis conseguiu pegar uma carona na Richmond Road. Após meia hora, o xerife Bill Presley, do condado de Bowie, chegou ao local do crime, mas o agressor já havia sumido. Ele e os oficiais encontraram apenas as calças de Hollis e seu carro estacionado.

Noites sem fim

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

As vítimas deram relatos divergentes para a polícia. Larey afirmou que o homem estava usando uma espécie de fronha na cabeça, e que era afro-americano. Hollis, por outro lado, alegou que o homem era branco, aproximadamente 30 anos, e admitiu que não conseguiu distinguir suas feições devido à luz da lanterna. Apesar disso, a polícia acreditava que eles sabiam quem era o agressor, mas estavam com medo de dizer a identidade dele.

Em 24 de março, Richard Griffin e sua namorada, Polly Ann Moore, foram encontrados mortos em um sedã Oldsmobile, por volta de 8h30, na mesma estrada em que Laurey e Hollis foram atacados. Ambos foram mortos com tiros na nuca, e um pedaço de terra encharcado de sangue sugeriu à polícia que eles foram assassinados fora do carro e depois transferidos de volta para o veículo. Foram encontrados projéteis de uma pistola Colt de calibre 32 na cena do crime.

A investigação policial entrevistou mais de 60 testemunhas, com ampla divulgação pela cidade e até uma recompensa de US$ 500 pelo criminoso, mas nenhum responsável foi apontado.

(Fonte: AminoApps/Reprodução)(Fonte: AminoApps/Reprodução)

Betty Jo Booker tinha apenas 15 anos quando desapareceu com seu amigo Paul Martin (17), na madrugada de 14 de abril, após sair de um ensaio de sua banda do VFW Club. Martin foi encontrado às 6h30 pelo casal Weaver, caído no acostamento da North Park Road, baleado com quatro tiros, sendo um deles na nuca. Só às 11h30 que Booker foi encontrada, a 3,2 quilômetros de distância de Martin, atrás de uma árvore. Ela levou um tiro no peito e outro no rosto.

O xerife Presley e o capitão Manuel Gonzaullas, do Texas Ranger, disseram que a autópsia revelou que as vítimas lutaram intensamente antes de serem mortas. Foi estipulada uma recompensa de quase US$ 2 mil pelo criminoso, porém novamente foi inútil.

Na noite de 3 de maio, o fazendeiro Virgil Starks (37), que morava a nordeste de Texarkana, foi assassinado com dois tiros por meio de sua janela enquanto assistia ao telejornal de sua poltrona. Quando sua esposa, Katie Starks (36), telefonava para a polícia, ela foi atingida por dois tiros vindos da mesma janela. Um dos disparos atravessou sua bochecha direita e saiu atrás de sua orelha esquerda, e o outro se alojou sob sua língua após perfurar a sua mandíbula.

Cidade do medo

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

A essa altura, os habitantes de Texarkana já estavam em estado de absoluto pânico. Ao anoitecer, o local se transformava em uma cidade fantasma – por isso os homicídios começaram a acontecer em casa. As pessoas se trancavam armadas até os dentes com munições, fechaduras e dispositivos de proteção, enquanto a polícia patrulhava ruas e bairros.

Empresários perderam dinheiro por terem que fechar lojas e restaurantes às 18h, sendo que alguns até faliram com os toques de recolher impostos. Muitos moradores fugiram da cidade, fazendo a economia decair ainda mais. Alguns jovens criaram uma espécie de "armada de vigilantes”, em uma tentativa de capturar e dar um fim no que eles chamavam de “Fantasma Matador”. De repente, desaparecimentos e mortes do passado vieram à tona, sendo atribuídos ao assassino encapuzado.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

A histeria atingiu o apogeu quando Starks foi morto "dentro da segurança de seu lar", como o Texarkana Gazette noticiou, alegando que ninguém mais estava a salvo. Isso fez muitas pessoas bloquearem janelas e qualquer outro meio que desse uma visão do interior de suas residências.

Texarkana se tornou o local mais perigoso dos Estados Unidos porque as pessoas viviam armadas e tensas. Até os policiais precisavam ligar as sirenes para notificar aproximação, pois podiam ser vítimas de uma saraivada de disparos súbitos. Muitas pessoas acabaram se ferindo com o manuseio inadequado das armas e também atirando em inocentes por puro medo.

A cidade que temia o anoitecer

(Fonte: Thought Catalog/Reprodução)(Fonte: Thought Catalog/Reprodução)

O FBI foi convocado para intervir pela cidade de Texarkana com os departamentos de polícia dos condados próximos. Em meio a tantas investigações, vários suspeitos surgiram, inclusive cada um apresentando um perfil diferente. Suspeitaram desde um taxista, no caso de Booker e Martin, quanto de Max Tackett, um oficial novato de 33 anos da Polícia do Estado de Arkansas. Contudo, nada foi o suficiente para incriminar nenhum dos 7 suspeitos que surgiram na época.

Em meio ao caos que estava a cidade, os investigadores também tiveram que lidar com diversas confissões falsas, fabricação de evidências, tentativas de crimes copycats e falsas incriminações por conflitos familiares ou rixa entre vizinhos. As poucas evidências encontradas foram devidamente periciadas, porém não forneceram resultados.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Com o tempo, Texarkana aceitou que jamais encontrariam o assassino, então eles apenas foram voltando à vida normal – que nunca mais foi a mesma. A cidade seguiu assombrada pela possibilidade de uma nova "onda" de ataques. Tudo o que aconteceu naquele ano entrou para a história da cidade e da cultura popular. O caso ficou ainda mais famoso quando foi feito o filme A Cidade que Temia o Pôr-do-Sol em 1976.

O xerife James Presley, que acompanhou todo o caso, escreveu o livro The Phantom Killer: Unlocking the Mistery. “O caso clamava por um registro confiável para preservar os fatos conhecidos”, alegou o aposentado. “Escrever este livro foi como montar um quebra-cabeça com pequenas peças espalhadas, mas algumas delas faltando”, ele afirmou.

Você sabia que o Megacurioso está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.