Efeito Espectador: como nós reagimos diante de um crime?

Efeito Espectador: como nós reagimos diante de um crime?

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Qual seria a sua imediata reação se presenciasse um crime ou uma situação de extrema urgência? E se fossem você e mais dez pessoas, ainda assim manteria a mesma atitude?

Em uma análise ao longo dos anos, as estatísticas acerca desse tipo de comportamento – que envolve aspectos emocionais, disposicionais e motivacionais – se mostraram instáveis, principalmente com a evolução da tecnologia. Em uma pesquisa realizada pela Economic and Social Research Council – ESRC (Conselho de Pesquisa Econômica e Social, em tradução livre), as sugestões apontaram que 70% das pessoas ajudariam, por exemplo, uma mulher em situação de perigo se fossem as únicas testemunhas. No entanto, esse número caiu para 40% se outras pessoas também estivessem no mesmo cenário.

Em 1964, depois do que aconteceu com Kitty Genovese, os psicólogos Bibb Latané e John Darley passaram a chamar isso de “Efeito Espectador” ou “Apatia Social”. Esse estudo define que as pessoas estão menos inclinadas a ajudar outras quando não são as únicas testemunhas em um momento de extrema necessidade.

Há 56 anos, a jovem Kitty estampava as manchetes do The New York Times.

A vítima do Efeito Espectador

(Fonte: NPR/Reprodução)

Kitty Genovese, ou Catherine Susan Genovese, nasceu no dia 7 de julho de 1935 no Brooklyn, na cidade de Nova York. A filha primogênita de Vincent Andronelle Genovese e Rachel Genovese era descendente de italianos e morava no Park Slope, um dos bairros responsáveis por mais acolher famílias irlandesas e italianas na época. Ao lado de mais quatro irmãs, Kitty era considerada uma mente brilhante, promissora e esforçada, que dedicava todo o seu tempo aos estudos desde que era só uma garotinha.

Durante a adolescência, em 1954, sua mãe testemunhou um assassinato em frente à sua casa. Devido à ocorrência desse fato, a família decidiu se mudar para New Canaan, em Connecticut, para que Rachel pudesse se estabilizar emocionalmente e se sentir mais segura. Kitty, no entanto, ficou para trás, aos cuidados dos avós, pois precisava concluir o Ensino Médio na antiga Girls Commercial High School.

Kitty Genovese chegou a ser noiva, porém nunca se sentiu confortável com a sua orientação sexual. No ano de sua formatura, o seu casamento foi cancelado, e ela decidiu se mudar para um condomínio de apartamentos, ainda no Brooklyn, enquanto fazia trabalhos administrativos. A essa altura, a cabeça da garota já havia mudado bastante em relação àquela Kitty que queria ser tão grande quanto os pais esperavam que ela fosse. Por isso, ela decidiu largar tudo para se tornar bartender em uma casa noturna chamada Eleventh Hour Bar, no Queens.

Alguns meses mais tarde, ela se mostrou tão eficiente que passou a ocupar o cargo de gerente do bar. Então, começou a ganhar bem, mais do que acreditava que podia, e tudo o que fazia era depositar boa parte da quantia em uma poupança. Com isso,  ela queria conseguir realizar o seu sonho: abrir um restaurante italiano.

No dia 13 de março de 1963, Kitty conheceu Mary Ann Zielonko em uma balada no Greenwich Village, e por ela rapidamente se apaixonou. No mesmo ano, Mary sugeriu a ideia de as duas morarem juntas; então, elas alugaram um apartamento que ficava próximo à estação de trem Long Island Rail Road, no Queens. O espaço ficava no 2.º andar de um prédio de 14 níveis situado em cima de uma loja, em um típico estilo suburbano nova-iorquino. Era um local seguro e considerado pacífico pela maioria das pessoas que lá viviam.

A apatia do efeito                      

(Fonte: The New York Times/Reprodução)

No dia 13 de março, às 2h30, Kitty Genovese estava voltando para a casa depois de uma noite intensa de trabalho. Às voltas com o volante do carro, ela dirigia pelas vias largas das ruas que serpenteiam o bairro do Queens, onde a neve se empoçava nas esquinas e brilhava sob a luz fraca dos postes, prestes a começar a derreter naqueles últimos dias de inverno de 1964. Apesar do cansaço, Kitty estava feliz e até mesmo enérgica! O único pensamento que tinha em mente era o de chegar logo em casa para poder comemorar com Mary o aniversário de namoro delas. Ela, então, estacionou na estação de trem vizinha ao seu prédio e seguiu a pé até a entrada dele – que ficava a 30 metros de distância, na esquina de um beco. O que a mulher não sabia, porém, é que Winston Moseley a espreitava de seu carro.

