O Canadá tentou 'matar' o índio interior de crianças indígenas

O Canadá tentou 'matar' o índio interior de crianças indígenas

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“Mate o índio e salve o homem interior”

Foi o que o Brigadeiro-General Richard Henry Pratt disse em seu discurso em 1892. Depois das práticas que utilizou para reeducar os povos indígenas prisioneiros em Fort Marion, na Flórida, em 1870, o homem ficou historicamente conhecido como o nome por detrás da concepção da primeira Escola Industrial Indígena de Carlisle, na Pensilvânia, que servia para “americanizar” os povos nativos americanos e baseá-los em moldes da cultura europeia.

A concepção

(Fonte: CTV News/Reprodução) 

Richard também foi um dos responsáveis por influenciar um governo naturalmente racista e xenofóbico a cometer um crime nacional. Foi utilizado do princípio dos internatos elitistas inspirados na Europa, considerados uma grande ferramenta de aprimoramento intelectual e cultural, formando até chefes de governo, para promover a segregação de crianças cujas origens eram consideradas um problema para o futuro da sociedade moderna do país.

Visado remover as crianças indígenas da influência de sua própria cultura e assimilá-las na cultura dominante canadense ao adotar a prática do cristianismo como religião e o inglês e francês como idioma, o Departamento de Assuntos Indígenas do Canadá, em colaboração com as igrejas cristãs, criou em 1878 o Sistema Escolar Residencial Indígena Canadense, que em 1931 chegou a ter 130 instalações espalhadas pelo país.

Ao longo de mais de cem anos de existência dessas pseudoescolas, estima-se que cerca de 30% das crianças indígenas, o equivalente a 150 mil delas, foram removidas à força de seus lares. Sendo que 6 mil provavelmente morreram, pois jamais retornaram para casa. Em 1920, o governo parou de computá-las na tentativa de manter os números e estatísticas sob o seu controle.

O sistema escolar prejudicou permanentemente as crianças ao removê-las de suas famílias, submetê-las a privação do contato com a língua de seus ancestrais, ao abandono, solidão parental e também ao expô-las a abusos físicos e sexuais repetidos. Geralmente elas acabavam se tornando incapazes de se encaixar nesse molde social pré-estabelecido pelo governo de que teriam mais sucesso na vida se fossem como eles, fora que ainda estavam sujeitos a serem vítimas das atitudes extremamente racistas da sociedade convencional.

Levados

(Fonte: Toronto Star/Reprodução) 

Onde não era possível o acesso por terra, os guardas chegavam em grandes barcos, invadiam as casas das famílias e extraíam as crianças. Uma vez nos internatos, todos os itens e objetos eram tomados delas como uma primeira tática de apagar qualquer traço de identidade pessoal, depois todos ganhavam cortes de cabelos iguais e roupas novas.

Os professores não eram profissionais, tampouco capacitados para qualquer tipo de educação básica. As escolas eram subfinanciadas e não possuíam livros didáticos e de literatura na grade de ensino, por isso também contava com o trabalho forçado de seus alunos para manter a manutenção da instituição, embora nos relatórios contasse como treinamento para habilidades que se tornariam úteis quando fossem reintegrados ao meio social.

As crianças ainda enfrentavam uma infinidade de abusos físicos e sexuais cometidos pelas freiras, pelos padres, professores e guardas. Os castigos corporais costumavam ser justificados de que era a única maneira de salvar as suas almas, civilizar os selvagens ou punir e deter os fugitivos.

Eles sofriam com a superlotação, a falta de saneamento básico, o superaquecimento dos ambientes e a falta de qualquer assistência médica. As condições deploráveis levaram a altas taxas de doenças, inclusive a tuberculose, que era a causa de 69% das mortes. Por sua vez, os mortos, fossem doenças ou espancamentos, eram sepultados em covas sem marcações pela propriedade e em outros terrenos mais afastados.

(Fonte: BBC/Reprodução) 

O local era encardido. Havia roupas e lixo espalhados pelos corredores e quartos. Janelas e portas quebradas. As camas eram imundas e um verdadeiro viveiro de pulgas e pequenas pestes, sendo que algumas delas sequer possuíam colchões, que eram substituídos por sacos de lixo cheios de panos.

As refeições de todas as crianças consistiam em dois pedaços de pão duro e um pouco de mingau, por vezes feito com leite estragado. Alguns garotos comiam aveia e até mesmo ratos que saltavam do esgoto à céu aberto. Bebiam a água contaminada de poços sujos e do próprio banho. 25% das garotas e 69% dos garotos sofriam com anemia severa e possuíam corrimentos genitais e infecções devido aos estupros e machucados.

Os cientistas do governo canadense submeteram estudantes a avaliações nutricionais que visavam manter alguns deles subnutridos para servir como amostra de controle.

A jornada de visitação

(Fonte: The Canadian Encyclopedia/Reprodução) 

Os pais que se dispunham a percorrer as longas distâncias para conseguir encontrar os seus filhos nas escolas eram submetidos a uma revista tão rigorosa quanto a de um presídio, e nem sempre tinham o acesso liberado. Os que conseguiam tinham que encontrar os filhos na presença de funcionários da escola e obrigados a se comunicar apenas em inglês, vetando qualquer comunicação verbal entre aqueles que não sabiam o idioma.

“Eu lembro de chorar até perder o fôlego antes da única visita que eu tive, pois eu sabia que acabaria e que minha mãe teria que ir embora. E quando ela realmente se foi depois de cinco minutos comigo, lembro de ter chorado até o meu nariz sangrar”, a sobrevivente Madeleine Dianne declarou a CBC News, aos 62 anos de idade, sobre ter passado três anos consecutivos de sua infância numa das escolas.

Danos para uma vida toda

(Fonte: LaPresse.ca/Reprodução) 

Em milhares de casos, o sistema teve sucesso em interromper a transmissão de práticas e crenças indígenas através das gerações. As crianças que retornaram às suas famílias e que não morreram lá ou no caminho de volta, sofreram graves e irreparáveis danos psicológicos. Carregados de gatilhos de estresse pós-traumático, muitos não conseguiram mais se conectar com os familiares e se comunicar através de sua língua materna, quanto mais estabelecer relações com os costumes e religiões de sua origem. Os que resistiram e tiveram forças o suficiente, lutaram até chegarem ao governo para serem ouvidos e se tornaram um arauto àqueles que sucumbiram a todos os horrores.

Como parte do legado desse genocídio cultural, foi gerado um aumento significativo da prevalência de depressão, alcoolismo, abuso de substâncias e suicídio, que ainda persistem hoje em dia entre as comunidades aborígenes.

E apesar de todos os tratados, perdões governamentais e eclesiásticos feitos ao longo dos anos desde que a última escola foi fechada em 1996, em Punnichy, no Canadá, alguns dos sobreviventes acreditam que nunca serão totalmente curados da angústia, da dor e do persistente sentimento de que não pertencem mais a lugar algum.

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