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Teratofilia: a estranha obsessão sexual por criaturas

Qual é a primeira coisa que vem a sua mente quando é indagado sobre como um vampiro se parece? Alguns associam sua imagem às raízes de onde surgiram: carecas, imberbes, pálidos, com dentes pontiagudos e até mesmo com corcundas. Eles são criaturas de características inumanas que rejeitam o dia e prosperam na noite, saindo para caçar humanos, sugar seu sangue e parasitar corpos.

Esses são iguais o Conde Orlok, de Nosferatu, figuras do folclore romeno, chamados moroi ou strigoi, difundidos na cultura popular desde sua primeira documentação no livro A Glória do Ducado de Carniola (1689), de Johann Weikhard, que abordou o terror que um aldeão "morto-vivo" chamado Jure Grando Alilovic causou em um vilarejo na Ístria antes de ser decapitado por um padre local.

Representações dos vampiros em Nosferatu, de 1922, e Drácula de Bram Stoker, de 1992. (Fonte: Prana Film/Columbia Pictures/Reprodução)Representações dos vampiros em Nosferatu, de 1922, e Drácula de Bram Stoker, de 1992. (Fonte: Prana Film/Columbia Pictures/Reprodução)

Outras pessoas já pensam em um vampiro parecido com o Drácula de Bram Stocker, inspirado em Lorde Ruthven da literatura inglesa de John Polidori, em The Vampyre (1819), e no gótico Varney, O Vampiro (1845), de James Malcolm Ryder. Esse tipo de vampiro é elegante, imortal, sexy, rico, de boa aparência, extremamente inteligente e um sedutor tão profundo que é igualado aos demônios mitológicos íncubos. Eles não têm em nada a ver com as criaturas de sua origem, consideradas "primitivas", pois podem ser melhores até que os humanos em todos os aspectos. 

Apesar de as pessoas imaginarem que foi com o Lestat de Lioncourt, de Anne Rice, ou com os Cullen e Volturi, na saga Crespúsculo de Stephanie Mayer, que fizeram as pessoas desenvolverem uma espécie de fetiche por vampiros —, isso começou há muitos séculos, até mesmo antes da era de ouro do gótico alavancada por essas criaturas, e possui um nome: teratofilia.

Do mito para a sociedade

(Fonte: Birmingham Museum and Art Gallery/Wikimedia Commons)(Fonte: Birmingham Museum and Art Gallery/Wikimedia Commons)

A teratofilia é a fantasia ou atração sexual por criaturas monstruosas, portanto, é definida clinicamente como uma parafilia — que já foi definida como "perversão sexual" e "desvio sexual" pela psicologia, sendo a experiência de intensa excitação sexual a objetos, situações e fantasias atípicas.

A sociedade experimenta esse sentimento desde à Grécia Antiga, quando o termo foi cunhado, derivado das palavras teras e philia, "monstro" e "amor", respectivamente. Os teratófilos possuem uma aproximação incontrolável por anormalidades físicas, como defeitos congênitos, e acreditam que seus desejos são mais amplos do que a sexualidade. Dessa forma, a atração que sentem permite valorizar a beleza onde o senso comum sugere que não deveriam.

(Fonte: Wikimedia Commons)(Fonte: Wikimedia Commons)

No entanto, apesar de haver essa atração por algo considerado “esquisito”, os teratófilos são incapazes de se envolverem em relações sexuais porque tudo o que desejam tende a ser fictício. É nesse momento em que a zoofilia, prática e satisfação sexual com animais, acaba cruzando o caminho da teratofilia.

Isso porque essa atração surgiu com a lenda do Minotauro, em que a rainha Pasífae de Creta se mostrava desesperada para fazer sexo com um touro, ordenando que um carpinteiro chamado Dédalo construísse uma vaca de madeira para ela subir e ser levada até um prado para ter a relação com o homem metade touro.

Através do tempo

(Fonte: RKO Radio Pictures Inc./Reprodução)(Fonte: RKO Radio Pictures Inc./Reprodução)

Há uma correlação biológica sobre o motivo das pessoas fantasiariam com coisas estranhas, visto que o amor, medo e orgasmo sexual, todas emoções intensas, são controladas pela mesma parte do cérebro humano, o hipotálamo.

Socialmente, o ser humano há séculos é ensinado a reprimir o sexo e as expressões sexuais pela cultura e pela Igreja, o que fez aumentar mais ainda a sedução por aquilo que é perigoso e proibido — do banal ao bizarro. Essa contenção só diminuiu com a aceleração da Europa renascentista, quando houve uma rápida disseminação de conhecimento com a produção em grande escala dos livros e da imprensa, com a escrita concebendo uma permissibilidade maior para as expressões sexuais. Foi na mistura de luxúria, na qualidade do que é sombrio, perigoso e beirando o anormal que a teratofilia encontrou refúgio.

(Fonte: @Unrealien1/Twitter)(Fonte: @Unrealien1/Twitter)

Em um viés mais sociológico e político, quando Victor Hugo, autor de Os Miseráveis (1862), lançou O Corcunda de Notre-Dame, em 1831, a teratofilia foi impressa na concentração dos marginalizados da sociedade, como os deficientes, as mulheres e minorias, mostrando que ser diferente atrai semelhantes, gerando uma ligação de conforto em estar conectado com outra pessoa que compartilha da mesma realidade, ainda que de maneira diferente.

O conto de fadas A Bela e a Fera (1740) de Gabrielle-Suzanne Barbot, praticamente coexiste nessa mesma narrativa, falando de duas pessoas que só estão separadas, no final das contas, por características físicas diferentes, mas dividem da mesma solidão e estranheza proporcionada pela sociedade.

A "mania do vampiro"

Jonathan Frid. (Fonte: The Dark Shadows Wiki/Reprodução)Jonathan Frid. (Fonte: The Dark Shadows Wiki/Reprodução)

Na modernidade, a década de 1950 foi responsável por relançar a teratofilia através da "mania do vampiro", que fetichizou ainda mais a imagem da criatura construída e embelezada pela atração pelo sobrenatural que aconteceu nos anos de 1800.

Em 1967, no que seria o ano final da novela da ABC, Dark Shadows, tudo mudou quando o vampiro Barnabas Collins, interpretado por Jonathan Frid, foi inserido na trama. O fim do personagem teria sido com uma estaca no peito se os fãs da novela não fizessem dele um símbolo sexual e de interesse amoroso, apesar de sua natureza.

O mesmo aconteceu com as sereias, o Pé Grande, o King Kong, os lobisomens e até alguns personagens da Marvel Comics que se valeram da teratofilia. A internet permitiu que blogs e fóruns mais obscuros cultuassem histórias fictícias escritas por fãs, conhecidas como fanfiction, e compartilhassem comentários de internautas que sonham com todos os tipos de criaturas em sua cama.

Se até a indústria de objetos sexuais moldou seus produtos de prazer a partir de a genitália de animais e personagens fictícios, como Venom, apenas pela sua natureza monstruosa, isso só deixa claro que o pico desse movimento de teratófilos está longe de ser alcançado.

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