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Mark Hofmann: de gênio da falsificação a assassino desesperado

Em outubro de 1985, a cidade Salt Lake City, em Utah, Estados Unidos, foi abalada quando duas bombas tomaram as vidas de Steven Christensen e Kathleen Webb Sheets, e uma terceira feriu gravemente Mark Hofmann.

Porém, as investigações policiais logo revelaram que o criminoso não era um "homem-bomba" e tampouco estava fazendo vítimas aleatórias. Hofmann, conhecido na época por seu papel na Igreja Mórmon, estava por trás dos atentados, com o terceiro tendo ocorrido de forma acidental. 

(Fonte: Ben Martin/Getty Images/Reprodução)(Fonte: Ben Martin/Getty Images/Reprodução)

O mais surpreendente foi o motivo e a história por trás dele: encobrir seus longos anos forjando e vendendo diversos documentos, sendo considerado um gênio da falsificação.

Condenado por assassinato em segundo grau e estelionato em 1987, o americano segue preso, mas sua carreira criminosa e trabalhos ainda geram debate entre pesquisadores, por terem enganado especialistas do FBI e da Biblioteca do Congresso norte-americano, e estando presente em casas de leilão e coleções até hoje sem serem detectados.

De colecionador de moedas à especialista em fraude

O início da vida do gênio da falsificação foi relativamente normal. Nascido em 1954 na mesma cidade que futuramente iria apavorar com suas bombas, Mark era filho de mórmons devotos, e embora não tivesse as melhores notas na escola, sempre se sentiu atraído por atividades que estimulavam o cérebro.

Um marco importante para seu futuro foi durante a adolescência, quando aos 12 anos passou a colecionar moedas e aos 15 começou a se interessar profundamente pelas características que as tornavam valiosas, e ao notar que podiam ser bem sutis, decidiu começar a falsificá-las.

(Fonte: Ben Martin/Getty Images/Reprodução)(Fonte: Ben Martin/Getty Images/Reprodução)

Sem nenhum medo, ele levou seu primeiro projeto para um negociante de moedas local, que ofereceu milhares de dólares pelo item caso o mesmo fosse aprovado pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, com o que Hofmann prontamente concordou.

A falsificação foi considerada genuína pelo departamento, e foi a partir daí que Mark se especializou em forjar artigos e documentos que levariam até o momento trágico dos atentados com bombas.

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias

Para compreender exatamente tudo que Hofmann fez e como passou tantos anos sem ser descoberto, é preciso explicar o lado religioso desta trama.

Conhecida popularmente como a Igreja Mórmon, embora este não seja o termo correto, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD) originou-se no começo do século 19, em Nova York, sendo singular por sua fama, tamanho e repercussões sobre ser ou não uma forma de cristianismo.

(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)

Segundo a história da instituição, o pobre fazendeiro Joseph Smith teria sido visitado por um anjo que lhe pediu para desenterrar um livro feito de metal precioso e escrito em uma língua antiga. Smith, como um profeta de Deus, deveria traduzir o texto, que ficaria conhecido como o Livro de Mórmon - um dos quatro pilares da SUD, juntamente com a Bíblia, Doutrina e Convênios e Pérola de Grande Valor.

Mas como toda fama também vem com seus problemas, o grupo religioso passou a ser mal visto entre algumas pessoas, que não acreditavam que Joseph tenha sido um profeta, mas sim um vigarista ávido por poder que queria criar um culto polígamo usando manipulação e magia.

Uma teoria que serviu de inspiração

Em 1973, o jovem Mark de 19 anos partiu para Bristol, na Inglaterra, para seu período de dois anos de trabalho missionário. Durante os momentos em que não estava realizando algum trabalho oficial para a igreja, ele buscava livros antigos sobre sua religião, e parecia estar bem interessados em textos mais críticos, que afirmavam que Smith era um charlatão e revelavam histórias embaraçosas.

Acredita-se que foi nessa época que Hofmann descobriu uma teoria desconcertante sobre as origens do Livro de Mórmon, a qual ele tentaria sustentar utilizando falsificações.

Para muitos crentes, o iletrado Smith não teria condições de inventar um texto tão longo e complexo, mas a teoria Spalding-Rigdon sugere que o Sidney Rigdon, melhor amigo do fazendeiro e seu primeiro seguidor, teria roubado um romance não publicado sobre civilizações perdidas de um escritor chamado Solomon Spalding, e que os dois decidiram então utilizá-lo com uma escritura.

