Como surgiram os jogos paralímpicos?

Se você estava com saudade de virar a noite acompanhando todos os esportes possíveis nas Olimpíadas de Tóquio, provavelmente vai gostar de saber que as competições voltaram a acontecer na Terra do Sol Nascente. Nesta terça, 24 de agosto, estão começando os Jogos Paralímpicos 2020, que tem esportes adaptados, além de modalidades exclusivas para atletas com deficiência. 

De alguns anos para cá, os jogos paralímpicos estão conquistando o prestígio que merecem, acontecendo na mesma cidade e nas mesmas instalações do que as olimpíadas. Isso faz todo sentido, já que as paralimpíadas também são disputadas por atletas de alto nível, que dedicam suas vidas ao esporte — a diferença é que algumas regras precisam ser adaptadas por conta das deficiências de cada um. 

A questão é que nem sempre as pessoas com deficiência tiveram esse espaço. Isso tem tudo a ver com a origem dos jogos paralímpicos, em 1948.

Dos jogos de Stoke Mandeville às paralimpíadas

A ideia de uma competição esportiva para pessoas com deficiência surgiu com o neurologista Ludwig Guttmann. Ele era alemão e trabalhava em um hospital judeu, mas teve que fugir para a Inglaterra com o início da Segunda Guerra Mundial. No país, ele começou a trabalhar no Stoke Mandeville Hospital, cuidando de veteranos de guerra que ficaram paraplégicos.

O esporte surgiu como uma ferramenta de reabilitação física dos veteranos, bem como uma forma de aumentar a autoestima deles. Por isso, quando as Olimpíadas de Londres começaram em 1948, Guttmann criou um evento semelhante no Stoke Mandeville. Havia poucos atletas e apenas uma modalidade — tiro com arco —, mas foi o embrião do movimento paralímpico.

Depois de 1948, os jogos de Stoke Mandeville continuaram acontecendo todos os anos e se tornaram internacionais quando atletas da Holanda participaram da edição de 1952. Guttmann continuou seus esforços pelo crescimento do evento e queria uni-lo ao movimento olímpico — até que conseguiu levar os jogos de Stoke Mandeville para Roma, mesma cidade que ia sediar as olimpíadas de 1960. Essa é considerada a primeira paralimpíada oficial. 

A partir daí, houve alguns desafios: sedes como a Cidade do México (1968) ou Munique (1972) alegaram não ter como sediar as paralimpíadas por questões de acessibilidade — mas outras cidades se ofereceram para realizar os jogos. Até que, em 1988, veio uma grande vitória para o movimento paralímpico: a partir dos jogos de Seul, pouco depois desse evento, todas as paralimpíadas passaram a ocorrer na mesma sede e com as mesmas instalações das olimpíadas.

Outro desafio era a cobertura midiática dos Jogos Paralímpicos, ainda muito menor do que a dos Olímpicos. A partir de Sydney 2000, houve uma melhora significativa nesse sentido, com mais pessoas entendendo que eles são tão interessantes quanto outros eventos esportivos.  

O basquete em cadeira de rodas foi um dos primeiros esportes dos jogos de Stoke Mandeville (Imagem: Paris2024/Reprodução)O basquete em cadeira de rodas foi um dos primeiros esportes dos Jogos de Stoke Mandeville. (Imagem: Paris2024/Reprodução)

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O Brasil nos jogos paralímpicos

Um fato bem interessante sobre os jogos paralímpicos é que o Brasil é uma potência neles! Nós enviamos atletas desde Heidelberg 1972 e participamos de todas as edições desde então, conquistando 72 medalhas na Rio 2016, com 14 ouros. Esse foi o melhor desempenho do país no geral, embora tenhamos conquistado mais ouros em Londres 2012, um total de 21. 

O Brasil têm vários atletas que conquistaram várias medalhas, como as de Daniel Dias (só ele tem 14 ouros e 24 medalhas no total), André Brasil (7 ouros) e Clodoaldo Silva (6), todos nadadores paralímpicos brasileiros de grande sucesso. No atletismo, podemos destacar Ádria Santos, com suas 13 medalhas em provas de velocidade, e Luiz Cláudio Pereira, que obteve 5 medalhas de ouro nos lançamentos de dardo, peso e disco.

Além dessas duas modalidades, somos uma potência no futebol de cinco — pentacampeões olímpicos! — e bicampeões no goalball (uma modalidade apenas paralímpica, para times com três atletas cegos). A expectativa é de grande sucesso também nas Paralimpíadas de Tóquio.

O Brasil é uma potência paralímpica em esportes como o goalball (Imagem: CPB/Reprodução)O Brasil é uma potência paralímpica em esportes como o goalball. (Imagem: CPB/Reprodução)

Um evento esportivo de alto nível

Como foi dito, as paralimpíadas também são uma competição esportiva de alto nível, com atletas que dedicam suas vidas ao esporte, e as diferenças são as adaptações em regras, de acordo com cada deficiência. 

O futebol de cinco, por exemplo, demanda silêncio e tem chocalhos na bola, permitindo que os atletas cegos usem os outros sentidos para criar jogadas. A natação e o atletismo têm divisões por categorias, segundo as limitações de mobilidade dos esportistas, porém todas são muito competitivas. O vôlei sentado e os esportes em cadeira de rodas (como basquete) também são adaptações, mas que não mudam o fato de serem esportes altamente competitivos.

É interessante ter isso em mente para não desvalorizar a importância das paralimpíadas como evento esportivo, mas também para não cair em falácias como "todos eles são vencedores" ou "eles são exemplos de superação". Os atletas com deficiência merecem admiração não pelas deficiências, mas por serem pessoas muito dedicadas aos esportes, assim como os atletas olímpicos. Esse vídeo da influenciadora Mariana Torquato fala bem sobre isso.

Então, a partir de hoje e até o dia 5 de setembro, nós temos muitas competições paralímpicas de altíssimo nível para acompanhar nas madrugadas — e ficamos na torcida para que os atletas brasileiros tragam muitas medalhas!

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