Os 76 dias à deriva de Steven Callahan

Nascido em 6 de fevereiro de 1952, Steven Callahan se formou em Filosofia, mas preferiu se graduar em Arquitetura Naval em seguida, pois a sua obsessão pelo mar falava mais alto. Tanto que ele não só projetou e construiu barcos, como também viveu boa parte de seu tempo navegando.

Em meados de 1980, Callahan começou a escrever para vários veículos de imprensa sobre o mundo em alto-mar, inclusive chegou a se tornar editor de revistas sobre navegação, como a Sail e Sailor e a Crusing World. No entanto, enquanto sua vida profissional prosperava, sua vida pessoal estava naufragando.

Quando Callahan optou pela ambiciosa decisão de viajar pelo mundo no barco que ele mesmo projetou e batizou de "Napoleon Solo", seu intuito era fugir da sensação de tristeza que o seu divórcio havia lhe deixado.

Marinheiro solo

(Fonte: Twitter/Reprodução)(Fonte: Twitter/Reprodução)

Em janeiro de 1981, a bordo de seu barco à vela de quase 7 metros de comprimento, ele partiu do porto de Newport, em Rhode Island (EUA), com destino às Bermudas, encontrou-se com seu amigo Chris Latchem e seguiram em direção à Inglaterra, cruzando o Atlântico.

Cerca de 10 meses depois, o marinheiro de 29 anos partiu sozinho da Cornualha, no sudoeste da Inglaterra, pronto para atravessar de volta o oceano e seguir para a Antígua, uma ilha no mar do Caribe, como parte da corrida de vela individual Mini Transat 6.50 de Penzance. Contudo, Callahan acabou desistindo quando alcançou La Coruña, na Espanha, devido ao mau tempo que já havia afundado vários barcos da corrida e danificado outros, incluindo o seu.

(Fonte: 48 North/Reprodução)(Fonte: 48 North/Reprodução)

Após fazer reparos na embarcação, o homem seguiu para Ilha Madeira, e em 29 de janeiro de 1982, Callahan saiu de El Hierro, na ilhas Canárias, com destino a Antígua. Depois de 7 dias em alto-mar, seu barco foi atingido por uma tempestade durante à noite que causou um rasgo na lateral do casco.

À deriva

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Antes de o seu "Napoleon Solo" afundar, Callahan reuniu vários itens para que fosse capaz de sobreviver no único bote salva-vidas de 6 lugares que havia no barco, tais como um saco de dormir, um kit de primeiro socorros, mapas de navegação, um arpão, sinalizadores, lanternas, almofadas, purificadores de água, protetor solar, destiladores solares, alguns enlatados e um exemplar do manual Sea Survival, do autor Douglas Robertson.

Antes do amanhecer, o "Napoleon" já havia sido tragado pelas águas cristalinas do mar, deixando seu dono abandonado à própria sorte. Com base em anos de experiência de situações de naufrágio, apesar de nunca ter passado por um, Callahan sabia que a primeira coisa a ser feita era desenvolver algum tipo de mecanismo para obter água e comida, visto que ambos eram muito escassos.

Com o uso dos destiladores solares — um sistema de purificação de água que usa luz do Sol —, ele conseguiu colher aproximadamente meio litro de água, a quantidade que ele tomaria ao longo de cada dia. Callahan teve sucesso pegando vários peixes-porco para complementar sua refeição, porém os pássaros logo se tornaram um alvo ainda mais fácil que os peixes. Tudo o que caçou, ele teve que comer totalmente cru.

(Fonte: Shoulders of Giants/Reprodução)(Fonte: Shoulders of Giants/Reprodução)

O bote de Callahan seguiu rumo ao oeste por meio da Corrente Equatorial Sul e os ventos alísios, enquanto ele tentava alguma comunicação usando um EPIRB (Radio Beacon Indicador de Posição de Emergência). Contudo, o sinal emitido pelo EPIRB ainda não era monitorado por satélites e ele estava em uma parte do oceano muito vazia para que o sinal fosse capturado por aeronaves.

O homem também não teve sorte com nenhum dos muitos sinalizadores que pegou. Enquanto à deriva, Callahan cruzou com 9 navios, porém não conseguiu atrair a atenção deles. Devido ao seu conhecimento na área, ele estava certo de que não seria resgatado facilmente, portanto começou a estabelecer uma rotina diária para impedir que sua mente começasse a se perder nas corriqueiras alucinações e pensamentos mórbidos. Do jeito que pôde, Callahan praticou exercícios, tentou enxergar sua situação como uma navegação habitual, consertou e construiu estoques de comida e água para emergências, pescou e documentou suas tarefas.

"Eu naveguei"

(Fonte: Boredom Therapy/Reprodução)(Fonte: Boredom Therapy/Reprodução)

Depois de quase dois meses à deriva, Callahan acabou danificando seu bote enquanto tentava pescar o seu almoço. Durante 10 dias, ele passou dia e noite lutando para manter sua frágil jangada ainda flutuando enquanto testava meios de consertá-la.

No 74º dia abandonado no oceano, com apenas 3 latas de água potável, inevitavelmente, as esperanças de Steven Callahan já haviam se esgotado. “Foi uma das fases mais difíceis, tendo minha vida passando diante dos meus olhos como em um filme”, declarou ele em entrevista a National Public Radio. “Eu lamentei meus erros e tudo em que falhei, como com o meu barco e meu casamento. Mas, apesar de me sentir patético, eu estava feliz comigo mesmo. Tentei enxergar toda aquela viagem como a continuação de algo a que eu estava destinado em minha vida, e não como o fim dela. No final das contas, eu naveguei”.

(Fonte: True Activist/Reprodução)(Fonte: True Activist/Reprodução)

Foi então que, na noite do 75º dia no mar, Callahan avistou luzes na Ilha de Marie-Galante, localizada a sudeste de Guadalupe. Isso o deu esperanças e o fez remar durante toda a madrugada até que fosse resgatado por um grupo de pescadores na areia da praia.

Em grave estado de desnutrição e com ferimentos causados pela água salgada do oceano Atlântico e do sol, Steven Callahan foi hospitalizado sem conseguir nem ficar em pé. Ele levou várias semanas para se recuperar totalmente e embarcar em uma nova jornada: a de contar a sua história de sobrevivência.

Entre palestras, livros e documentários, o sobrevivente foi convidado pelo diretor Ang Lee em 2011 para acompanhar o processo de criação da adaptação cinematográfica do filme As Aventuras de Pi, servindo como uma espécie de mentor para a autenticidade de uma vida de náufrago em alto-mar. 

Até hoje, para todas as pessoas que ele encontra, ele sempre diz a mesma coisa sobre ter passado 75 dias à deriva bem quando fez 30 anos: "Eu naveguei".

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