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Por que os EUA querem proibir o fogão a gás no país?

Desde sua patente, em meados de 1826 pelo inventor britânico James Sharp, à sua popularização na década de 1920, o fogão a gás se tornou um item essencial nas cozinhas pelo mundo todo.

Os dados levantados em uma pesquisa administrada pela Universidade da Califórnia revelaram que um terço dos lares norte-americanos, ou seja, mais de 40 milhões, usam o eletrodoméstico. Enquanto isso, cerca de 100 milhões de pessoas na União Europeia usam fogões a gás, incluindo mais da metade de todos os lares na Itália, Holanda, Romênia e Hungria.

Grupos de saúde temem que a crise energética da Europa possa piorar a situação, já que as pessoas reduzem a ventilação para economizar calor e dinheiro. No Brasil também não é diferente.

O fogão a gás está presente em 85,3% dos domicílios só no estado de São Paulo, conforme o levantamento feito pela Globonews, com base em dados de 2021 da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás) e da Fundação Seade. Somente 2,27 milhões de lares possuem gás natural encanado, e isso representa 14,7% do total de residências no estado.

E, apesar de a discussão ter ganhado uma reviravolta em 2023, faz tempo que os Estados Unidos começaram uma campanha nacional para banir o uso do fogão a gás no país.

O debate da década

(Fonte: Getty Images)(Fonte: Getty Images)

Em janeiro de 2021, o último relatório do Censo dos EUA mostrou que 37,9 milhões de norte-americanos viviam na pobreza, representando 11,6% da população total – muito embora o país ocupe o primeiro lugar como a nação mais rica do mundo em termos de Produto Interno Bruto (PIB).

Não é por acaso que os fogões a gás se popularizaram desde o século passado. A maioria das pessoas prefere o utensílio porque aquece mais rápido do que o elétrico, além de que o gás natural é mais barato e não requer nenhuma instalação ou ventilação específica. 

Mesmo os EUA tendo alguns dos preços de eletricidade residencial mais baixos do mundo, – sobretudo quando comparados a países europeus que dependem de importações de energia ou das sobretaxas de energia renovável –, o custo não consegue beneficiar os mais de 31 milhões de norte-americanos vivendo em subúrbios pelo país.

(Fonte: Getty Images)(Fonte: Getty Images)

Recentemente, ressurgiu a preocupação quanto ao perigo que os fogões a gás fornecem. O comissário Richard Trumka Jr., da Segurança de Produtos de Consumo (CPSC), causou um burburinho na mídia ao sugerir que eles fossem banidos. Rapidamente, os políticos conservadores reagiram contra a possível proibição, enquanto os republicanos da Câmara chegaram a introduzir uma legislação para impedir que o CPSC proibisse o popular utensílio de cozinha.

Isso foi levantado porque os fogões a gás representam o risco de envenenamento por monóxido de carbono, especialmente se forem instalados incorretamente. Em janeiro de 2023, quase 30 mil fogões a gás foram recolhidos porque poderiam emitir níveis perigosos de monóxido de carbono durante seu uso.

Em 1992, em uma meta-análise sobre os efeitos conhecidos sobre a exposição de NO2 à saúde, os cientistas da EPA e da Universidade Duke descobriram que a exposição ao dióxido de nitrogênio comparável ao de um fogão a gás aumenta as chances de crianças desenvolverem uma doença respiratória em cerca de 20%. 

Em 2013, outra meta-análise de 41 estudos descobriu que o fogão a gás aumenta o risco de asma em crianças e que a exposição ao NO2 está associada aos famosos chiados no peito que crianças costumam ter. Em dezembro do ano passado, outro estudo apontou que 12,7% dos casos de asma infantil nos EUA podem ser atribuídos ao uso do fogão a gás.

A conspiração da indústria

(Fonte: Getty Images)(Fonte: Getty Images)

Apesar de toda a massificação da oposição, o estado de Nova York se tornou o primeiro a aprovar uma lei que proíbe fogões e outros aparelhos movidos a gás em novos edifícios, incluindo casas e prédios de apartamentos residenciais. Kathy Hochul, governadora da cidade, priorizou eliminar o aquecimento por combustíveis fosseis até 2030. A medida foi tomada visando reduzir as emissões de gases de efeito estufa, tanto quanto diminuir os riscos que os fogões a gás também oferecem à saúde.

Em março, durante a Comissão de Segurança de Produtos de Consumo, o Departamento de Energia propôs regras que aumentarão as exigências para os novos fogões vendidos, não os proibindo, mas impondo que atendam a padrões mais altos de eficiência. Illinois, em Chicago, considera uma legislação que exige uma etiqueta de advertência em fogões a gás, enquanto em Eugene, no Oregon, se juntou à lista das 105 cidades que já começaram a eliminar o gás em novas construções.

Essa movimentação toda enfrenta forte oposição bem financiada e politicamente conectada da indústria de combustíveis fósseis, que tenta convencer os norte-americanos de que os cientistas não fizeram nenhuma associação entre os fogões a gás e problemas de saúde e qualidade do ar interno.

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