“Esgoto a céu aberto”: é assim que a Baía de Guanabara foi descrita nos EUA
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“Esgoto a céu aberto”: é assim que a Baía de Guanabara foi descrita nos EUA

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Os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro estão prestes a começar e, como você deve saber, um dos pontos mais discutidos desde que a cidade começou a se preparar para o evento foi a poluição na Baía de Guanabara — que será palco das competições de vela. Pois, a poucos dias do início da festa, o jornal norte-americano The New York Times publicou um artigo em que compara a localidade carioca a um “esgoto a céu aberto”. Tenso.

Tenso mesmo!

Segundo Jules Boykoff, professor de Ciências Políticas da Universidade do Pacífico e autor da matéria, o forte cheiro pode ser sentido assim que os visitantes aterrissam no Galeão, o aeroporto internacional da Cidade Maravilhosa.

O odor desagradável vem da Baía de Guanabara, descrita pelo docente como, basicamente, um caldo lodoso, marrom e fedorento onde boiam garrafas PET, sacolas plásticas e ratos mortos. Ainda segundo Jules, debaixo desse lixo todo, existe um coquetel de vírus e superbactérias resistentes a medicamentos.

Nojento

De acordo com o artigo, quase 640 milhões de litros de esgoto não tratado são despejados diariamente na baía, e existe grande preocupação em como essa água contaminada pode afetar os atletas que competirão ali. A publicação também aponta que o problema não se limita apenas aos eventos esportivos, já que a população carioca é obrigada a conviver com essa sujeira toda.

Olha a situação

O engraçado, conforme aponta Jules, é que as coisas deveriam ser bem diferentes no Rio de Janeiro, considerando que a cidade já sediou diversos eventos ambientais internacionais, como a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento em 1992, e a Rio+20 — Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável — em 2012.

Você teria coragem de entrar nessa aguinha?

Além disso, quando a cidade foi eleita como anfitriã das Olimpíadas de 2016, uma das promessas dos organizadores foi justamente a de melhorar a qualidade do ar e da água da capital fluminense. Nos documentos firmados, as autoridades se comprometeram a tratar 80% do esgoto da Baía de Guanabara até este ano — mas o término das operações teria sido recentemente prorrogado para 2035.

Contaminação olímpica

Segundo Jules, um relatório revelou que a ingestão de apenas três colheres de chá de água proveniente da baía oferece 99% de chance de contração de infecções virais — embora os diferentes níveis de imunidade da população signifiquem quem nem todos os que entram em contato com a água ficam doentes.

Os atletas vão ter que competir no meio disso tudo

Os velejadores, nadadores e remadores que se aventurem pela Baía de Guanabara poderiam contrair, por exemplo, a hepatite A, além de estarem sujeitos a desenvolver doenças respiratórias e digestivas que poderiam evoluir a problemas mais graves, afetando órgãos como o cérebro e o coração. Um jornalista da Associated Press chegou a afirmar que o que está acontecendo é um crime ambiental — e as autoridades brasileiras estão organizando uma Olimpíada no local.

Alguns dos itens que boiam pela Baía de Guanabara

Pelo menos, segundo Jules, os atletas que competirão nas águas sujas da baía poderão se proteger (parcialmente) com todo tipo de tecnologia. Os cariocas não têm opção e, conforme disse Jules, os médicos que atendem a população mais carente calculam que 40% das doenças que eles sofrem são resultado do contato com o esgoto não tratado. E o professor explica que o problema não se limita apenas ao Rio de Janeiro não.

Problema nacional

De acordo com Jules, dois terços das hospitalizações que ocorrem no país estão associados a doenças disseminadas através da água. As crianças, pela falta de anticorpos, são as mais vulneráveis, tanto que o The Lancet, um prestigioso periódico de medicina, revelou que a diarreia e complicações relacionadas são a segunda causa de morte entre crianças menores de 5 anos de idade — mantando mais do que a malária, o sarampo e a AIDS combinadas.

O problema é bem grave

Ademais, os problemas de saúde ocasionados pela contaminação da água ainda leva à falta de frequência escolar, o que pode afetar o desenvolvimento intelectual das crianças. Jules também citou um estudo que apontou que adultos que cresceram sem acesso a sistemas de esgoto ganham salários cerca de 10% mais baixos do que adultos que cresceram em famílias de mesmo poder econômico, mas que tiveram ao saneamento básico.

Muita sujeira

Voltando ao Rio, Jules diz em seu artigo que as olimpíadas deveriam ter mudado esse quadro, pelo menos na capital fluminense. O compromisso envolvia instalar sistemas de esgotos nas favelas, melhorar a iluminação pública e o fornecimento de água e pavimentar as vias, e o próprio prefeito da Cidade Maravilhosa, Eduardo Paes, chegou a dizer em 2012 que, até 2020, tinha como meta urbanizar completamente todas as favelas cariocas.

Eduardo Paes durante uma conferência que deu à TED onde disse que as favelas cariocas poderiam ser urbanizadas até 2020

Depois de ser reeleito em 2012, Paes cancelou o programa — chamado Morar Carioca — e alegou que a iniciativa nem sequer fazia parte do legado olímpico. O fato é que, para variar, a situação na Baía de Guanabara não foi resolvida, o prefeito do Rio admitiu que a despoluição foi um fracasso e a população carioca, especialmente a mais carente, continuará sofrendo com o problema.

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Bem, Jules Boykoff pode ser professor de Ciências Políticas e coisa e tal, mas certamente desconhece como os políticos brasileiros entendem o conceito de “promessa”!

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