(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)

Mark, que já havia perdido sua fé por volta dos 14 anos, principalmente após descobrir que seu avô praticava poligamia, continuava a fazer parte da igreja mais por pressão social, porém, pareceu sofrer uma mudança enquanto estava na Inglaterra, tornando-se extremamente interessado por materiais com opiniões céticas sobre o mormonismo.

A ideia de que o grande profeta pudesse ser um vigarista parecia agradar Hofmann, algo que o levou a criar um grande desafeto pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e por aqueles que ele acreditava estarem tentando encobrir seus aspectos desagradáveis. E foi isso que tornou o grupo religioso e seus líderes os alvos do gênio da falsificação.

A primeira grande falsificação

Em 1980, quando já estava casado com Doralee Olds, Mark iniciou seu primeiro grande golpe. Em abril daquele ano, Olds voltou para casa e encontrou seu esposo folheando uma edição da Bíblia do Rei James de 1688, que havia adquirido em seu tempo na Inglaterra.

(Fonte: Netflix/Reprodução)(Fonte: Netflix/Reprodução)

O homem explicou que algumas páginas estavam grudadas, e Doralle observou enquanto ele as separava e revelava um papel com uma assinatura muito semelhante à de Joseph Smith.

Mark então foi incentivado pela esposa a levar o livro no dia seguinte para a Universidade Estadual de Utah e mostrá-lo para pesquisadores que ficaram surpresos com o conteúdo da publicação, acreditando se tratar da Transcrição de Anthon original.

O que é Transcrição de Anthon?

(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)

Charles Anthon, um estudioso clássico e linguista, foi abordado em 1828 por Martin Harris, um dos primeiros mórmons conversos que pediu ao especialista para identificar alguns caracteres incomuns nas traduções de Smith.

O resultado deste encontro é um ponto de debate há anos, pois Harris afirmou que Anthon afirmou que a tradução estava correta, oferecendo até mesmo uma carta de autenticação que supostamente teria rasgado quando ficou sabendo do envolvimento de anjos. Contudo, outras fontes dizem que o estudioso nunca acreditou que os caracteres foram genuínos, chamando de farsa e explicando que Martin havia sido enganado.

O documento original apresentado pelo mórmon ao linguista foi perdido, mas uma cópia denominada Caractors foi preservada pela Comunidade de Cristo, uma vertente menor do movimento Santos dos Últimos Dias, nome dado à coleção de grupos religiosos independentes cujas origens estão ligadas a Joseph Smith.

Detalhes impressionantes

Encontrar a Transcrição de Anthon original seria algo inestimável, então é claro que os pesquisadores da universidade ficaram empolgados com a descoberta na bíblia de Mark Hofmann.

A única coisa mais impressionante do que a capacidade de Mark de se manter calmo durante a farsa, foram os detalhes presentes na falsificação. Ele não apenas reproduziu com sucesso a caligrafia de Joseph Smith, como utilizou papel e tinta que condiziam com a época - confessando posteriormente ter achado a receita do segundo item de um livro roubado.

(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)(Fonte: Wikimedia Commons/Reprodução)

Hofmann, acreditando que a cópia disponível do Caractors estava correta, ainda adicional alguns recursos para combinar com a descrição de Anthon, incluindo um "calendário mexicano" que ele criou usando uma garrafa de cerveja.

O trabalho final tinha uma qualidade tão excelente que a SUD pagou mais de US$ 20 mil por ele. Até hoje não se os motivos do falsificador eram zombar do grupo religioso, ou apenas monetários.

Uma carreira criminosa

Após o sucesso estrondoso do primeiro golpe, Hofmann decidiu trabalhar unicamente com falsificações, forjando outros documentos raros e moedas mórmons antigas através das descrições que encontrava nos arquivos da igreja.

Ele realizava diversas vendas aproveitando-se da fama da SUD de gastar com arquivos religiosos encontrados por todo o mundo, além de se aproveitar das motivações pessoais de seus compradores, oferecendo aquilo que eles mais desejavam.

(Fonte: Deseret Assay Office/Wikipedia/Reprodução)(Fonte: Deseret Assay Office/Wikipedia/Reprodução)

Mark criou proclamações perdidas de Smith, cartas da mãe do profeta, páginas do manuscrito original do Livro de Mórmon e até mesmo conteúdos relacionados com Emily Dickinson, Mark Twain, Abraham Lincoln e outros indivíduos famosos.

