O motivo estranho pelo qual Marie McCreadie parou de falar

Nascida em uma pequena cidade perto de Sydney (Austrália), Marie McCreadie tinha apenas 13 anos quando acordou muito doente em uma manhã. Seus pais a levaram até um hospital, mas os médicos diagnosticaram apenas um forte resfriado.

Contudo, a garota só foi ficando cada vez pior. De volta ao médico, ela foi diagnosticada com bronquite e tratada disso. Ela ficou bem de novo, porém, 6 semanas depois, ela simplesmente acordou em uma manhã sem voz.

Como ressalta uma matéria do programa Outlook, da BBC, McCreadie dava risada, sussurrava e até tossia, mas absolutamente nenhum som era ouvido, nem o mínimo chiado. O diagnóstico inicial foi de laringite por mutismo histérico, ou seja, quando a pessoa não fala por razões psicológicas.

A garota sem voz

(Fonte: BBC/Reprodução)(Fonte: BBC/Reprodução)

Em uma segunda avaliação, após uma bateria de testes e exames, os médicos atribuíram a perda da voz a um vírus — embora não fizessem ideia de qual. De "mãos atadas", eles simplesmente disseram para McCreadie voltar para a escola e continuar sua vida normalmente. Mas como?

“Eu estava apavorada porque não sabia o que estava acontecendo nem minha mãe e meu pai”, relatou ela em entrevista à revista australiana Mamamia.

Mesmo assim, ela foi forçada a se acostumar com sua nova realidade. Para conseguir se comunicar, ela e suas amigas desenvolveram um método de conversação por meio de bilhetes. Os amigos até acharam engraçado e divertido, a princípio, o que tornou toda a situação um pouco mais leve para o emocional já abalado da menina.

No entanto, com o passar do tempo, conforme McCreadie foi crescendo, a situação passou de engraçada para “o que há de errado com ela”, já que a sua voz não voltou. Porém, aquilo era só o começo de 12 anos complemente muda e sem saber o motivo ou quanto tempo aquela situação duraria.

A vida conturbada

(Fonte: Metro UK/Reprodução)(Fonte: Metro UK/Reprodução)

Na escola católica, dirigida por freiras, foi onde McCredie menos encontrou apoio ao seu redor. Ela ouvia constantemente de uma freira que "estava sendo punida por Deus", enquanto o padre da paróquia local alegava que ela precisava rezar e confessar seus pecados.

“Eu fui acusada de bruxaria. A princípio, nós rimos da situação, mas até que as freiras começaram a me separar das demais alunas”, contou ela à Mamamia.

Isso tudo só mexeu ainda mais com a cabeça confusa da jovem, que se viu em um "beco sem saída" ao não poder usar mais o telefone, marcar uma consulta com o dentista ou ir ao cabeleiro sem usar gestos e mímica.

(Fonte: Metro UK/Reprodução)(Fonte: Metro UK/Reprodução)

Então, os ataques começaram dos mais próximos, parentes e vizinhos, que diziam a ela que não falava porque não queria. Toda essa pressão em uma jovem com apenas 14 anos levou ao inevitável: a primeira tentativa de suicídio por ingestão de comprimidos.

"Não me lembro de alguma vez ter pensado que queria morrer, nada disso. Só queria revidar. Queria que tudo parasse. Foi por pura frustração", explicou McCreadie.

Após sua recuperação, ela foi internada em uma clínica psiquiátrica, onde foi submetida a um tratamento de choque. De certa forma, as pessoas imaginavam que agora ela falaria de vez.

A descoberta

(Fonte: Terra/Reprodução)(Fonte: Terra/Reprodução)

Porém, nada mudou, na verdade apenas piorou. McCreadie foi expulsa da escola, visto que suicídio é considerado um pecado, e a vida em sociedade foi ainda mais difícil. Por muito tempo, ela teve que ouvir para não se preocupar em procurar um trabalho porque não conseguiria nada e que seria melhor se casar para constituir uma família. Era a "melhor e única opção" para ela, ainda que as pessoas falassem em um tom de ironia e sarcasmo, afinal, quem se casaria com uma muda?

McCredie, porém, encontrou uma vaga de emprego em um curso de secretariado em uma faculdade de Administração, onde se formou e começou a trabalhar em serviço público. Certo dia de 1984, quando tinha 25 anos, ela começou a tossir desesperadamente no meio do expediente.

"Lembro-me de ter tido um daqueles acessos de tosse que você não consegue superar. Fui ao banheiro e comecei a tossir sangue. Entrei em pânico", disse ela à revista.

A mulher foi levada às pressas para o hospital, onde o médico retirou um caroço coberto de sangue e muco de sua garganta. Quando foi lavado, descobriram que era uma moeda de 3 centavos de dólar australiano.

(Fonte: Correio Brasiliense/Reprodução)(Fonte: Correio Brasiliense/Reprodução)

Durante 12 anos, a moeda ficou alojada entre as cordas vocais de McCreadie, impedindo-as de vibrar. Ela nunca soube como aquilo pode ter acontecido. Imediatamente após a retirada do objeto, ela começou a gemer, enfim emitindo o primeiro barulho em anos.

"Eu chorei. Não sabia o que sentir. Foi uma mistura de emoções. Em um minuto eu estava feliz e eufórica, e no minuto seguinte eu estava no chão em lágrimas odiando todo mundo", disse ela.

Para McCreadie, aquele período ficou tão no passado que parece outra vida. Em seu livro Voiceless, ela disse que não odeia ninguém em específico, apenas a situação, que lhe custou muito e roubou boa parte de sua juventude.

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