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Barkley Marathon: a maratona mais cruel e misteriosa da história

A Maratona de Barkley é um desafio assassino, pois foi inspirada no plano de fuga de um criminoso. Em 10 de junho de 1977, James Earl Ray, o assassino de Martin Luther King Jr., escapou da Penitenciária Estadual de Brushy Mountain, no Tennessee (Estados Unidos), onde ficavam os piores tipos de criminosos da época. As gigantescas Montanhas do Tennessee que cercam a prisão eram chamadas de “terceira parede”, pois ninguém conseguia atravessá-las se superassem as duas paredes do centro penitenciário.

Quando Ray escapou, os agentes federais só conseguiram localizá-lo cerca de 54 horas depois e apenas a 20 quilômetros de distância da prisão, provando a dificuldade de cruzar o vale. 

Conhecido como Lazarus Lake, Gary Cantrell, um famoso criador e diretor de ultramaratonas, ficou intrigado em saber o motivo de Ray não ter sido capaz de ir tão longe.

A gênesis de uma ideia

(Fonte: Tour Burshy/Reprodução)
(Fonte: Tour Burshy/Reprodução)

Em 1985, Lake fez um mochilão até o Frozen Head State Park, nas montanhas do Tennessee, para poder explorar a área e seus arredores. Ele chegou a mostrar para um guarda a rota que desejava fazer, mas o homem disse que ele não seria capaz de completá-la. No dia seguinte, depois que Lake deu uma volta completa, ele informou ao guarda que tinha amigos que poderiam se interessar por aquele percurso.

Sendo assim, Lake decidiu criar uma maratona no local. No entanto, julgando a quilometragem do trajeto muito pequena, ele decidiu estendê-la para 88 quilômetros, que seriam totalizados em 4 voltas de 20 quilômetros cada, em tempo limite de 50 horas. Ele nomeou a corrida em homenagem a Barry Barkley, um amigo de longa data que era entusiasta de maratonas insanas.

(Fonte: Imgur/Reprodução)
(Fonte: Imgur/Reprodução)

Junto com Karl Henn, o cofundador da Barkley, Lake começou a divulgar a ultramaratona pela comunidade de corredores. Em 1985, na estreia da Maratona de Barkley, apenas 13 pessoas competiram, mas nenhuma venceu. Só em 1989, após 4 anos de competição, alguém conseguiu terminar. Àquela altura, a maratona já havia-se tornado um fenômeno. Foi então que Lake decidiu estender o percurso para 160 quilômetros, que seria totalizado em 8 voltas e em até 60 horas. Demorou 6 anos até que alguém se tornasse o segundo vencedor.

Um jogo psicológico

(Fonte: Runners World/Reprodução)
(Fonte: Runners World/Reprodução)

A Maratona de Barkley foi criada para redefinir o conceito de limites humanos, servindo para colocar seus participantes contra si mesmos e fazê-los falhar ou apresentar uma nova versão da palavra “sucesso”.

A manipulação psicológica começa no processo de inscrição da corrida. Barkley não tem procedimento de inscrição, tampouco um site. A única maneira de a pessoa saber quando deve ser é enviando sua ficha especificando os motivos de querer participar da competição, por meio de antigos competidores, os “veteranos”, ou descobrindo por conta própria.

Gary Cantrell. (Fonte: Outside Magazine/Reprodução)
Gary Cantrell. (Fonte: Outside Magazine/Reprodução)

Quando a pessoa consegue enviar sua inscrição depois de ter pago a taxa de US$ 1,60, Lake e Henn selecionam os “cordeiros sacrificiais”, aquelas pessoas que não tem nenhum preparo para estarem na maratona; em seguida, eles pegam os corredores de elite.

Depois que eles enviam a “carta de condolências”, informando que o participante passou na seleção, começa um intenso processo de pressão psicológica, uma vez que as datas das corridas não são publicadas. Muitos novatos recorrem a centenas de sites e blogs “especializados” em dar informações sobre a corrida, quando na verdade são um mural de mentiras criado pelos próprios veteranos a fim de confundir os novos participantes.

