A indústria charlatã de água radioativa do século XX

Tho-Radia e seu império de maquiagens e outros produtos de beleza compostos de elementos químicos radioativos, inspirados nos malefícios da Era Vitoriana, durante o século XX, não foram os únicos na esteira do aproveitamento da radiação.

No livro Living With Radiation, The First Hundred Years, Paul Frame e William Kolb expuseram o surgimento de uma imensa indústria de medicina charlatã que durou décadas e sugou milhões de dólares de seus consumidores vendendo a radiação como um produto miraculoso, em uma época em que a energia radioativa era considerada um fenômeno em popularidade — afinal, se a eletricidade havia sido descoberta há relativamente pouco tempo e se mostrado segura, então por que não a radiação?

Então, quando os cientistas começaram a usar detectores de radiação em fontes de termas naturais, eles descobriram que o gás radônio, produzido pela decomposição do tório e do urânio nas profundezas da Terra, permeia a água na maioria das termas naturais — isso foi o suficiente para o capitalismo.

Engarrafando radiação

(Fonte: That Viral Feed/Reprodução)(Fonte: That Viral Feed/Reprodução)

Por milhares de anos as fontes termais naturais têm sido usadas como spas de saúde, recebendo visitantes de todas as partes do mundo para desfrutar de seus benefícios. Então, visto que ninguém sabia o que realmente tornava essas águas saudáveis, a radioatividade em um período de tanto frenesi foi um dos palpites maiores.

Rapidamente, os empresários e empreendedores começaram a engarrafar a água radioativa e vendê-la como Água Radon, que os rivais da indústria radioativa tentaram derrubar expondo a meia-vida de apenas quatro dias do elemento radônio. No momento em que a garrafa chegasse ao cliente, a maior parte do benefício da radiação já teria acabado.

(Fonte: GenK/Reprodução)(Fonte: GenK/Reprodução)

A empresa Radium Ore Revigator, por exemplo, usou dessa acusação para poder vender seu produtor melhor e de maneira mais "científica". Ela declarou que um refrigerador de água revestido com uma grande quantidade de carnotita (um minério de urânio e rádio que sofre decomposição radioativa e produz gás radônio) armazenaria qualquer água colocada nele durante à noite, garantindo uma água fresca, potente e revigorante para beber pela manhã.

Na época, os produtos comercializados tinham níveis tão baixos de radiação que provavelmente causavam pouco dano aos consumidores, mas, com o passar do tempo e popularização da energia radioativa, a maioria das empresas passou a apostar em elementos mais poderosos, geralmente à base de rádio — que continha maior apelo comercial.

De cair o queixo

(Fonte: History of Yesterday/Reprodução)(Fonte: History of Yesterday/Reprodução)

Com uma "onda" de produtos fraudulentos — no sentido de que não emitiam os altos níveis de radiação desejados —, a indústria foi forçada a apostar em anúncios que garantiam que os produtos expunham seus clientes à dose total de radiação prometida.

A Bailey Radium Laboratories, em Nova Jersey (EUA), chegou a oferecer mil dólares a quem pudesse provar sua Água Radioativa Certificada, vendida sob a marca Radithor. A água foi a responsável por tirar a vida de Eben Byers, que fazia uso contínuo de três garrafas diárias, responsável pela manchete de 1932 que saiu no Wall Street Journal: “Águas radioativas funcionam até sua mandíbula cair”, em referência à morte do jovem.

A morte dele fez a então recém-formada agência federal Food and Drug Administration (FDA) a reprimir os produtos radioativos para a saúde, insistindo na prova de sua segurança e eficácia. Como a maioria deles não eram nem um e nem outro, muitos fabricantes foram forçados a se retirar do mercado, e a indústria diminuiu até que nenhuma gota mais fosse comercializada.

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