Conheça a história do médico que tratava doentes mentais com extirpações

A psiquiatria e a psicoterapia trilharam um longo caminho até os dias de hoje e, ao longo da História, diversos casos entraram para os livros como exemplos a não serem seguidos. Um deles foi o do norte-americano Henry Cotton, médico que se tornou diretor do Hospital Estadual de Trenton, em Nova Jersey, uma enorme instituição mental no estado de Nova York, em 1907, quando tinha apenas 30 anos de idade.

Hospital Estadual de Trenton (Reprodução/Amusing Planet)

Contudo, Cotton jamais deveria ter chegado tão longe e, francamente, nunca deveria ter recebido permissão de se aproximar a um paciente. Isso porque ele desenvolveu uma teoria bizarra de que podia tratar problemas mentais através da remoção de todos os dentes de seus pacientes – e o pior é que isso de “arrancar” coisas não parou nos dentes e, surpreendentemente, vários membros da comunidade médica acreditaram em seus métodos.

Currículo de respeito

Cotton frequentou universidades prestigiosas nos EUA e estudou psiquiatria na Europa com vários médicos notórios, entre eles Alois Alzheimer. Ele também foi pupilo de um dos maiores nomes da especialidade – Adolf Meyer, da escola de Medicina Johns Hopkins – antes de assumir o cargo em Trenton, então o cara pelo menos tinha um currículo respeitável. Mas deixe a gente falar mais sobre Meyer...

Henry Cotton (Reprodução/All That’s Interesting/Antiquity Echoes)

Ele foi um dos primeiros médicos a propor que os distúrbios psiquiátricos podiam estar relacionados com a personalidade do paciente em vez de serem decorrentes de problemas cerebrais, que o ambiente podia afetar a saúde mental, e inclusive recomendava a adoção de novos hábitos e mudanças na rotina como tratamento, além de defender a realização de sessões de terapia.

Só que Meyer também pensava que os problemas mentais podiam surgir por causa de infecções bacterianas, já que ele havia observado pacientes com febre alta terem alucinações e devaneios. Bem, Cotton foi seu pupilo, lembra? Pois foi de Meyer que ele aprendeu essa relação entre bactérias e loucura – e, somando-se a isso o fato de que no início do século 20 estudos revelaram que a sífilis causava lesões cerebrais que podiam gerar transtornos psiquiátricos, Cotton começou a dar forma à sua teoria.

Açougueiro

Na época, a penicilina ainda não havia sido inventada; então, para combater infecções, em muitos casos os médicos extirpavam o foco do problema – e foi exatamente o que Cotton começou a fazer com seus pacientes. O psiquiatra acreditava que a boca era o local de maior concentração de bactérias; por isso, começava o “tratamento” pelos dentes, arrancando todos os que encontrava com problemas como cáries e infecções.

Imagem de um livro publicado por Cotton (Reprodução/Wikimedia Commons/Domínio Público)

E Cotton tinha tanta certeza que esse era o caminho que arrancou todos os seus, os de sua esposa e os dos seus dois filhos. Mas voltando aos pacientes, quando essa medida não funcionava, Cotton progredia para a remoção das amídalas. Só que se os pobres coitados não mostrassem melhoras, o médico continuava operando...

De vesículas a ovários, passando por testículos e baços, Cotton ia extirpando órgãos dos pacientes, e o mais alarmante é que 1 de cada 3 doentes submetidos às cirurgias acabava morrendo. Cotton costumava culpar a psicose crônica pelo óbito e, segundo seus relatórios, o índice de sucesso entre os que sobreviviam era de 85%. Esses números despertaram muito interesse, obviamente, e não demorou para que pessoas que padeciam de problemas psiquiátricos começassem a buscar o tratamento.

Deplorável

Foram centenas de mutilações desnecessárias até que Meyer enviasse outra aluna, Phyllis Greenacre, a Trenton para avaliar o trabalho de Cotton mais de perto – e colher os louros como seu antigo professor. Phyllis se deparou com um cenário deplorável e inúmeros pacientes completamente banguelas, e ao investigar os registros das cirurgias e dos estudos de Cotton, ela descobriu que sua pesquisa era um caos e que os números não batiam.

Centenas de vítimas (Reprodução/Trenton Hospital - A Butchered Past)

Phyllis encontrou evidências de que pouquíssimos pacientes realmente se recuperaram de problemas mentais; e, nos casos em que se notava melhora, nem sempre havia relação com as cirurgias. Para piorar, Cotton não contabilizou todos os doentes que morreram, escondendo a verdade, e Meyer, chocado com as informações, optou por não deixar que a investigação de Phyllis fosse divulgada. Tudo para não arruinar a carreira do ex-aluno.

Infelizmente, Cotton continuou trabalhando em Trenton até se aposentar como diretor e, na década de 30, abriu uma clínica particular – onde seguiu em atividade e aplicando seu tratamento bizarro até morrer de repente de um ataque no coração.

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