O que aconteceria se pulássemos em um buraco até o outro lado da Terra?
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O que aconteceria se pulássemos em um buraco até o outro lado da Terra?

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Imagine que você deseja chegar ao outro lado da Terra — que, dependendo do local onde você mora, seria em algum ponto da Ásia — e decide cavar um buracão até lá. O que você acha que aconteceria se você pulasse dentro dele?

De acordo com Nicholas Gerbis do site how stuff works, existem duas formas de abordar essa curiosa questão: uma considerando o que realmente aconteceria conosco se decidíssemos pular dentro de um buraco que chegasse do outro lado do planeta, e a outra desconsiderando toda a lógica e imaginando que esse tipo de viagem é possível.

O caminho

Antes de pular de cabeça, que tal conferir alguns detalhes sobre o que encontraríamos pelo caminho? Segundo Nicholas, a crosta continental conta com espessuras que variam entre 35 e 70 quilômetros — ou algo em torno de 5 e 10 quilômetros se considerarmos que o buraco foi feito em algum ponto no fundo do mar. Depois da crosta, teríamos que atravessar quase três mil quilômetros de manto até chegarmos à camada mais externa do núcleo da Terra.

Essa camada mais externa, por sua vez, é enorme e tem o tamanho equivalente ao do planeta Marte! Ela é — basicamente — formada por ferro fundido e conta com temperaturas de aproximadamente 5,5 mil graus Celsius. A próxima etapa seria atravessar a camada mais interna do núcleo que, de acordo com Nicholas, tem o tamanho da nossa Lua. Bem, até aqui chegamos apenas ao meio do caminho!

Pula! Pula!

Já deu para perceber que a viagem não seria nada fácil, não é mesmo? Contudo, digamos que a Terra é uma bolota de rocha fria, uniforme e inerte, e que não encontraríamos qualquer resistência com o ar durante a travessia — nem civilizações perdidas ou alienígenas pelo caminho. Como você sabe, a gravidade nos mantém “colados” à superfície com uma aceleração de 9,8 metros por segundo ao quadrado.

Isso significa que a cada segundo de queda estaríamos acelerando 9,8 m/s em direção ao centro do planeta. Acontece que a gravidade é uma função da massa, e a massa, por sua vez, é uma propriedade da matéria. Toda a massa da Terra se encontra sob a superfície e, conforme viajamos com destino ao outro lado, mais e mais dessa massa vai nos rodeando, exercendo sua própria gravidade sobre os nossos corpos.

Acelera e desacelera

Segundo Nicholas, essas forças ao nosso redor também atuam umas sobre as outras e se cancelam, e o aumento da proporção de massa sobre nós exerce uma contraposição proporcional à massa que está diminuindo mais abaixo, fazendo com que a nossa aceleração diminua conforme vamos chegando ao centro da Terra.

Chegando ao centro do planeta, devido à gravidade, nossa aceleração seria igual a zero, já que toda a massa do planeta se encontraria ao nosso redor e sobre nós, cancelando a gravidade e fazendo com que não tivéssemos peso. Contudo, não pense que ao chegar ao meio da Terra os nossos corpos desacelerariam e, em seguida, seguiríamos viagem até o outro lado!

Na verdade, da boca do buraco até o meio do caminho ao centro da Terra estaríamos caindo a uma velocidade crescente que chegaria aos 24 mil quilômetros por hora. Depois de 21 minutos de termos pulado, a nossa velocidade seria da ordem de 29 mil quilômetros por hora e, após passarmos voando pelo centro, viajaríamos por mais 21 minutos em direção ao outro lado.

Mas, com a gravidade desacelerando nossos corpos, se não houver ninguém do outro lado para nos segurar, simplesmente começaríamos cair pelo mesmo caminho de onde viemos até o centro da Terra novamente. E repetiríamos esse trajeto do ponto de partida original até o outro lado e de volta infinitamente, em um movimento oscilatório conhecido como Movimento Harmônico Simples.

Não pula! Não pula!

Após apresentar esse cenário hipotético, Nicholas nos convida a voltar à realidade e considerar algumas questões importantes. Primeiro que, para fazer um túnel que atravessasse o nosso planeta, seria necessário encontrar uma forma de vencer a incrível pressão exercida por 6,6 sextilhões de toneladas de rocha pesando em direção ao centro da Terra — equivalentes a 3 milhões de vezes a pressão no nível do mar.

Digamos que conseguimos fazer um túnel de aproximadamente 7,6 metros de diâmetro. Para isso, teríamos que remover quase 580 milhões de metros cúbicos de rocha, e decidir o que fazer com esse material todo. Além disso, conforme Nicholas já havia explicado no início do artigo, o interior da Terra é extremamente quente, e isso se deve a uma série de fatores, como fricção interna, compressão provocada pelas forças gravitacionais etc.

Ainda temos que considerar as variações de massa que existem na crosta terrestre, derivadas da presença de montanhas e fossas oceânicas, assim como as diferentes densidades das camadas internas da Terra, que vão se tornando mais densas conforme chegamos ao núcleo do planeta. Tudo isso afetaria a nossa aceleração ao longo da viagem, fazendo a nossa velocidade oscilar — e não ser como descrito no cenário hipotético.

Poft

E mais: caso o buraco seja cavado ao longo da linha do equador, devido à pseudoforça de Coriolis (veja GIF acima) e ao momento angular resultantes do movimento de rotação da Terra, quando estivermos caindo pelo buraco com destino ao centro do planeta, nos chocaríamos — a enormes velocidades — contra uma das paredes do túnel antes de chegarmos muito longe.

Momento angular

Cavar o buraco de um polo a outro também não ajudaria muito, pois neste caso, a gravidade lunar e solar — sim, eles também exercem gravidade sobre a Terra — faria com que eventualmente acertássemos uma das laterais do túnel também. A título de curiosidade, a perfuração mais profunda já realizada no planeta é a de Kola, na Rússia, que chegou a 12.262 metros.

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Assim, caro leitor, como você viu, caso você queira chegar ao outro lado da Terra, o melhor mesmo é continuar enfrentando muitas e muitas horas dentro de um avião! Mas, imaginar como seria se fosse possível viajar dessa forma não deixa de ser muito interessante, você não acha?

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