E embora pareça estranho que a igreja nunca tenha desconfiado que um único homem era capaz de localizar tantas documentações importantes, vale lembrar que os projetos não só eram extremamente bem feitos, mas que também Hofmann apostava que não seriam examinados com muito afinco por seus compradores, que teriam medo de danificá-los. Além disso, sua reputação começou a crescer com o tempo, o que o ajudava a manipular ainda mais suas vítimas.

A Carta da Salamandra

Esta carta teria sido supostamente escrita por Martin Harris em 1830, e foi vendida pela primeira vez para Steven Christensen, bispo mórmon e colecionador de documentos, que Hofmann posteriormente mataria com uma bomba em 1985.

Contrariando a versão oficial da SUD, o manuscrito descreve Smith como um caçador de tesouros que utilizava magia, e o primeiro encontro que Martin teve com ele, explicando que os dois haviam apresentados através do pai de Joseph.

(Fonte: Mormon Information/Reprodução)(Fonte: Mormon Information/Reprodução)

Harris também teria afirmado que o profeta era capaz de encontrar tudo o que desejasse olhando para uma pedra, e que teria utilizado ela e um espírito invocado no formato de uma salamandra branca para encontrar os textos sagrados.

Christensen, mesmo sendo um respeitado membro da igreja, teria acredito na veracidade do item adquirido porque detalhes sobre a vida de Joseph tornavam a Carta da Salamandra plausível.

O erro que custou tudo

Mesmo sendo outro trabalho detalhado de Hofmann, a carta não foi tão bem recebida como a Transcrição de Anthon. Após pagar US$ 40 mil nela, Christensen decidiu fazer mais verificações para atestar sua autenticidade.

(Fonte: Netflix/Reprodução)(Fonte: Netflix/Reprodução)

Enquanto alguns especialistas acreditavam que esta era a prova que muitos procuravam sobre Joseph Smith, outros viram o documento como radical e conveniente demais. Além disso, mesmo com a letra, o papel e tinta corretos, linguagem de Harris estava errada. Como um homem profundamente devoto, ele costumava mencionar diversas vezes palavras como anjos e santos. Mas a carta da Salamandra não possuía um termo religioso sequer, algo totalmente incomum.

Era o primeiro erro de Hofmann, e mesmo sendo sutil, abriu espaço para que o ceticismo sobre suas descobertas começasse a surgir. Pessoas passaram a desconfiar da habilidade única do falsificador de localizar tantos itens raros em sua carreira, mas Mark já não conseguia mais parar, pois precisava desesperadamente do dinheiro para pagar seu estilo de vida luxuoso, além dos empréstimos e das promessas que havia feito.

De falsificador a assassino

Sem conseguir pagar o dinheiro que devia às autoridades mórmons, Hofmann ofereceu a Coleção McLellin em troca, que supostamente continha documentos que afetariam as bases da fé da igreja, e Christensen serviria como intermediário da negociação, garantindo que os artigos fossem devidamente analisados por especialistas.

Desesperado que suas trapaças seriam descobertas, no dia 15 de outubro de 1985, o falsificador plantou uma bomba no escritório de Steven e outra na frente da casa de Gary Sheets, que era parceiro de negócios do bispo e também estava ligado à aquisição da coleção.

O primeiro dispositivo tomou a vida do alvo pretendido, mas o segundo acabou matando Kathleen, a esposa de Gary, no lugar dele. O falsificador esperava que as mortes das vítimas servissem para adiar a conclusão dos negócios, mas para sua infelicidade, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias arranjou rapidamente um substituto e agendou a entrega para o próximo dia.

Cada vez mais encurralado, Mark utilizou diversos pseudônimos e rodou cerca de 144 quilômetros para montar o terceiro explosivo, tudo para ganhar mais tempo. Porém, seu plano falhou quando sua criação explodiu antes da hora em seu carro no dia seguinte, quase custando sua vida.

Quando a investigação policial finalmente revelou seus crimes, Hofmann chegou a alegar que o último atentado foi uma tentativa de suicídio, mas acredita-se que ele provavelmente estava atrás de outra vítima que pudesse revelar suas falsificações.

O gênio atrás das grades

(Fonte: All That is Interesting/Domínio Público/Reprodução)(Fonte: All That is Interesting/Domínio Público/Reprodução)

O falsificador foi acusado de trinta crimes, incluindo os homicídios, e acabou firmando um acordo com a promotoria em 1987, confessando suas tramas e sendo condenado a servir prisão perpétua na Penitenciária Estadual de Utah. Hofmann tentou suicídio duas vezes em 1988 e 1990, mas fracassou em ambos os casos. Este foi o fim da carreira do especialista, cuja trajetória impressionante ganhou até documentário na Netflix.


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