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Nova Atlântida: Leicester Hemingway fundou um governo em uma jangada

Leicester Hemingway. O nome pode não lhe parecer familiar, mas o sobrenome sim. Isso porque estamos falando do irmão mais novo do famoso escritor Ernest Hemingway, membro de uma das famílias consideradas mais “amaldiçoadas” da literatura mundial devido à linhagem hereditária de suicídios.

Nascido em 1º de abril de 1915, em Illinois, Estados Unidos, Leicester ficou mais conhecido por escrever a biografia de seu irmão mais velho, “Meu Irmão, Ernest Hemingway”, pelo qual ele era obcecado desde pequeno. Fora isso, ao longo de sua vida, ele também escreveu diversos artigos sobre pesca e outras atividades por se considerar um homem e escritor de espírito livre.

Mas entre todas as coisas que fez, Leicester se destacou por um feito inesperado ao criar uma micronação, considerado uma “herança de sua família”, como os historiadores gostam de definir.

A jangada de bambu

(Fonte: TimeToast/Reprodução)(Fonte: TimeToast/Reprodução)

Foi em 4 de julho de 1964, apenas 3 anos após a morte de seu ídolo, que Leicester teve a ideia de fundar a própria micronação na Ilhas Guano com todo o dinheiro que arrecadou com a venda da biografia que escreveu sobre Ernest.

Em meados de 1844, o guano — fezes secas de pássaros ou morcegos — foi enviado para os EUA pela primeira vez, em um carregamento de 700 toneladas. Contudo, 10 anos depois, o país precisava de mais para fabricar milhares de toneladas de fertilizantes e pólvora, então o governo acabou se envolvendo em uma briga diplomática para tentar reivindicar as ilhas.

De toda essa batalha judicial, nasceu a Lei das Ilhas Guano em 1856, que concedeu aos americanos o direito de minerar qualquer parte da ilha onde um depósito de guano fosse descoberto, desde que não estivesse ocupada pelos cidadãos de qualquer outro governo.

(Fonte: Miami New Times/Reprodução)(Fonte: Miami New Times/Reprodução)

Leicester, porém, não precisou se apropriar de nenhum território, ele apenas fundou sua nação insular chamada Nova Atlântida em uma jangada de bambu que ancorou em um velho motor de carro e estacionou nas águas rasas a 13 quilômetros da costa sudoeste da Jamaica. 

Mas não se engane, Leicester tinha planos bem definidos de expansão para sua ilha. Em entrevista ao The Washington Post ele afirmou: “Não há lei que diga que você não pode começar seu próprio país”. Ele disse que metade de sua ilha o pertencia, enquanto a outra pertencia ao governo americano.

A Nova Atlântida

(Fonte: Miami New Times/Reprodução)(Fonte: Miami New Times/Reprodução)

Para sua nova ilha, Leicester pensou em absolutamente tudo, a começar por uma constituição, que teve muito como base a Constituição dos EUA, apenas alterando o nome do país para “Nova Atlântida” em todos os trechos mencionados.

O propósito do documento não incluía a referência sobre fornecer a defesa comum, como na Constituição dos EUA. Além disso, a “ambição abstrata de uma união perfeita” foi alterada por “um governo perfeito”.

Fundada como uma república, a ilha realizou suas primeiras eleições 7 meses após sua criação. Além de Leicester, estavam lá sua esposa e suas duas filhas, de 7 e 3 anos, para realizar a tarefa democrática. Em fevereiro de 1965, Leicester foi eleito presidente por unanimidade em Nova Atlântida. Seu primeiro pronunciamento para o mundo foi em uma entrevista para um jornal de Kingston, na Jamaica, que havia escrito uma coluna de seis páginas sobre as primeiras eleições. Ele alegou que seu novo país era pacífico e não tinha intenção de ameaçar seus vizinhos.

(Fonte: University Blog Service/Reprodução)(Fonte: University Blog Service/Reprodução)

No final das contas, você provavelmente deve estar se perguntando o motivo de Leicester ter criado o próprio país. Segundo um artigo da Universidade do Texas, o objetivo principal dele era criar um local onde a Sociedade Internacional de Pesquisa Marinha, fundada por ele, pudesse ser sediada.

A organização visava levantar fundos e promover a pesquisa marinha, além da construção de um aquário na Jamaica. Com sua Nova Atlântida, Leicester acreditava que poderia ajudar a proteger a pesca jamaicana. Este objetivo dava ao governo jamaicano um motivo para não barrar o empreendimento dele.

O mais próximo de um reconhecimento oficial que Leicester recebeu das autoridades foi quando recebeu uma nota da Casa Branca que se referia a ele como presidente interino da Nova Atlântida.

À deriva

(Fonte: Miami New Times/Reprodução)(Fonte: Miami New Times/Reprodução)

Toda essa “brincadeira” de micronação durou apenas até 1966, quando uma forte tempestade enviou a jangada de Leicester à deriva para o mar. Apenas a franquia de selos e objetos que ele fabricou para tentar fazer sua moeda local foram preservados pela bibliotecária Mary M. Hirth.

Mas nem a destruição foi suficiente para fazer Leicester perder as esperanças em sua Nova Atlântida. Ele passou anos especulando que ela estava provavelmente flutuando em algum lugar perto do Haiti, apesar de nunca tê-la encontrado.

Em 13 de setembro de 1982, após lutar com problemas circulatórios devido a diabetes, Leicester Hemingway findou a hereditariedade de sua família pondo um fim na própria vida, bem como seu pai, irmão e irmã fizeram.

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