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O sequestro de Chibok: o mundo ignorou o que acontecia na Nigéria

A Nigéria é um país dividido em porcentagem: aproximadamente 40% de sua população (cerca de 83 milhões de pessoas) vive abaixo da linha da pobreza e com uma renda de US$ 1 por semana, enquanto 25% (53 milhões) estão em situação de vulnerabilidade. 

A economia do país é toda apoiada no desempenho e nos preços do petróleo no mercado, que é responsável por 80% das exportações, equivalente à metade dos lucros do governo. Se o produto vai mal, os demais setores da Nigéria são afetados diretamente pela reavaliação de riscos feita por investidores estrangeiros para saber se é seguro ou não apostar em algo relacionado ao país.

O grupo islâmico terrorista Boko Haram (que significa “educação ocidental é um pecado”, em hauçá), fundado por Mohammed Yusuf em 2002, é um dos responsáveis por a nação nigeriana ser definida como um “Estado em decadência”. O país tem a pior corrupção de toda a África, com inépcia política, altos índices de sequestro e roubos, conflitos étnico-religiosos, militância, inflação alta e outros aspectos socioeconômicos.

Desejo extremo por reforma

(Fonte: The Bangkok Post/Reprodução)
(Fonte: The Bangkok Post/Reprodução)

O objetivo do Boko Haram sempre foi tornar a Nigéria uma república islâmica por meio da destruição do sistema de governo secular e de seus símbolos, além da implementação de um califado islâmico com a Sharia, lei islâmica com base no Alcorão e no Hádice, conhecida por suas punições extremas e intolerantes.

Apesar disso, o grupo jihadista salafista nascido no nordeste da Nigéria (que é majoritariamente muçulmano e tem baixo desempenho educacional em relação ao sul) nunca mostrou muito interesse em governar ou desenvolver o poder econômico da nação, deixando claro que as únicas intenções são o domínio e a propagação forçada da fé islâmica entre os povos nigerianos. Para isso, Yusuf criou uma espécie de complexo religioso no estado de Borno, no nordeste do país, com mesquita e escola, e que serve como um campo de recrutamento para insurreição.

(Fonte: Gistmania/Reprodução)
(Fonte: Gistmania/Reprodução)

Segundo estatísticas apresentadas pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU, a rebelião criminosa dos terroristas no país provocou o deslocamento massivo de 2,3 milhões de nigerianos, incluindo 1,4 milhão de crianças na região do Lago Chade, um dos locais mais atacados pelo grupo. Sem meios de comunicação e infraestrutura adequada, a área se tornou uma das bases militares da organização, onde ela controla e monitora com violência as atividades rurais, arrecadando taxas do resto dos habitantes para subsistência e execução de atos de guerrilha. Deixando um rastro de destruição por onde passaram, os terroristas cometeram assassinatos, estupros, tortura, maus-tratos e usaram crianças em hostilidades.

Nos últimos 10 anos, à medida que expandia suas áreas de operações e dominava o país, o Boko Haram ficou conhecido por sua especialidade em sequestros e obstinação em destruir de vez o sistema moderno de educação.

O horror de Chibok

(Fonte: The Independent/Reprodução)
(Fonte: The Independent/Reprodução)

A maioria dos muçulmanos do norte da Nigéria tem o sistema educacional como incompatível com sua ideologia, e o motivo dos resultados insuficientes seria pela imposição dessa estrutura ocidentalizada durante o período de colonização – o que não teria acontecido com a região sul do país. Além disso, eles enxergam a educação ocidental como um símbolo da corrupção do Estado, visto que os líderes políticos são educados no ocidente e são a grande causa do país estar decadente.

Com um pensamento extremado sobre esse problema institucional, o Boko Haram começou em 2010 um bombardeio de ataques contra as escolas, matando milhares de crianças e jovens e sequestrando meninas para usá-las como escravas sexuais e cozinheiras. Os terroristas deixaram claro que continuariam enquanto o governo da Nigéria não se responsabilizasse pela “opressão” da educação islâmica.

