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Seneca Village: a história oculta da construção do Central Park

O Central Park, localizado no coração de Nova York, Estados Unidos, se transformou em uma espécie de reflexo do estilo de vida dos norte-americanos – pelo menos daqueles que possuem acesso a ele. Cobrindo 843 acres entre o Upper West e o Upper East Side de Manhattan, o parque urbano é o quinto maior e mais visitado da cidade, com aproximadamente 38 milhões de visitantes anualmente, além de ser o local mais filmado e fotografado do mundo.

Desde 1998, o Central Park é administrado pelo Central Park Conservacy, sob um contrato com o governo municipal de uma parceria público-privada, que investe 75% do orçamento anual de US$ 65 milhões para cuidados básicos do parque. Apesar de ser um dos pontos turísticos mais famosos do mundo todo, poucos sabem que, depois que os arquitetos e paisagistas Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux, ganhadores de um prêmio de design em 1857 para contribuir no projeto do parque, mais de 1.600 negros e imigrantes foram despejados de suas casas para que o local nascesse.

Um lugar para chamar de lar

(Fonte: Family Search/Reprodução)(Fonte: Family Search/Reprodução)

Antes localizada em uma pequena porção onde agora está o Central Park, a Vila de Seneca começou a nascer em meados de 1824, quando os proprietários da região, os fazendeiros brancos John e Elizabeth Whitehead, subdividiram a terra e a vendeu em 200 lotes. Em 27 de setembro de 1825, Andrew Williams, um engraxate afro-americano de 25 anos, adquiriu os 3 primeiros lotes por cerca de US$ 125. O balconista Epiphany Davis comprou 12 lotes por US$ 578, e no mesmo dia a Igreja Metodista Episcopal Zion Africa (AME Zion Church) entrou na fila para garantir 6 lotes.

Aos poucos, a Vila de Seneca foi ganhando forma, porém só se desenvolveu depois que a escravidão no estado foi proibida em 1827. Dois anos depois, muitos habitantes de York Hill, um terreno delimitado pela Sexta e Sétima Avenida, foram forçados a deixarem suas casas por ordem do governo, que tinha planos para construir uma bacia para o Reservatório de Distribuição de Croton.

(Fonte: WNYC/Reprodução)(Fonte: WNYC/Reprodução)

A Grande Fome da Irlanda atraiu milhares de imigrantes para a vila, gerando um aumento de 30% na população do local. Naquela época, tantos os negros quanto os irlandeses já eram extremamente hostilizados e marginalizados por morarem em uma espécie de “favela” em um lugar onde o acre era tão valorizado.

Apesar disso, a vila proporcionou a oportunidade dessas pessoas viverem em uma comunidade autônoma, longe da superpopulação do centro da cidade, do acesso ao ódio dos racistas, da situação insalubre dos centros comerciais e da quantidade de lixo que gerava cada vez mais doenças. Infelizmente, a maioria dos homens afro-americanos tiveram que se submeter ao emprego de “homens do solo” – coletores das fezes e do esgoto da cidade – para poder complementar a renda.  

Prosperando no caos

(Fonte: Georgiainfo/Reprodução)(Fonte: Georgiainfo/Reprodução)

Uma lei de 1821 do estado de Nova York exigia que os homens afro-americanos possuíssem pelo menos US$ 250 em propriedades e mantivessem residência por no mínimo 3 anos para que pudessem votar nas eleições. De aproximadamente 14 mil afro-americanos que viviam na cidade naquele tempo, apenas 100 deles foram elegíveis para votar nas eleições de 1845, dos quais 50 viviam na Vila de Seneca.

Esse índice foi de encontro com o estigma de que os habitantes de Seneca moravam em uma terra invadida, repleta de barracos e em um epicentro de doenças – o que era apenas o traço mais marcante do racismo estrutural presente até hoje na sociedade. Enquanto, na verdade, o local era bem construído, com espaços recreativos feitos pelos próprios moradores, que viviam em casas de até dois andares. Um censo feito na época também mostra que a maioria dos residentes estava empregada, e que as crianças frequentavam a escola.

O desejo dos brancos

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

No início de 1840, a elite da cidade de Nova York começou a fazer pressão pública para que um novo grande parque fosse construído em Manhattan, isso porque eles queriam algum espaço verde para que suas famílias pudessem desfrutar de momentos de lazer longe da decrepitude que era o centro comercial, infestado por sujeira, lama e excremento.

Sendo assim, o Comitê Especial de Parques foi formado para a pesquisa e análise de locais em potencial para o grande projeto. Um dos primeiros terrenos considerados foi o Jones’ Wood, uma área de 160 acres de terra entre as ruas 66th e 75th do Upper East Side. Contudo, as famílias ricas que ocupavam o espaço se recusaram a vender suas casas por qualquer preço oferecido. Então, em vez de as autoridades aplicarem a Lei de Procedimento de Domínio Eminente, que permite ao governo tirar terras privadas para uso público a partir de uma indenização ao proprietário, eles apenas seguiram para o próximo local da lista: a Vila Seneca.

Em 1857, após aprovado o projeto para levantar o Central Park, a prefeitura de Nova York usou a lei para despejar os 1.600 habitantes de Seneca. No entanto, nenhum deles recebeu indenização proporcional ou suficiente para que pudesse reestabelecer o padrão de vida básico que possuíam. Os proprietários fizeram protestos em frente à Suprema Corte do Estado de Nova York acerca do valor pago por suas terras, porém eles não foram ouvidos.

(Fonte: Smithsonian Magazine/Reprodução)(Fonte: Smithsonian Magazine/Reprodução)

Com a destruição da Vila de Seneca, os moradores se espalharam, e ainda não há dados o suficiente para determinar para onde eles foram, porém acredita-se que eles rumaram para outras comunidades afro-americanas da região, como Sandy Ground (em Staten Island) e Skunk Hollow (em Nova Jersey), provavelmente vivendo de maneira ilegal devido à incapacidade de conseguirem comprar um lote de terra.

Até 1992, quando foi lançado o livro O Parque e o Povo: Uma História do Central Park, escrito por Roy Rosenzweig e Elizabeth Blackmar, a história da Vila de Seneca se perdeu por mais de 1 século após a sua demolição, em meio ao avanço implacável da elite norte-americana e o apagamento sistemático das raízes da cultura afro-americana.

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