“Lá fora”

(Fonte: Pinterest/Reprodução)
(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Aparentemente, a Maratona Barkley parece atrair pessoas muito inteligentes, como engenheiros, químicos e cientistas. Até 2018, só pessoas com pós-graduação venceram a corrida. “É muito difícil manter o controle sobre qualquer situação que você possa controlar, e ainda ter certeza de que tudo está indo do jeito que precisa ser”, declarou Baverly Abbs, que competiu duas vezes a Barkley.

A maratona exige muitos conjuntos de habilidades, como se adaptar a um ambiente de floresta e ser capaz de sobreviver às intempéries do clima, desde o Sol mais quente até o frio extremo e névoa tão densa que é impossível enxergar um palmo além do nariz. Além disso, é necessário que a pessoa esteja em ótimo condicionamento físico para sobreviver a quase 3 dias sem dormir e comer direito, andando em um terreno tão inconstante quanto o do Monte Everest.

(Fonte: Mental Floss/Reprodução)
(Fonte: Mental Floss/Reprodução)

Apenas 5% dos inscritos são mulheres e nenhuma delas chegou a completar a 4ª volta da corrida. Amelia Boone, advogada da Apple, tricampeã da competição Worlds Toughest Mudder e campeã mundial da Spartan Race, competiu em Barkley em 2018, mas não conseguiu completar o trajeto e se tornar a primeira mulher a vencer a maratona.

“Lá fora” é a maneira como os corredores passaram a se referir ao longo dos anos ao percurso, que muda a cada ano e é piorado por Lake e Henn. Ao redor do perímetro do Frozen Head State Park, as trilhas são construídas em zigue-zague a cerca de 500 metros de altura no leste das Montanhas do Tennessee.

(Fonte: Triathlon Magazine/Reprodução)
(Fonte: Triathlon Magazine/Reprodução)

Os participantes enfrentam espinheiros, animais silvestres, adversidades climáticas, como granizo e inundações, além de terem que lidar com os demais competidores tentando boicotar uns aos outros. Exceto o uso de equipamentos eletrônicos, não existem regras dentro da maratona. Jogo limpo e sujo são opções viáveis e está fora do controle dos organizadores.

A Maratona de Barkley não é só conhecida como a mais difícil de ser vencida, como também a mais difícil de se desistir. Isso porque leva 7 horas para que a pessoa volte ao acampamento depois que decidiu que não consegue mais prosseguir. Muitos resistem exatamente por causa desse pensamento.

Fumaça no ar

(Fonte: Bitter Southener/Reprodução)
(Fonte: Bitter Southener/Reprodução)

Lake assopra uma concha para indicar que falta 1 hora para o início da corrida, o que pode acontecer a qualquer momento entre a meia-noite e o meio-dia de um sábado. Portanto, os 40 maratonistas selecionados a cada ano não podem dormir enquanto estão reunidos no acampamento.

A essa altura, os corredores já devem ter copiado o mapa oficial do percurso fixado no acampamento, anotando pontos de elevação, curvas, subidas fora da trilha e tudo o mais. O maratonista é o responsável por chegar por conta própria em cada posto de controle espalhado ao longo do trajeto.

A corrida começa sempre que Lake simplesmente acende seu cigarro, às vezes na escuridão da madrugada. Então, os participantes passam todos por um portão amarelo, fazem a curva que leva para a floresta ao redor da penitenciária desativada e começam a correr.

(Fonte: Pyllon/Reprodução)
(Fonte: Pyllon/Reprodução)

Para o vencedor esgotado, o prêmio, além de reconhecimento e autoconhecimento, é uma cadeira na linha de chegada após a última volta, para que ele conte por tudo o que passou. Em 35 anos, apenas 14 pessoas tiveram o privilégio de se sentarem nessa cadeira.

Em entrevista à Outside Magazine, Lazarus Lake revelou: “Não sei se a Barkley ensina as pessoas sobre o fracasso. O que a Barkley faz é forçar as pessoas a se aprofundarem em si mesmas. É difícil de explicar. Você atinge o seu limite e descobre que ainda há um pouco mais”.

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