O misterioso caso do dentista que teria passado HIV aos seus pacientes

O misterioso caso do dentista que teria passado HIV aos seus pacientes

Crime ou coincidência? Como explicar a suposta infecção por HIV de seis pacientes de um dentista que tinha o vírus na mesma época? O caso, que aconteceu na Flórida, Estados Unidos, está até hoje sem uma solução concreta. O que existem são alguns testemunhos e suposições, que incriminam ou mesmo livram o profissional de saúde infectado, mas sem nenhuma prova real.

Tudo aconteceu entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990, quando os casos de AIDS alcançaram 10 milhões de infectados no mundo inteiro, segundo dados da OMS de 1991. Nesta mesma época, no Brasil, os casos registrados eram de 11.805 pessoas.

Entre os infectados norte-americanos estava o dentista David Acer, da Flórida. Segundo as autoridades de medicina dos Estados Unidos, esse homem teria infectado seis de seus pacientes com o vírus HIV. Este seria um entre outros três casos existentes no mundo de um profissional de saúde portador do vírus que passou a doença para pessoas sob os seus cuidados. Mas ninguém faz ideia de como isso aconteceu.

Dúvidas e suposições

É muita coincidência que seis pacientes de um mesmo dentista fossem infectados pelo vírus da AIDS na mesma época. Alguns sugerem que o Dr. David Acer tenha feito isso de propósito, mas não há nenhuma evidência. É um mistério médico que provavelmente permanecerá sem solução.

O que é de conhecimento da classe médica nos processos é que todos os pacientes passaram por procedimentos de anestesia local e uso de objetos afiados, comuns para retirar o tártaro, por exemplo. É bastante provável que o material não tenha sido esterilizado entre um pacientes e outro. No entanto, como o próprio sangue do dentista foi entrar em contato com os dos seus pacientes?

Casos

Em 1991, uma jovem ex-paciente do Dr. Acer, chamada Kimberly Bergalis, morreu em consequência da AIDS. Segundo os relatos do processo, o dentista tirou dois dentes de Kimberly e, durante o tratamento, ele transmitiu o vírus a ela. Com essa suposição, centenas de outros pacientes do Dr. Acer foram testadas e, finalmente, mais cinco foram encontrados com o HIV.

Kimberly Bergalis com seus pais pouco antes de sua morte, em 1991 Fonte da imagem: Reprodução/TC Palm

A família de Kimberly procurou justiça, lutando por uma proibição de que profissionais de saúde que têm vírus realizem procedimentos invasivos. Na época, seu pai, revoltado, disse ao The New York Times: "Alguém que tem AIDS e continua a atender é nada mais do que um assassino". A ira de George Bergalis era compreensível, mas as décadas de estudo que se seguiram têm demonstrado que talvez a acusação seja ultrapassada.

Na época, 19 mil pacientes de 57 outros profissionais de saúde infectados foram testados, mas nenhum deles havia sido contaminado com o vírus durante o seu tratamento.

Para ter uma ideia, o risco de infecção a um paciente submetido a um procedimento altamente invasivo — tal como um transplante de coração aberto — vindo de um médico infectado é de cerca de um em 5 milhões. Esse é o mesmo risco de ser atingido por um raio. Seguindo essas estatísticas, as chances de um dentista infectar seis pessoas por acidente são quase nulas.

Possível “vingança”

Portanto, Acer pode ter realmente infectado seus pacientes de propósito. Um ex-colega sugeriu um motivo: segundo ele, Dr. Acer estava com raiva porque o país se preocupava com o aumento de casos de HIV, pois o mal era visto como uma doença que só afetava os homens homossexuais e viciados em drogas. Algo como uma “vergonha nacional” que deveria ser deixada de lado.

Então, o colega afirmou também que certa vez o Dr. Acer disse a ele: "Quando a doença começar a afetar as avós e as pessoas mais jovens, então você verá que algo será feito".  No entanto, esta teoria também tem alguns pontos faltantes: que tipo de processo ele pode ter usado para fazer a transmissão do vírus?

Fonte da imagem: Shutterstock

A única forma mais plausível é a de que Acer tenha injetado o seu próprio sangue em seus pacientes. No entanto, mesmo com esse tipo de ação, as chances de contágio são de uma em 300. Além disso, nenhum dos seus colegas ou pacientes notou nada de anormal.

Acer só teria sido capaz de passar o HIV em pequenas quantidades de seu próprio sangue se a sua taxa de infecção fosse bastante alta, mesmo se ele estivesse fazendo isso de propósito, apesar de nenhuma evidência ter sido encontrada.

Outro lado

Então, o que poderia ter acontecido? Existem muitas teorias. Uma delas aponta que a sua cepa da doença poderia ter sido particularmente virulenta ou ele pode ter tido uma carga viral excepcionalmente elevada. Por outro lado, talvez ele não tenha realmente nada a ver com o contágio dos pacientes.

Uma investigação, feita por uma companhia de seguros incluída nos processos, alegou que os todos os pacientes tinham fontes alternativas de risco de infecção — como possíveis usos de drogas ou promiscuidade sexual. Além disso, foi relatado que algumas pessoas infectadas também tiveram incentivo financeiro como forma de compensação, o que pode ter alterado os seus testemunhos.

Acer morreu em 1990 e a maioria de seus pacientes infectados também já faleceu. Antes de morrer, o dentista divulgou uma carta aberta aos seus pacientes, dizendo: "Eu sou um homem gentil e nunca iria expor alguém intencionalmente a esta doença. Tenho cuidado das pessoas durante toda a minha vida e infectar alguém com esta doença seria o contrário a tudo o que eu representava".

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Provavelmente, o caso nunca será completamente solucionado. Para você, leitor, essa foi uma série de contaminação acidental, uma trama de assassinato planejado ou apenas coincidência?

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