(Fonte: Religion News Service/Reprodução)
(Fonte: Religion News Service/Reprodução)

Durante 5 anos em que a insurgência terrorista devastou o nordeste da Nigéria, com governos federais dos estados de Borno, Adamawa e Yobe decretando calamidade nacional, mais de 10 mil crianças foram proibidas de irem à escola. Em 14 de abril de 2014, a Escola Pública Secundária para Meninas, em Chibok, reabriu para que as alunas fizessem as provas finais, mesmo correndo todos os riscos.

Às 23h, caminhões militares repletos de terroristas invadiram a região (que é majoritariamente composta por cristãos) e incendiaram casas e edifícios, cometeram assaltos e atiraram contra os habitantes. Após funcionários e professores fugirem ou morrerem, os radicais invadiram a escola e sequestraram 276 meninas com idades entre 16 e 18 anos. Algumas foram forçadas a subirem nos caminhões, enquanto outras tiveram que caminhar vários quilômetros em direção à Floresta Sambisa, um dos territórios sem lei onde há acampamentos do Boko Haram.

Devolva nossas garotas

(Fonte: Newspress/Reprodução)
(Fonte: Newspress/Reprodução)

Várias garotas chegaram a pular dos caminhões e fugir até encontrar ajuda, mesmo correndo o risco de serem atingidas por disparos. Nem todas tiveram a mesma sorte que Mary K, que conspirou com amigas para correrem durante as paradas dos veículos para que elas pudessem urinar. A garota levou mais de 1 dia para chegar em casa, quando encontrou a aldeia em que morava em chamas. Apenas 53 vítimas conseguiram se livrar das garras dos terroristas em 2 dias.

Acredita-se que as jovens foram estupradas, radicalizadas, sofreram lavagem cerebral, serviram como bombas humanas e foram forçadas a se casarem com membros da organização, sendo vendidas por dotes de cerca de US$ 6 cada. Há relatos de pessoas que viram as estudantes cruzando a fronteira para alguns países da África, como Chade e Camarões. Muitos aldeões que ainda viviam nos arredores da Floresta Sambisa testemunharam vizinhos resgatando algumas garotas só para devolvê-las para o Boko Haram por medo de retaliação.

O ataque e sequestro de Chibok ganhou repercussão internacional, dando origem à campanha #BringBackOurGirls, apoiada por celebridades como Angelina Jolie e figuras políticas como Michelle Obama, então primeira-dama dos Estados Unidos. De repente a mídia simplesmente parou de falar das meninas, como se tivesse perdido o interesse pelas várias famílias que sofriam e pelo futuro indeterminado das vítimas.

(Fonte: The New York Times/Reprodução)
(Fonte: The New York Times/Reprodução)

Em outubro de 2016, os terroristas fizeram um acordo com o governo nigeriano e liberaram 21 meninas em troca de dinheiro e de soldados capturados. Em maio do ano seguinte, mais 82 foram devolvidas. Até 2019, apenas 107 garotas voltaram, e ninguém sabe dizer sobre o paradeiro das outras 169 sequestradas.

“Acho que é uma suposição natural que, quando essas garotas foram levadas, elas tenham perdido todo o arbítrio”, disse a sobrevivente Isha Sessay, autora do livro Beneath the Tamarind Tree, quando indagada pela Pacific Standard sobre como as vítimas lidaram com o trauma. “Mas o que levo comigo são os atos de desafio que elas cometeram em seu tempo no cativeiro, como se recusar a casar ou se converter ao islamismo, praticando a própria fé mesmo correndo o risco de serem mortas. A narrativa sobre garotas negras nem sempre é sobre nós como sobreviventes. É tudo conduzido pela vítima. Elas são fortes. Elas são resilientes”.

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