Esse homem de 28 anos de idade, de aparência comum e despretensiosa, trabalhava para uma empresa de máquinas de negócios. Ele havia deixado a sua esposa e mais 2 filhos em sua casa, em South Ozone Park, também no Queens; o objetivo era procurar uma vítima para a faca de caça que tinha no bolso do casaco e saciar seu desejo sexual pervertido, doentio e criminoso. Para isso, ele estava dando voltas pelas ruas do bairro desde a 1h  e, quando estava quase desistindo, viu a mulher manobrar o Fiat vermelho.

(Fonte: The Murder With Me/Reprodução)

Kitty ouviu passos pesados esmagarem a neve junto aos seus, então decidiu começar a correr pela rua desolada. Winston a alcançou mais rápido do que ela esperava e não hesitou em golpeá-la duas vezes nas costas. Ela caiu e começou a gritar que tinha sido esfaqueada, quebrando o silêncio entre as construções de tijolos aparentes. Robert Mozer, um vizinho, saiu à janela de seu apartamento e gritou: “Deixe a garota em paz!”. Intimidado, Winston voltou para o seu carro e fugiu. Ferida, Kitty ficou de pé e se arrastou até o hall de entrada do prédio, onde desabou no chão novamente. Naquele momento, várias pessoas já haviam saído às janelas de suas casas para checar o que estava acontecendo.

Dez minutos depois, de acordo com testemunhas, Winston voltou à região, só que dessa vez protegendo o rosto com um chapéu. Ele vasculhou o estacionamento e a estação de trem à procura da moça, até que a encontrou na entrada do prédio, caída e quase inconsciente. Então, ali mesmo, ele a estuprou por aproximadamente 30 minutos  e, depois disso, esfaqueou-a 17 vezes antes de roubar US$ 45 e fugir de novo.

Só por volta das 3h50 alguém decidiu ligar para a polícia. Antes disso, essa testemunha teria ligado para uma amiga, Sophia Farrar, uma vizinha. Foi ela quem encontrou a vítima em uma poça do próprio sangue. A ambulância demorou vários minutos para chegar ao local, e Genovese morreu a caminho do hospital devido ao sangramento ininterrupto.

Os gritos no silêncio

(Fonte: Stuff.co/Reprodução)

“Eu estava cansado e voltei para a cama”; “Achei que era algo de casal”; “Eu não gosto de me envolver!”; “Não liguei para a polícia porque achei que alguém já havia feito isso”. Essas foram só algumas das declarações dos vizinhos que testemunharam o ataque e preferiram a omissão do que a ação, ainda que esta fosse apenas pegar o telefone e discar o número da polícia na segurança de seu lar.

Karl Ross, por exemplo, foi um dos que recorreram a um amigo pedindo conselho sobre o que fazer, mas não ligou para a polícia. E esse telefone sem fio continuou: o amigo de Ross também não reportou o problema às autoridades e ligou para um terceiro amigo, quem, só então, resolveu ligar para a polícia, sendo que sequer morava no mesmo bairro do crime.

O sistema 911 para emergências não havia sido criado naquela época, e a polícia inclusive ignorou o pai de uma das testemunhas, mesmo depois de ele dizer que uma mulher havia sido espancada na rua. Os policiais não deram prioridade a nenhuma das ligações até a de Sophia Farrar.

Uma semana depois do ataque, e com os detetives John Carroll e Jerry Burns focando mais em Mary e nas atividades sexuais do casal do que em qualquer outra coisa, Winston Moseley foi preso após um assalto. Ele acabou confessando o assassinato de Annie Mae Johnson, Barbara Kralik e também de Kitty Genovese.

No dia 15 de junho de 1964, ele foi julgado e sentenciado à morte, mas teve a pena modificada para 20 anos de prisão. Chegou a fugir em 1968 e por isso recebeu mais 30 anos de encarceramento. Em 28 de março de 2016, ele morreu em sua cela, aos 81 anos de idade, como um dos presos mais antigos do sistema carcerário de Nova York.

A revista The New York Times, com a matéria de capa de Martin Gansberg sobre o assassinato de Kitty, ainda que de maneira tendenciosa e com fatos exagerados, repercutiu o caso para todos os cantos.

O “Efeito Espectador” também virou a “Síndrome de Genovese” para os dois psicólogos fundadores do estudo, que foi endossado pela psicologia comportamental com a pesquisa sobre a relutância das pessoas em oferecer ajuda, indicando um aumento de autopreservação e uma diminuição de empatia. Hoje, esse efeito estendeu-se à necessidade das pessoas de documentar tudo – inclusive situações que exigem denúncia – com os seus smartphones e postar esses registros em redes em vez de usar o aparelho para chamar ajuda de autoridades responsáveis.

Kitty Genovese se tornou uma espécie de parábola, mostrando o lado obscuro do cotidiano de uma sociedade, e o protagonismo perturbador de sua breve história motivou a criação de leis samaritanas, a implementação de um sistema de emergência e o desenvolvimento de estudos científicos. Entretanto, mesmo com a repercussão que teve, esse fato talvez não tenha sido eficiente em ensinar o mínimo às pessoas: a necessidade de elas serem humanas.

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