Como a cólera em Londres mudou os sistemas de esgotos para sempre

Conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença bacteriana causada pela cólera é responsável por 143 mil mortes anuais entre a quantidade estimada de 1,3 milhão a 4 milhões de casos notificados às agências de saúde pelo mundo.

Por sua tendência de se espalhar pela água infectada, o acesso a suprimentos de água potável e saneamento básico bem regulamentado é essencial para manter a doença controlada.

Se hoje esse número de mortos se mantém, relativamente, controlado — apesar de mais de 4,2 bilhões de pessoas viverem sem acesso a saneamento básico no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) —, isso é graças à revolução feita no sistema de esgotos de Londres no século XIX após um surto de cólera, o que serviu de modelo para outros países.

Prosperando na imundície

(Fonte: ThoughtCo/Reprodução)(Fonte: ThoughtCo/Reprodução)

Além da má administração das fezes e lixo, a Londres do início do século XIX tinha túneis estreitos que apenas pretendiam evitar alagamentos na cidade, encaminhando a água por um sistema de escoamento precário para os rios Fleet e Walbrook, não servindo para a distribuição saudável da água suja.

Principalmente quem morava no subúrbio da metrópole industrial mais infame da época por seu cheiro de pura podridão, toda a sujeira humana era lançada no Rio Tâmisa que, para milhares de habitantes, também servia como fonte de água potável. Por incrível que pareça, ninguém tinha conhecimento suficiente para saber que as águas não se renovariam de um dia para o outro e levariam o lixo embora. O resultado desse contato com água contaminada veio em uma "onda" quente no verão de 1858, trazendo, além da febre tifoide, a cólera.

A situação foi pior no distrito de Soho, onde havia um grande fluxo de pessoas e nem havia chegado o rudimentar sistema de esgoto da cidade. Enquanto isso, matadouros que expeliam litros de gordura e sangue; os excrementos de animais e humanos; e outros agentes contaminantes fluíam para as valas que era o esgoto de Soho.

(Fonte: Science Museum/Reprodução)(Fonte: Science Museum/Reprodução)

Em 31 de agosto de 1854, após vários surtos de cólera que ocorreram por Londres quando o governo começou a desaguar o fluxo de água de Soho no Tâmisa, um grande surto de cólera ocorreu no distrito.

Na época, John Snow, o médico que se envolveu na situação, denominou o caso como o "mais terrível surto de cólera que já ocorreu neste reino". Ao longo de 3 dias, 127 pessoas morreram na Broad Street e cercanias. Na semana seguinte, o número cresceu para 500 baixas, sendo que a taxa de mortalidade era de 12,8% em algumas partes de Londres. Até o final do surto, 616 pessoas estavam mortas.

A solução do futuro

(Fonte: The Guardian/Reprodução)(Fonte: The Guardian/Reprodução)

Após publicar seu livro The Sanitary Conditions of the Labouring Population, em 1842, o advogado Edwin Chadwick se tornou o primeiro diretor do novo Conselho de Saúde, que visava evitar e combater futuros surtos de qualquer espécie de doença em Londres.

Chadwick deixou claro que uma reforma social e sanitária era o único meio de progresso, com a remoção de lixo das ruas, promovendo acesso à água potável e esgotos melhores. Foi engenheiro-chefe do Conselho Metropolitano de Obras, Joseph Bazalgette, que encabeçou o processo de modernização dos esgotos.

(Fonte: Pinterest/Reprodução)(Fonte: Pinterest/Reprodução)

Custou cerca de US$ 240 milhões para os cofres públicos para instalar um sistema subterrâneo com 131 quilômetros de extensão e 1.770 drenos que pudessem interceptar as águas canalizadas e acompanhar o fluxo do Tâmisa, coletando todo o lixo ao longo das margens norte e sul.

Parte do trabalho foi concluído até 1865, mostrando-se um grande sucesso. A cólera voltou à cidade apenas mais uma vez, no ano seguinte, em uma parte de Londres onde ainda não tinha acesso à nova rede de esgotos, que ficou totalmente pronta em 1878.

O Serviço Nacional de Saúde (NHS, sigla em inglês) indica que a doença já não é mais encontrada no Reino Unido atualmente.

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