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Como judeus brasileiros ajudaram a fundar a Nova York de hoje

Com mais de 8 milhões de habitantes, a cidade de Nova York, nos Estados Unidos, tornou-se uma das metrópoles mais importantes e icônicas do mundo todo. O que muitos não sabem, entretanto, é que a história da fundação do município passou pelas mãos de um grupo de judeus que tinham acabado de ser expulsos do Recife, em Pernambuco.

Após serem expulsos pelos colonizadores portugueses após o fim da ocupação holandesa em terras brasileiras em 1654, cerca de 600 judeus deixaram o Brasil com o objetivo de voltar para sua terra natal, a Holanda. Entretanto, a jornada de partida teve reviravoltas impressionantes até uma chegada inusitada em território norte-americano, onde a história ganhou novos rumos.Re

Retorno turbulento à Holanda

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Com desejo de voltar à Holanda, onde o judaísmo era permitido devido ao calvinismo, o grupo de judeus embarcou em um navio no porto de Recife. A expulsão dos holandeses das terras conquistadas no nordeste brasileiro, lugar em que visavam a produção e comércio de açúcar, tornou a permanência no país insustentável sobretudo pelo domínio cristão.

Entretanto, uma grande tempestade desviou a embarcação de seu trajeto original, fazendo com que cruzassem o caminho de um navio pirata, que os saqueou. O grupo acabou sendo resgatado por uma fragata francesa e levado à Jamaica, então colônia da Espanha. Se a situação já era incômoda, os 600 judeus foram presos por conta da Inquisição Espanhola.

Contando com a ajuda do governo holandês, os indivíduos foram libertados alguns dias depois. Porém, os problemas financeiros causados pelo ataque em alto mar fez com que uma parcela dos indivíduos tivesse que optar por um novo destino mais próximo do que a Europa:  a colônia holandesa de Nova Amsterdã, que viria a ser a atual Nova York.

Primeira comunidade judaica na América do Norte

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

A cidade de Nova Amsterdã servia como um mero entreposto comercial para a Holanda no século XVII. Então, foi ali que 23 judeus expulsos do Brasil formaram a primeira comunidade judaica na América do Norte e passaram a contribuir para a construção da megalópole de hoje.

O passado, inclusive, reflete na comunidade norte-americana até os dias atuais. Atualmente, Nova York tem a segunda maior quantidade de judeus no mundo, perdendo apenas para Tel Aviv, em Israel. Como muitos judeus foram obrigados a se converter ao cristianismo na Península Ibérica devido à perseguição pela Igreja Católica, a chegada do grupo nos EUA aparece quase como um milagre histórico.

A trama, que teve início real em 1630 com a chegada do grupo no Brasil, acabou virando enredo para o livro De Recife para Manhattan: Os judeus na formação de Nova York (2018), da pesquisadora Universidade de São Paulo (USP) Daniela Levy. De acordo com a publicação, cerca de 1.450 judeus chegaram a habitar o país sul-americano naquela época.

Bem-vindos; ou não!

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

Ao que apontam os registros populacionais da Prefeitura de Nova York, o grupo de judeus chegou ao local em 1654, mas não foram exatamente bem recebidos. Em entrevista para a BBC, Levy conta que a colônia holandesa era insignificante, quase deserta e comandada pelo calvinista fanático, Peter Stuyvesant, que criou várias dificuldades para os recém-chegados.

Nem um pouco amante dos judeus, Stuyvesant não queria permitir a entrada do grupo na região, mas foi contrariado comunidade judaica da Holanda. Através de muito suor, os 23 imigrantes foram conquistado espaço no comércio local e passaram a atrair mais judeus para a cidade. Posteriormente, o restante que havia ficado preso na Jamaica juntou-se a eles.

Em 1664, a cidade mudaria de nome para Nova York. Mesmo com tanta batalha, os primeiros judeus a receberem plena cidadania norte-americana só a conquistaram após o fim da guerra de independência americana em 1783. Benjamin Mendes, descendente do grupo original, fundou a Bolsa de Nova York. 

Homenagens à comunidade judaica 

(Fonte: Daniela Levy/BBC)(Fonte: Daniela Levy/BBC)

Quem passar por Nova York hoje poderá encontrar o monumento chamado Jewish Pilgrim Fathers que homenageia as famílias judias que ajudaram a cidade a se desenvolver e prosperar, além de outras homenagens ao primeiro cemitério judeu de holandeses e portugueses na região.

No Brasil, os judeus só foram retornar ao país em 1810, vindos em grande maioria do Marrocos. O grupo acabou se estabelecendo em Belém, onde construíram a segunda maior sinagoga brasileira que continua em pleno funcionamento até os dias atuais. Posteriormente, a imigração judaica se intensificou oriunda do advento da Segunda Guerra Mundial e do domínio nazista na Europa.

O dia 18 de março também é responsável por comemorar Dia Nacional da Imigração Judaica no Brasil. O evento foi criado a partir de um projeto de lei de 2009, o qual estipulava um dia comemorativo para celebrar a contribuição do povo judeu na formação da cultura brasileira.



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