Conheça os segredos, a história e os mistérios dos shaolin
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Conheça os segredos, a história e os mistérios dos shaolin

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O Monastério Shaolin foi fundado aos pés do monte Song na província de Henan, na China, por volta de 480 d.C. O local é mundialmente conhecido pelo treinamento de monges na arte do kung fu do estilo Shaolin Quan. Com incríveis capacidades de força, flexibilidade e resistência à dor, os discípulos desse templo ganharam a reputação de serem os mais poderosos entre os guerreiros budistas.

Geralmente, o budismo é considerado uma religião pacífica, com ênfase em princípios como não violência, vegetarianismo e até mesmo o autossacrifício para evitar machucar os outros. Então, como podem os monges do Templo Shaolion se tornarem guerreiros?

A história dos shaolins começou há mais de 1,5 mil anos, quando um estranho chegou à China vindo de terras distantes do oeste...

A origem do Templo Shaolin

A lenda diz que no ano de 480, um monge e professor andarilho  viajou da Índia para a China. Ele se chamava Buddhabhadra, também conhecido como Batuo ou Fotuo, em chinês. De acordo com a tradição Chan budista (ou Zen budista, em japonês), o monge ensinou que a doutrina poderia ser melhor transmitida de mestre para estudante, em vez de apenas através da leitura de textos sagrados.

Em 496, o imperador Xiaowen, da dinastia Wei do Norte, deu a Batuo os recursos necessários para estabelecer um monastério na montanha sagrada de Shaoshi, localizada na mesma área do monte Song, que fica a mais de 48 km da capital imperial de Luoyang. Esse templo recebeu o nome de Shaolin – “Shao”, de montanha Shaoshi, e “lin”, que significa bosque.

O início da história shaolin

Outro famoso professor budista foi Bodhidharma, que pode ter vindo da China ou da Pérsia, mas não se sabe ao certo. Entretanto, ele se recusou a ensinar Huike, um de seus discípulos chineses. Indignado, o rapaz resolveu provar sua sinceridade e seu valor cortando o próprio braço fora. Com isso, ele se tornou o primeiro aluno de Bodhidharma.

O mesmo professor ficou conhecido por passar nove anos em meditação silenciosa, em uma caverna localizada acima do Templo Shaolin. Uma das lendas diz que ele acabou dormindo após sete anos, mas cortou as próprias pálpebras para que isso nunca mais voltasse a acontecer. Depois, elas se tornaram as primeiras plantas de chá quando ele pisou no solo.

Em 534, Luoyang e a dinastia Wei foram derrubados. Nisso, muitos templos da região foram destruídos e, possivelmente, o Shaolin também foi.

O Shaolin nas Eras Sui e começo da Tang

Por volta do ano de 600, o imperador Wendi, da nova dinastia Sui, presenteou os shaolins com mais de 5 km² de terra, além do direito de moer grãos com um moinho de água. O próprio imperador era um seguidor budista, mas a maioria de sua corte apoiava o confucionismo.

Sui conseguiu reunificar a China, mas isso durou apenas 37 anos. Dentro de pouco tempo, o país se viu dividido novamente em feudos disputados pelos senhores da guerra. Todavia, a sorte do Templo Shaolin aumentou com a ascensão da dinastia Tang, em 618, a qual foi chefiada por um oficial rebelde da corte de Sui.

Os monges shaolin lutaram bravamente a favor do imperador Li Shimin e contra o general Wang Shichong. No final da disputa, Li se tornou o segundo imperador da dinastia Tang.

O Templo Shaolin na Era Tang

Embora tenham ajudado os primeiros mestres da Dinastia Tang, os templos budistas e o Shaolin enfrentaram diversas baixas. Em 622, o Templo Shaolin foi fechado e todos os monges foram obrigados a voltar para casa. Entretanto, dois anos depois, o local foi reaberto devido aos serviços militares prestados ao trono pelos discípulos. Em 625, Li Shimin devolveu cerca de 2,26 km² aos monges do monastério.

No século 8, as relações com o imperador não foram fáceis, mas o budismo Chan floresceu com força na China. Em 728, os monges construíram um monumento gravado com as histórias sobre seus serviços prestados ao trono, como uma forma de lembrança para os futuros imperadores.

Um dos afrescos do Templo Shaolin

A transição da Era Tang para a Ming

Em 841, o imperador da Tang Wuzong, temendo o poder dos budistas, fez com que muitos monges fossem expulsos e até mesmo mortos. Entretanto, Wuzong idolatrava seu ancestral Li Shimin, portanto ele poupou os shaolins.

No ano de 907, a Dinastia Tang ruiu, dando início a um período caótico de 5 dinastias e 10 reinados. Depois disso, a família Song prevaleceu e dominou a China até 1279. Todavia, poucos registros sobre os shaolins restaram desse período.

Tudo o que se sabe é que, em 1125, um santuário foi erguido em homenagem a Bodhidharma, a cerca de 800 metros de distância do Shaolin. A dinastia Song foi seguida pela Yuan (Mongol), a qual reinou até o ano de 1368.

