Seja o primeiro a compartilhar

Spotify: como o maior streaming de música pode entrar em falência

Quando os suecos Daniel Ek e Martin Lorentzon se reuniram em Estocolmo para criar uma startup que faria streaming de música, eles só tinham a intenção de frear o problema que era a pirataria musical que começou a assombrar a indústria musical no final da década de 1990 e atingiu seu ápice ao longo da primeira década dos anos 2000.

O lançamento do formato MP3 em 1994, que permitiu a compressão de áudio sem perder a qualidade, deu uma guinada no negócio da música gravada, inserindo-a na era do mundo digital. Dessa forma, gravadoras e artistas viram uma enorme oportunidade de descobrir, promover e distribuir música de uma forma que não era possível antes, bem como entregar seu trabalho para qualquer canto do mundo em poucos minutos. Além disso, os apreciadores de música podiam ouvir suas faixas preferidas quando e onde quisessem.

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

A distribuição de música digital, no entanto, também abriu as portas para aproveitadores que fizeram da pirataria musical seu modo de vida. Vários serviços de compartilhamento de arquivos, do Napster ao LimeWire, se tornaram os maiores pesadelos da indústria da música gravada. Esses serviços permitiram que milhões de usuários de todo o mundo baixassem ilegalmente cópias de músicas, álbuns inteiros e até títulos raros que não estavam disponíveis ao público. Isso significou bilhões de dólares escoando todos os anos, tanto dos bolsos das gravadoras, quanto da propriedade intelectual dos artistas.

Os suecos, portanto, enxergaram no streaming de música uma maneira de assegurar a integridade de quem produz música e também viabilizar o acesso de quem deseja consumi-la de forma ilimitada sem precisar comprar dezenas de faixas individuais. Assim surgiu o Spotify, uma simples ideia que hoje está presente em 180 países e possui mais de 551 milhões de usuários mundiais, de acordo com dados do Statista.

Apesar de sua fama e de toda a revolução que causou na indústria, a verdade é que o Spotify pode falir, e aqui está o motivo.

No topo da indústria

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

É curioso ouvir que o Spotify está ferrado sabendo dessa quantidade de usuários e bem quando acabou de lançar os dados de sua campanha Wrapped 2023, em que revela os artistas, músicas, álbuns e podcasts mais transmitidos do ano. No topo de sua lista, apareceu, nada ironicamente, a cantora Taylor Swift como a artista mais escutada globalmente. Doze vezes vencedora do Grammy Awards e dona da turnê feminina mais rentável da história da indústria musical – a The Eras Tour, que apresentou 6 shows no Brasil no final de novembro e terminará em dezembro de 2024, após 150 datas esgotadas e mais de US$ 1,5 bilhão em receita –, Swift foi a responsável por 26,1 bilhões de streams na plataforma de música desde 1º de janeiro.

Em 2014, a cantora/compositora tomou a iniciativa de retirar do serviço seu catálogo de música, avaliado pelas Forbes em US$ 500 milhões (o mais caro da indústria), como forma de boicote pelo pouco que os artistas recebiam em royalties da empresa por cada faixa reproduzida.

Três anos depois, após um acordo que revolucionou a indústria de música em streaming, Swift disponibilizou suas músicas novamente na plataforma, e esse ano deve receber US$ 100 milhões do serviço por todos seus streams.

Taylor Swift, The Eras Tour 2023. (Fonte: GettyImages/Reprodução)Taylor Swift, The Eras Tour 2023. (Fonte: GettyImages/Reprodução)

Vale lembrar que o catálogo do serviço conta, atualmente, com mais de 11 milhões de artistas e criadores, e faturou em 2023 cerca de US$ 3,64 bilhões. Olhando por esse lado, como o serviço de música mais famoso da atualidade pode estar indo mal das pernas?

Logo depois que fez um grande espetáculo para anunciar Taylor Swift como a dominadora dos seus números e sua famosa campanha Wrapped 2023, a empresa comunicou que faria um corte de 17% de sua força de trabalho, o equivalente a cerca de 1.500 pessoas, a terceira vez nesse ano.

O anúncio de Ek

Daniel Ek. (Fonte: GettyImages/Reprodução)Daniel Ek. (Fonte: GettyImages/Reprodução)

Conforme a fala do CEO Daniel Ek, após divulgar um memorando a sua equipe sobre o primeiro trimestre lucrativo de 2023, a empresa expandiu significativamente sua força de trabalho e ofertas entre 2020 e 2021, graças ao capital de custo mais baixo. No entanto, agora se depara com os mesmos problemas que as startups de todos os setores enfrentam, como custos elevados de capital e crescimento econômico lento.

Quando disse isso, Ek estava se referindo à temida desaceleração que assombra o mundo corporativo sobre uma recessão prevista para 2024, embora o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos tenha desafiado as previsões temerárias de Wall Street este ano, expandindo a um ritmo mais rápido do que o esperado. Sobre o aumento dos custos de capital, seus comentários destacam uma questão diferente e deve servir como um lembrete de uma "bomba-relógio" do mercado de dívida que pode causar estragos no setor corporativo nos próximos anos.

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

Apesar dos seus números e influência imensa (no final de 2022, o serviço detinha 30% do mercado de música), o Spotify não só luta para obter lucros consistentes como tenta pagar a dívida que assumiu em fevereiro de 2021.

"Em 2020 e 2021, aproveitamos a oportunidade apresentada pelo capital de menor custo e investimos significativamente em expansão de equipe, aprimoramento de conteúdo, marketing e novas verticais", disse o CEO a sua equipe.

A empresa levantou US$ 1,3 bilhão em capital oferecendo notas permutáveis que vencem em 2026. Esse tipo de investimento funcionou e contribuiu para o aumento da produção da gigante de streaming e o crescimento robusto da plataforma no ano passado.

"No entanto, agora nos encontramos em um ambiente muito diferente", acrescentou Ek. "E, apesar de nossos esforços para reduzir custos no ano passado, nossa estrutura de custos para onde precisamos estar ainda é muito grande."

O que acontece

(Fonte: GettyImages/Reprodução)(Fonte: GettyImages/Reprodução)

O que aconteceu foi que o Spotify estava aproveitando os custos de empréstimos historicamente baixos, com a Federal Reserve tendo cortado as taxas de juros de referência para perto do zero em uma tentativa de sustentar a economia vacilante dos EUA durante a pandemia de covid-19.

No entanto, assim que a economia americana saiu dessa zona cinzenta, o Fed aumentou os juros para cerca de 5,5% em uma tentativa de acabar com a inflação alta. Agora, o Spotify precisa cortar os custos para conseguir levantar US$ 1,3 bilhão em dinheiro para pagar seus credores. Se não conseguir fazer isso, será muito mais caro para a empresa refinanciar, e isso pode significar o início do seu fim.

Conforme dados da S&P Global, cerca de 561 empresas estadunidenses entraram com pedido de falência em 2023. Ainda não há nenhum indício de que o esse tipo de medida alcance o Spotify, afinal, suas ações dispararam cerca de 7% desde as demissões massivas de Ek, indicando que Wall Street aprovou seu movimento, mas ainda há uma sombra de incerteza.

Você sabia que o Mega Curioso está no Instagram, Facebook e no Twitter? Siga-nos por lá.