Chan Hol 3: o esqueleto desfigurado de 10 mil anos

O Chan Hol é um cenote (cavidade natural) que integra as cavernas To ha, um sistema de cavernas submersas que fica em Quintana Roo, na Península de Iucatã (México). Com aproximadamente 5 mil metros de comprimento, Chan Hol fica a 15 km da comunidade de Tulum e a cerca de 11,5 km do litoral.

O local é conhecido por ser um dos berços de pesquisa dos paleoantropólogos devido à quantidade de esqueletos que os cientistas encontraram ao longo dos anos. À princípio, eles achavam que apenas um grupo de humanos havia cruzado a Ponte Terrestre de Bering, que conectava a Ásia à América do Norte há mais de 12 mil anos. Entretanto, foram escavados das cavernas em Iucatã nove ossadas do período paleolítico, incluindo a de uma adolescente que pertencia aos povos nativos americanos modernos.

Nas profundezas do tempo

(Fonte: Underwater Project/Reprodução)
(Fonte: Underwater Project/Reprodução)

Entre 2006 e 2009, os cientistas encontraram nas cavernas submersas o Chan Hol I e II, dois fósseis de milhares de anos que foram apelidados de El Joven e La Niña, respectivamente. Apesar de terem significado um grande avanço para a pesquisa paleoantrolopógica, os esqueletos não conseguiram alcançar o mesmo patamar de mistério e relevância de Chan Hol III, mais conhecido como Chan Hol 3.

Descoberto em 2016 pelos mergulhadores Iván Hernández e Vicente Fito, o fóssil estava em um túnel de caverna a 8 metros de profundidade, a cerca de 140 metros de distância de Chan Hol II. 

Chan Hol 3, que foi apelidada de Ixchel em homenagem à deusa maia da fertilidade, era uma mulher que viveu na era paleolítica, há cerca de 10 mil anos, em uma época em que o nível do mar era mais baixo e os sistemas de cavernas eram altos e secos antes de serem inundados.

O crânio que grita

(Fonte: Discover Magazine/Reprodução)
(Fonte: Discover Magazine/Reprodução)

Os pesquisadores acreditam que o fóssil tinha por volta de 30 anos quando morreu, e que estava em profunda dor, visto que parte do osso do crânio está deformado em uma expressão de horror. Chan Hol 3 perdeu os dentes antes de morrer, provavelmente devido à uma pancada que teria deslocado ou quebrado sua mandíbula, fazendo-a perder vários dentes. 

Ela também tinha muitas cáries, o que é normal entre os esqueletos encontrados em Quintana Roo, visto que em vida eles faziam uma dieta rica em açúcar, frutas e tubérculos silvestres ricos em amido. Além disso, o abuso de mel pode estar entre uma das causas.

(Fonte: The Independent/Reprodução)
(Fonte: The Independent/Reprodução)

Como só 30% do esqueleto foi encontrado, foi feito o possível para tentar determinar como Chan Hol 3 viveu. Acredita-se que ela tinha 1,64 de altura e teve que lidar com duas hérnias de discos e uma degeneração óssea característica da artrite. As marcas que o crânio apresenta podem estar associadas à uma doença treponêmica, sendo a sífilis uma das doenças mais famosas da classe dos treponemas responsáveis por deixar marcas pelo corpo.

Não existem evidências que confirmem que Chan Hol 3 sofria de sífilis, mas, se confirmado, ela seria o fóssil mais antigo das Américas a apresentar uma doença treponêmica, além de ser uma das primeiras habitantes do México. O crânio também apresenta dois ataques não letais que resultaram em traumas em regiões diferentes da cabeça.

(Fonte: Discover Magazine/Reprodução)
(Fonte: Discover Magazine/Reprodução)

Ainda não se sabe como Chan Hol 3 morreu, nem o motivo de a dor tê-la desfigurado. Existe a possibilidade de que ela tenha sido depositada em uma laje de calcário no fundo das cavernas antes de o local ser inundado, um destino muito diferente de a maioria dos fósseis daquela região.

Os pesquisadores afirmam que o resto dos ossos de Chan Hol 3 pode ser a única maneira de explicar como ela morreu. Enquanto eles não forem encontrados, o silêncio é tudo o que resta.

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