Uma das representações de Bodhidharma

Os shaolins na Era de Ouro

Quando a Dinastia Yuan acabou, o Templo Shaolin foi destruído mais uma vez, durante a rebelião de Hongjin (Turbante Vermelho), que ocorreu em 1351. A lenda narra que um bodisatva (um ser de luz que se aproxima da imagem de buda), disfarçado como um ajudante de cozinha, salvou o templo – na verdade, o local foi inteiramente queimado.

Ainda assim, até o ano de 1500, os monges shaolin continuaram a ser famosos por suas habilidades de luta. Em 1511, 70 discípulos morreram em batalha contra exércitos bandidos. Entre 1533 e 1555, os monges se reuniram para lutar em pelo menos mais quatro grandes guerras contra os piratas japoneses.

Parte do treino shaolin

No século seguinte, os shaolin aprimoraram seus métodos de luta desarmada. Todavia, os monges lutaram pelo lado de Ming em 1630 e perderam.

O Shaolin no início da Era Moderna

Em 1641, o líder rebelde Li Zicheng destruiu o exército monástico, saqueou o Templo Shaolin e matou ou afastou os monges. No ano de 1644, ele partiu para dominar Beijing, pôs um fim na Disnatia Ming, mas foi impedido pelos Manchus, que fundaram a Dinastia Qing.

O Templo Shaolin permaneceu deserto por muitas décadas. O último abade, Yongyu, deixou o local sem nomear um sucessor, em 1664. A história conta que um grupo de monges shaolin resgataram o imperador Kangxi dos nômades, em 1674. Portanto, alguns militares invejosos queimaram o templo, matando assim grande parte dos discípulos shaolin.

Em 1679, Gu Yanwu viajou para o que sobrou do Templo Shaolin para registrar sua história.

Os shaolin na Era Qing

Os shaolin se recuperaram lentamente dos saques, sendo que, em 1704, o imperador Kangxi fez um mandato escrito a punho em que devolvia o templo ao favor imperial. Entretanto, os monges aprenderam a ser cautelosos: o combate desarmado passou a substituir o treinamento armado – afinal, não era bom serem vistos como uma ameaça ao trono.

Em 1735-1736, o imperador Yongzheng e seu filho Qianlong decidiram renovar o Templo Shaolin e remover os “falsos monges” – artistas marciais que trajavam robes, mas sem serem ordenados. Depois, Qianlong – então imperador – visitou os shaolin, em 1750. Na época, ele escreveu uma poesia sobre a beleza do local, porém baniu as artes marciais do monastério.

Os shaolin na Era Moderna

Durante o século 19, os monges do Templo Shaolin foram acusados de violarem seus votos monásticos por comer carne, beber álcool e até mesmo contratarem prostitutas. Muitos deles consideravam o vegetarianismo como algo impraticável para um guerreiro – provavelmente, é por isso que os oficiais do governo procuraram impor o hábito aos monges shaolin.

A reputação do templo recebeu um sério ataque durante a Guerra dos Boxers, que ocorreu em 1900. Nela, os monges shaolin foram acusados – provavelmente injustamente – de terem sido os responsáveis por ensinar a arte marcial do boxe aos rebeldes.

Em 1912, Qing, o último imperador da dinastia chinesa, foi derrubado devido à sua baixa posição em comparação aos poderes intrusivos da Europa. O país entrou em caos novamente, o que só acabou com a vitória do comunismo sob o comando de Mao Zedong, em 1949. Antes disso, em 1928, o general Shi Yousan queimou 90% do Templo Shaolin. Grande parte dele não seria reconstruída durante os próximos 60 a 80 anos.

Os shaolin sob as leis comunistas

Em um primeiro momento, o governo Mao não se incomodou com o que sobrou dos shaolin. Entretanto, de acordo com a doutrina marxista, o novo poder era oficialmente ateísta. Já em 1966, teve início a Revolução Cultural na China e os templos budistas foram um dos primeiros alvos da Guarda Vermelha.

Os poucos monges shaolin restantes foram açoitados pelas ruas e depois presos – os textos, pinturas e outros tesouros do templo foram roubados ou destruídos. Esse poderia ter sido o fim dos shaolin, se não fosse pelo filme “Shaolin Shi” ou “O Templo Shaolin”, de 1982, o qual foi o primeiro trabalho do famoso ator Jet Li (Li Lianjie).

A trama do longa-metragem foi baseada superficialmente nas histórias dos monges descritas por Li Shimin e se tornou um fenômeno na China. Entre as décadas de 80 e 90, o turismo estourou no Templo Shaolin, chegando a atingir a marca de mais de 1 milhão de habitantes por ano até o final da década.

Atualmente, os monges shaolin estão entre os mais conhecidos no planeta. Eles exibem os conhecimentos das artes marciais em diversos países e milhares de filmes já foram produzidos sobre eles.

O legado de Batuo

É muito difícil imaginar o que o primeiro discípulo do shaolin imaginaria se ele pudesse ver o templo hoje. Provavelmente, ele ficaria surpreso e ou até mesmo abismado com a quantidade de sangue que já foi derramado na história do local.

Porém, para sobreviver aos tumultos que constituíram tantos períodos da história chinesa, os monges shaolin tiveram que aprender centenas de habilidades dos guerreiros. Apesar das várias tentativas de acabar com o templo, ele sobreviveu e ainda prospera hoje em dia. Logo, você ainda pode encontrá-lo na base do Monte Song.

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